Os pesadelos de PJ Harvey são bonitos de se ver
Os pesadelos de PJ Harvey são bonitos de se ver
- Clubbing: PJ Harvey + John Parish
- Na Sala Suggia. Sala 2: Kid Congo Powers & The Pink Monkey Birds, Télépathique. Parque de Estacionamento (21h30): Melanie Walz (soprano) e Remix Ensemble. Bares: DJ Apacula e Paulo Dantas, Joel Martin. Sala Roxa: Álvaro Costa. Cybermúsica: Octeto Remix.
A colaboração entre PJ Harvey e John Parish já vem dos anos 1980, quando a cantora ainda nem tinha lançado o seu disco de estreia, "Dry" (1992).
Por isso, até é surpreendente que o recente "A Woman a Man Walked By" seja apenas o segundo álbum gravado pela dupla, depois da estreia, em 1996, com Dance Hall at Louse Point.
O método de trabalho dos dois músicos parece ser simples: Parish compõe, PJ Harvey trata das melodias e das letras. O resultado é a união entre as divagações art-rock do primeiro e o universo sombrio e melodias pouco ortodoxas da segunda. Sejamos frontais: "A Woman a Man Walked By" não é um disco tão consistente e inspirado como o registo de estreia do duo.
O seu grande motivo de interesse é mesmo o trabalho de Harvey, que parece tirar do armário uma enorme colecção de fantasmas. Há amor sinistro, morte, devastação.
Apesar de o material ser manifestamente pesado, a vocalista - livre de responsabilidades instrumentais, solta para a interpretação - conseguiu torná-lo, ao vivo, num exercício de graciosidade. O concerto foi cativante do princípio ao fim e é caso para dizer que os pesadelos de PJ Harvey (pessoais ou imaginários, isso não interessa) são bonitos de se ver.
A Woman a Man Walked By foi interpretado na íntegra, mas cinco canções de Dance Hall at Louse Point também enriqueceram o alinhamento, aberto com o single Black hearted love e Sixteen, fifteen, fourteen, claramente os temas mais imediatos do recente disco. PJ Harvey surgiu em palco descalça, com um vestido simples, e logo à segunda canção já ensaiava uma dança, fomentando uma relação de magnetismo praticamente indesmentível com a plateia. Porém, a britânica brilhou mais intensamente por outra razão: a sua voz.
Na concepção do disco, a cantora teve tempo para explorar linhas melódicas pouco óbvias, como o provam Leaving California (impressionante falsete) ou April, a que se juntaram composições anteriores como "Urn with dead flowers in a drained pool". Harvey reproduziu quase tudo de forma imaculada, como registado em estúdio.
Na banda de suporte aos dois músicos, de três elementos, destaque para o baterista Jean Marc Butty, que foi uma verdadeira locomotiva nos momentos em que a percussão pontua o dramatismo latente das canções. Reforce-se também que o espectáculo esteve longe de ser monótono: os registos explorados foram desde o blues adulterado de "Rope bridge crossing" ao folk de "The soldier" ("movido" a ukelele), passando pelo rock directo de "A woman a man walked by/The crow knows where all the little children go".
Aqui, PJ está em modo punk a ranger "I want your fucking ass" e um piano em modo assimétrico domina a segunda parte. Ou seja, há momentos menos pesados (e menos "literários") em "A Woman a Man Walked By". Em "Pig will not", a vocalista até usa um latido como refrão.
No balanço final, destaque-se o alinhamento equilibrado e inteligente, uma das razões para o espectáculo ter sido superior à soma dos trabalhos de estúdio. O concerto só terá deixado um travo amargo a quem tinha esperança em ouvir alguns temas da carreira a solo de PJ Harvey. Para esses, fica o consolo de que viram uma artista mais liberta e genuína do que em grande parte desse percurso. E não se menorize a responsabilidade de John Parish numa parceria altamente estimulante para ambos.
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