Não podemos adiar o coração

2009-07-14 10:29
Muda Que Muda

Não podemos adiar o coração

10.07.2009 - João Bonifácio
diminuiraumentar

 

"Muda Que Muda" é o segundo disco de João Coração em seis meses. Vê-o transformado em Gainsbourg de Sesimbra, aristocrata arruinado dançando um último bolero. É um disco de Verão, mas cheio de angústia, como o seu enigmático criador.

Meio ano depois de "Nº1: Sessão de Cezimbra", eis "Muda Que Muda", o excelente segundo disco de João Coração. O mais idiossincrático baladeiro da nação transformou-se no rei das canções para beira de piscina de "resort" de férias e a mudança é de monta: onde antes havia canções de Inverno, melancólicas e cheias de angústia e charme, agora há canções de Verão, melancólicas e cheias de alegria angustiada. Na altura chamámos-lhe "vagabundo romântico em pantufas"; agora ele parece um sedutor existencialista em chinelas. O Gainsbourg de Sesimbra. O Hank Williams dos letrados. O futuro vencedor do Festival da Canção.
Mas mesmo entre os amigos de Coração há quem o defenda ferreamente e quem não o aprecie.

"Não chego a perceber se alguns amigos não gostam das minhas canções ou implicam comigo. Como são pouco claros não faço perguntas", diz, antes de acrescentar que tudo pode ter mudado, porque "agora até o Manel [Fúria, vocalista e líder d'Os Golpes] gosta deste disco".
A ambiguidade da recepção a Coração começou com uma canção que está em "Muda Que Muda", mas que tinha saltado cá para fora de forma oficiosa aquando do primeiro disco: "Sofia".

A 21 de Novembro de 2008, dia em que o Ípsilon fez capa com Coração, Tiago Guillul, Manuel Fúria (d'Os Golpes) e Samuel Úria - uma capa sobre a chegada de novos cantautores em português - João gravou um vídeo de uma canção que acabara de compor. Tinha acabado de lançar "Nº1: Sessão de Cezimbra" e talvez fosse sensato lançar um vídeo bem preparado de uma canção terminada e disponível.

Mas não. No vídeo Coração canta "Sofia" rodeado de raparigas com ar blasé, que ora lêem ora olham o infinito, indiferentes à performance do bardo, que canta de forma desafinada uma canção que nitidamente ainda precisa de trabalho. Ao contrário do que acontece com os vídeos oficiais, o som não está pré-gravado (ele nem tinha gravado a canção), é som directo.

O vídeo foi a desculpa que os detractores precisavam para o qualificar de fraude. Quando lhe perguntamos agora se aquele vídeo era uma piada, mantém-se semi-críptico: "Alguém pôs um comentário no vídeo da 'Sofia': 'Mas isto é a sério ou é a brincar?' E o Pedro Fernandes Duarte, que fez o vídeo, respondeu: 'Isso terás de deixar o coração responder'".
Isto é como o humor de João Coração funciona: nunca há um laçarote no final que nos diga "Hey, isto era uma piada" que nos permita ficar descansados e seguir com a nossa vida. Como todo o bom tipo que não joga de acordo com as regras convencionais, atira: "Aquilo era o vídeo para a última canção que tinha feito. Só isso".

É nítido que não lhe interessa proteger a sua imagem, ou deixar sair apenas o que está perfeito. Ele próprio diz que mesmo agora, com "Sofia" editada oficialmente em "Muda Que Muda", a canção "ainda não atingiu, em nenhuma das duas versões, o que poderia atingir". E no entanto não se importa que haja aquele vídeo. "Só o tempo falará sobre o valor da coisa e nunca haverá uma versão final de uma música".
Tem uma visão curiosa do negócio da música, que oscila entre o racional e o ingénuo: "Quando dou uma canção às pessoas é só a versão que gravei naquele dia. Não quer dizer que não tenha feito melhor sozinho em casa, ou que não vá fazer melhor vinte anos depois ao vivo. É um processo que nunca acaba. Não vou perguntar-me muitas vezes se já é a versão final ou não. Senão nunca acabava uma canção".

Não é só no vídeo de "Sofia" que o estranho humor de Coração deixa as pessoas sem saber o que pensar. A capa de "Muda Que Muda" também tem deixado muitos sem saber o que pensar: Coração surge de camisa aberta, olhar de carneiro mal morto, e aquilo está próximo das capas de Michael Carreira ou de Julio Iglesias.

"As pessoas ficam sem jeito com aquela capa. Não sabem o que hão-de fazer. São pessoas que não estão confortáveis consigo próprias e sentem-se ameaçadas com quem está. A liberdade pode parecer uma ameaça mas não é. É só um tipo a fazer uma coisa que lhe apeteceu fazer".
Isto é o lado filosófico de Coração, rapaz de quase trinta anos que faz muitas perguntas a si mesmo e é de uma honestidade desarmante. "Eu também nunca sei quando é que estou a gozar e quando é que não estou". Ele simplesmente experimenta.

Aristocrata falido

Encontrámo-nos em Sesimbra, onde a esposa de Coração tem um pequeno e simpático apartamento, para conversar acerca de "Muda Que Muda". A expansiva barba que ostentava da primeira vez que o víramos, há meses, desapareceu para dar lugar ao cinzento de pelos de três dias. Vem de calções, t-shirt e sandálias e mantém aquele ar de quem não sabe muito bem porque está ali mas quer ver até onde a coisa vai parar.
Estava ali em retiro: "Para saber o que vou fazer da minha vida". A dado momento da tarde, quando lhe perguntamos se vai continuar a fazer discos a cada semestre, atira: "Sei lá se vou continuar a fazer música". Depois continua: "Sinto que ainda tenho canções para dar. Mas não penso sobre isso. Deixo que a música decida. A obra tem de nascer de forma visceral".

Por mais contraditório que isso pareça num tipo doce e educado, essa visceralidade cabe-lhe bem. É o tipo de homem que está sossegado e discreto a noite toda antes de cometer um acto inesperado só para ver no que dá. É um solitário: "Não tenho grupos de amigos. Nunca tive".
Percebemos melhor as suas angústias acerca do seu futuro musical quando nos confessa que ficou ofendido por termos descrito as suas canções como produto do tédio burguês.
"Que é que sabes sobre a minha vida?", atira, com o tom doce mesclado por certa amargura. "Não sou burguês. Sou um aristocrata falido". É verdade: na família corre sangue azul, e embora não faça gala em falar disso, as obrigações inerentes interrompem-lhe o sono: herdou uma casa que está na família desde o século XVI e não tem dinheiro para a arranjar porque gasta-o todo em instrumentos e microfones.

Consegue ser desconcertante sem esforço. É capaz de atirar uma frase como: "Só compro o jornal quando me dizem que escreveram sobre mim" com uma candura que retira qualquer vestígio de narcisismo. Por vezes parece um homem que não sente à vontade "neste mundo com excesso de iconografia". Durante uns minutos versa acerca do actual excesso de dados, de falta de referências, de ausência de Deus. "Temos dados sem informação, que não se transformam em conhecimento. Temos falta de sabedoria".

Não é - de todo - encaixável numa "figura-tipo". Num segundo diz: "Tenho andado alheado das novidades. Dou por mim com prateleiras de discos parecidas às dos meus pais e dos meus tios" e podíamos tomar esta frase como provocação blasé. Mas depois de uma longa pausa (faz pausas longas) conclui de forma impiedosa: "Anda tudo muito preocupado com a estética e pouco com o que interessa, que é a vida".
E está a falar muito a sério.

Tudo instinto

"O que une estas canções é serem canções de adeus", confessa a dada altura, munido de guitarra na varanda do apartamento com vista para a praia de Sesimbra.
A tarde toda foi explicando que o novo disco é acerca de aceitar mudanças, seguir em frente, etc. Nunca concretiza a ideia com exemplos da vida pessoal, porque nitidamente preza a sua intimidade e um certo pudor.
Surge - depois de ganhar confiança - como um homem à procura de chão, de algo fiável, mas cuja natureza inquieta não o deixa estar sossegado no mesmo sítio. As palavras que mais repete são "liberdade" e "verdade". Proclama várias vezes o seu empenho em "viver em verdade", em não mentir acerca do que deseja. Diz querer constantemente perceber o que quer de cada situação e levar o que descobre a fundo, independentemente das consequências. "O tentar viver com a verdade obriga-te a um grande esforço se não queres tornar-te um misantropo".

A frase implica teimosia e obsessão e Tiago Guillul confirma. Guillul, músico, compositor e um dos fundadores da editora Flor Caveira, conta que aquando da gravação do vídeo de "Sofia" Coração decidiu que devia cantar rodeado de raparigas. "Ele foi pedir a todas as raparigas que estavam por ali para se juntarem a ele. É assim que ele funciona".
A cena repetiu-se recentemente: quando marcámos a entrevista dissemos-lhe que devia ter fotos de promoção rodeado de raparigas, num gozo ao vídeo de "Sofia". Uns dias mais tarde encontrámo-lo num showcase d'Os Golpes na FNAC do Chiado. Tinha umas maracas e quando o concerto acabou andava a convencer as raparigas a tirarem uma foto com ele. (E conseguiu.)

Os exemplos tornam nítido que o lado solitário de Coração anda de mão dada com um lado impulsivo. "Eu não sou tanto de andar em matilha. É difícil fazer uma viagem própria quando se está sempre em grupo."
Conta que todos os músicos que estão com ele estão-no graças à sua lata. Aborda-os sem os conhecer de lado algum e convence-os a gravar. Não lhes dá pistas: reúne-os, mostra as canções e eles que se desenrasquem. "Não dou sugestões porque quero que os músicos se entreguem e descubram algo de original no pouco tempo que temos. Aproveito a energia da espontaneidade. Eles fazem o que têm de fazer sem se poluírem com ideias".

Quando inquirimos Guillul, que é fã, acerca dos méritos musicais de Coração ele atira prontamente: "Aquilo é tudo instinto".
Sentados no sofá do apartamento da Ericeira acreditamos. Coração mostra os seus instrumentos, exibindo orgulhosamente um Omnichord, instrumento de brincadeira dos anos 70. Tem um botão por cada acorde simples, outro por cada respectivo acorde menor, e outro ainda por cada acorde de sétima. Do lado direito tem uma espécie de autocolante com uma escala que se toca deslizando o dedo. (Funciona aproximadamente como um acordeão).

A dada altura demonstra como o Omnichord funciona e tudo aquilo sai-lhe de um rojo: música celestial, divina, uma ponte entre Bach e música de elevador, um primo bastardo dos Air, o dedo médio da mão direita deslizando e saltitando a velocidade espantosa por aquela escala, os dedos da esquerda fazendo bruscas mudanças, criando melodias lindíssimas. Pedimos-lhe para repetir, mas não tem a mínima noção do que acabou de tocar.

Mas é essa impetuosidade que o impele, foi ela que o levou a fazer um segundo disco tão depressa. "Eu tinha-lhe dito que este ano não o podíamos editar, porque só tínhamos dinheiro para o disco do Samuel Úria e do B Fachada", conta Guillul. Mas Coração não desarmou "e gravou tudo às escondidas". Quando Guillul ouviu o produto final cedeu.
Perguntamos por fim a Coração o que ele próprio acha deste disco e ele mostra-se orgulhoso. Com graça diz que "a festividade na música portuguesa é uma coisa muito contida" e que por isso se orgulha de na canção-título haver "uma espontaneidade que é muito curiosa". Gostaria que "Passo a passo" servisse de banda-sonora para a reprodução de portugueses. "Seria bom, num país que está a envelhecer, que eu pudesse contribuir para o rejuvenescimento da população".
Quando lhe perguntamos se ele acha que finalmente vai deixar de haver dúvidas a seu respeito, ele atira com ferocidade: "Estou-me a cagar para o que as pessoas dizem de mim. Estou mesmo".

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