
Eles têm a mesma idade. Os dois, inseguros mesmo depois de 66 anos vividos, querem saber se ainda são relevantes. Bob Dylan, o tema central da resenha do César Paulistano que está exatamente abaixo dessa, conseguiu fazer muita gente acreditar que o seu "Modern Times" era uma volta a forma, em 2006. No mesmo ano, Caetano Veloso descobriu a cena por trás dos Hermanos e procurou o rock em "Cê", um álbum corajoso (embora constrangedor, às vezes). Pra completar as coincidências lançaram, em abril de 2009, dois discos que tentam desvendar se o final da primeira década do século 21 ainda guarda um lugarzinho para dois heróis dos anos 60.
O herói brasileiro é o resenhado da vez. Pra evitar muitas análises sobre intenção, Caetano escolheu estampar uma foto noturna do mar do Leblon na frente de "Zii e Zie" (Universal, 2009). - "Hum, é provável que ele queira falar sobre o Rio de Janeiro". Sobre um Rio diferente, um Rio mais escuro, o Rio à noite. Perdeu, primeira canção do disco é um samba de guitarras, só pra reforçar a idéia. Guitarras que chegam a gritar forte, depois que (mais) um manifesto sobre o ciclo vicioso da violência na cidade for declamado por Caetano Veloso. A idéia de ouvir o discurso novamente pode parecer pavorosa mas, de alguma maneira, funciona. Sem Cais, quase tola, vai além de Copabacana e do Corcovado ("Barra, Gávea, e Arpoador" para ser mais exato) e agrada. Já Por Quem? investe nas paisagens mais escapistas do lado B de "Cê", arriscando mais (arriscando a paciência do ouvinte, também).
A partir daí, o álbum desce ladeira abaixo, em direção à breguice oitentista da pior fase de Caetano. O "Prêmio Você Foi Mó Rata Comigo" 2009, dedicado às frases mais irritantes do ano, vai ser duramente disputado por essas duas linhas magníficas: "O homem é o Lobão do homem" ou "Tarado-Tarado-Tarado-Tarado-Tarado-Tarado ni você". Escolha dificil, hein? A primeira foi retirada da pavorosa Lobão Tem Razão, que só não é pior do que o Acústico do Ex-Capitão Independente. A segunda é só mais uma linha infeliz de Tarado, uma forçada de barra desnecessária para um monstro como Caetano. Calma que ainda tem coisa pior: Base de Guantánamo é um erro crasso, uma das piores coisas já escritas nos mais 40 anos de carreira do compositor baiano. Pense naqueles musicais do Zorra Total. Agora imagine que um desses musicais seja sobre cultura hip-hop. A melodia escrota resultante desse idéia diabólica é exatamente a mesma da sexta faixa de "Zii e Zie". Acompanha um letra-denúncia completamente inapropriada? Não? Enfim...
No meio de tudo isso, um momento brilhante: Incompatibilidade de Gênios, mais um samba elétrico, esse composto por João Bosco e Aldir Blanc, radiante na voz de Caetano. Falso Leblon também se salva, puxando um papo sobre a decadência cultural da cidade. Na parte final, aí sim, reconhece-se um esforço maior pra não ser só mais um dinossauro: Ingenuidade, antigo samba já cantado pr Clementina de Jesus, é simplesmente adorável. Assim como a declaração de amor ao bairro preferido de todas as sextas feiras, a Lapa (OK, a pronúncia esquisita da palavra cool gera um certo efeito cômico, mas ainda assim é adorável). Diferentemente fecha o álbum com letra nonsense mas divertida, investindo mais uma vez num sambinha-canção.
Afirmar que artistas desse porte não precisam mais desafiar ninguém é uma verdade, mas uma verdade cruel. Felizmente, Caetano também entendeu isso e é louvavel seu esforço para dar relevância ao seu trabalho atual. A BandaCê é muito reverente? Sim. Caetano parece deslocado, às vezes? Sim. Verborragia e Caê são quase sinônimos? Sim, também. Mas diante da imagem de um revolucionário cansado e cansativo revisitando momentos dispensáveis do cancioneiro popular, esses percalços parecem pequenos... Só basta ter boa vontade (você vai precisar, de verdade). Porque, como o Rio, Caetano ainda tem seu charme.
Caetano Veloso - Zii E Zie - 67Ano: 2009
Origem: Brasil
Gênero: MPB/Samba
IN Picks: Ingenuidade, Incompatibilidade de Gênios, Perdeu
Pra quem gosta de: Zona Sul, baseado, Maria Rita, +2
Caetano Veloso - Incompatibilidade de Gênios
Caetano Veloso - Perdeu
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