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Notícias

2009-05-23 11:51

Os efeitos da guetização no comportamento dos palestinianos

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"The Time That Remains", de Elia Suleiman

Os efeitos da guetização no comportamento dos palestinianos

22.05.2009 - Vasco Câmara, em Cannes
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O "Buster Keaton da Palestina", Elia Suleiman, e a sua obsessão de vida: a condição dos "árabes israelitas".

Elia Suleiman não faz muito para que deixem de lhe chamar "o Buster Keaton da Palestina" -continua a tirar proveito daquele seu olhar melancólico, que agora está emoldurado por farta cabeleira negra onde desponta uma "sontagiana" madeixa branca -, mas preferia que a etiqueta de "cineasta palestiniano" caísse. Como? Vai respondendo nas entrevistas: tornando os filmes tão "universais" que o próprio mundo passa a ser a Palestina. Esta resposta tem um equivalente visual naquele plano de "The Time that Remains" em que Suleiman olha em silêncio para o muro com que os israelitas isolaram os territórios palestinianos - "barreira de segurança", segundo as autoridades - e... salta com vara, silencioso atleta para além do gueto dos territórios ocupados.

Sete anos separam "Intervenção Divina" (Prémio do Júri em Cannes 2002) - pelo meio houve uma curta para o filme em episódios "Cada um o seu Cinema" - deste regresso à competição de Cannes com "The Time that Remains". Sete anos de observações em blocos de notas, de acumulação de pormenores do quotidiano, o processo que o realizador utiliza para criar na mente um compósito de imagens que dá origem, depois, a um filme. É demasiado tempo para o regresso ao mesmo -é uma observação que pode ser oportuno fazer a "The Time that Remains", mas há uma obsessão na vida de Elia Suleiman. Este é o terceiro filme de uma trilogia, iniciada com "Crónica de um Desaparecimento" (1996), com que o cineasta de Nazaré se implica, filmando-se e à história da sua família, na História da Palestina. Na condição daqueles que, como os Suleiman, não saíram de casa quando Estado de Israel se formou e os ocupou, em 1948, tornando-os "árabes israelitas" - condição que transformou pessoas em "zombies" identitários, como Elia mostrava, filmando o pai e a mãe a adormecer frente à imagem da bandeira e o som do hino israelita, na televisão, em "Crónica de um Desaparecimento".

"The Time that Remains" continua a mostrar esses efeitos da guetização no comportamento dos palestinianos, apenas explicita, em "proustiano" título, o trabalho de reconstrução da memória. A melancolia das keateanas ou chaplinescas pantomimas ocupa, agora, o terreno da iconoclastia que explodia em "Intervenção Divina". É que o pai e a mãe de Suleiman morreram, entretanto. O filme é uma homenagem de um filho a partir dos diários que o pai, resistente em 1948, manteve, e das cartas da mãe à família que se exilou. Cobre um período que vai de 1948 aos nossos dias, ou seja, é na sua primeira metade um filme de reconstituição histórica. Este é um dos seus problemas, aliás: a pantomima burlesca que Suleiman engendrou não liberta a afirmação de um estilo, a determinação de uma escolha. O minimalismo resulta constrangido, como se fosse uma forma de contornar deficiências de produção. É na segunda parte - a actualidade, o regresso de Elia Suleiman a casa, ao que desapareceu e ao que ficou - que "The Time that Remains" ganha fôlego e encontra a gravidade de "Crónica de um Desaparecimento". E é de uma tristeza irremediável.

Suleiman fugiu a ser zombie. Viveu em Nova Iorque, Beirute, agora vive Paris, fez do seu "no man's land" a resistência à alienação e ao gueto. É essa a opção - do género: "para ser estrangeiro na minha terra, mais vale ser estrangeiro em qualquer terra" - da personagem principal de "Amreeka", primeira obra, exibida na Quinzena dos Realizadores, de Cherien Dabis, uma americana filha de pais palestinianos e jordanos.

Uma mãe divorciada e o filho, fartos do quotidiano dos territórios ocupados, partem para os EUA, ao encontro da família que emigrou. Passa-se tudo isto na altura em que George W. Bush invade o Iraque, de forma que a integração desta mãe e deste filho, algures no Illinois, fica obrigada a uma série de difíceis negociações. Não se podem apontar facilidades a "Amreeka", o que o torna logo um filme simpático. Mas é claramente o filme de alguém, Charien Dabis, que em vez da exterioridade, da posição do "outsider" Suleiman, das possibilidades de experimentação que essa condição pode favorecer, vive dentro e filma de dentro. Desde logo dentro de um sistema narrativo - é o filme de uma estreante nas longas-metragens que já era produtora e argumentista de televisão (colaborou, por exemplo, para a série "The L Word").

2009-05-23 11:50

Quanto mais o conhecemos, mais misterioso ele é

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Andy Warhol

Quanto mais o conhecemos, mais misterioso ele é

21.05.2009 - Vítor Belanciano
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Andy Warhol continua a olhar para nós. Em todo o mundo, com destaque para uma retrospectiva em Paris, volta-se a reavaliar o seu legado. Andy, nunca pareceu estar tão presente.

Foram décadas de discussão permanente e de mediatização sistemática. Toneladas de documentos produzidos sobre ele. Já tudo parece ter sido dito sobre Andy Warhol. Nasceu a 6 de Agosto de 1928, Pittsburgh. Morreu a 22 de Fevereiro de 1987, em Nova Iorque. Nenhuma data especial se celebra este ano.

Mas entra-se nas livrarias mais comuns de Paris e em destaque estão livros dele. Nos cafés mais mundanos discute-se a sua obra. Nos transportes publicita-se a maior exposição dedicada ao autor desde 1979, aquela que é a mais vasta mostra de retratos da sua autoria alguma vez exibida, "O Grande Mundo de Andy Warhol", no Grand Palais - até 13 de Julho - ou a mostra "Warhol TV", no La Maison Rouge, dedicada aos programas que criou para TV.

Uma mostra da Hayward Gallery de Londres, aberta ao público até Janeiro último, era publicitada com a frase "pensam que o conhecem? Pensem novamente!"

Parece que o mundo está mesmo decidido a fazê-lo. Nos últimos meses, de Berlim a Amesterdão, outras cidades tiveram exposições suas e aquela que será a grande exposição de Outono da Tate Modern de Londres - "Pop Life: Art In A Material World" - irá interrogar o seu legado, olhando para as sucessivas gerações de artistas que se guiaram pelos paradigmas que propagou, de Jeff Koons a Tracey Emin, de Keith Haring a Takashi Murakami ou de Damien Hirst a Cindy Sherman.

Nos Estados Unidos circula a exposição "A Música e a Dança na Obra de Warhol", que interpela a sua relação com a música. São Francisco e, mais tarde, o museu Andy Warhol de Pittsburgh irão receber esta mostra, iniciada pelo Museu de Belas Artes de Montreal.

Warhol, o pintor, o fotógrafo, o cineasta, o fundador em 1969 da revista "Interview" dedicada aos "ricos e famosos", o mentor do grupo rock Velvet Underground, o homem da TV nos anos 80, o actor, o manequim, o "dandy eterno", estratega das aparências, das superfícies, dos rostos, dos aspectos imprevisíveis, volta a ser reavaliado. Nunca desapareceu, é verdade. É omnipresente. É impossível pensar o nosso tempo sem ele, mas existem alturas em que parece estar mais do que nunca no meio de nós.

Porquê agora? Os mais cínicos dizem que é apenas uma reacção das instituições artísticas que, face ao clima de crise, preferem apostar em valores seguros, capazes de atrair o grande público.

Não é essa a visão do francês Alain Cueff, comissário da exposição de Paris. "É verdade que é uma grande figura, mas está longe de ser consensual", diz-nos. "Ao contrário do que se possa pensar, não o foi nos anos 60 e 70 e hoje também não. Às vezes é demasiado subtil e labiríntico para ser entendido na totalidade pelo grande público e, outras vezes, é visto como sendo apenas um artista pop, no meio artístico, o que é redutor. A multiplicação de exposições é, precisamente, um sinal evidente da sua complexidade."

A fila gigante à entrada do Grand Palais, e os sucessivos salões repletos num vulgar dia de semana, parecem contradizê-lo, mas percebe-se o que quer afirmar. Warhol é alguém que se oferece às mais diversas interpretações. Quanto mais parece que o conhecemos, mais o mistério se intensifica. Os olhares sobre ele parecem infinitos. É isso que está a acontecer hoje.

Revisitação constante

A maior parte das retrospectivas da sua obra tinham sido concebidas e produzidas nos EUA. Agora também a Europa o faz. E o olhar é, por vezes, diferente da simples ideia do "pai da arte pop."

Por outro lado, a sua obra é de tal forma aberta, espécie de fenómeno social total onde todos se podem reconhecer pelo menos um pouco, que todos podem procurar a sua verdade nela. É isso que tem acontecido nos últimos anos, com artistas, músicos ou pensadores revisitando o seu legado, cada um deles saindo dessa experiência capazes de fornecer elementos de ligação distintos com a realidade artística actual.

Da dança ao cinema, da música às artes plásticas, da escrita à televisão abriu portas. Os Daft Punk, arautos da música de dança, revêem-se no seu minimalismo radical, na aproximação conceptual e na forma como subverte aspectos menos credíveis da sociedade de consumo. Tal como ele, cruzam linguagens entre a arte, a moda, a música ou o design gráfico.

Criadores de moda como Marc Jacobs ou fotógrafos como David LaChapelle destacam a visão transversal e a multiplicidade e força das imagens ligadas ao seu trabalho, fáceis de serem apropriadas por todos. O cineasta Gus Van Sant diz que é "mais importante e, provavelmente, mais conhecido hoje do que quando morreu", enquanto a fotógrafa Nan Goldin destaca os "Screen Tests", porque "mostram as pessoas tal como elas eram."

O mercado artístico dos últimos trinta anos rege-se pelos seus princípios teóricos e as fronteiras da arte foram esticadas por ele. Recentemente, o coreógrafo francês Jerôme Bel, na revista "Les Inrocktibles", contava uma história exemplificativa. Um dia, Andy terá convidado para jantar em sua casa John Lennon e Yoko Ono, o coreógrafo Merce Cunningham, o músico John Cage e Madonna. Para entrarem no apartamento, tinham que descalçar os sapatos. O único protesto veio de Madonna que terá dito que lhe era mais desconfortável mostrar os pés que os seios.

A história, segundo Jerôme Bel, ilustra como, para Warhol, não havia "alta" e "baixa" cultura. "A ideia que Cage, Cunningham, Warhol e Madonna - quatro dos meus heróis - pudessem jantar juntos parece-me emblemático da arte pop, uma maneira livre de pensar o mundo", dizia. Através de Warhol diz ter entendido que a cultura pop podia ser tão rica e reveladora, uma forma de pensar o mundo, como a chamada cultura erudita.

Voltar às referências

Mas a profusão de arquétipos que tocou vai muito mais além. Problematizou os limites da relação entre arte e economia. Legitimou o processo que torna possível a transformação de uma banal imagem dos "media" numa obra de arte. Interrogou a ideia de autoria, através de uma simples assinatura. Fez a apologia do universo da fama ou denunciou-o, expondo-o. Nunca separou ficção e realidade. Antecipou a tele-realidade, profetizando que todos teriam direito a "quinze minutos de fama".

Nele a banalidade transmutou-se em excepção. Colocou no mesmo pedestal Mao, Marilyn, latas de sopa, acidentes, suicídios, crânios, a morte. "A morte pode fazer de vocês estrelas", disse.

Dario Oliveira, um dos responsáveis pelo Festival Curtas de Vila do Conde, este ano de 4 a 12 de Julho, e que apresentará um projecto comissariado pelo Museu Andy Warhol de Pittsburgh ("13 Most Beautiful... Songs For Andy Warhol's Screen Tests"), é da opinião que o renovado interesse em torno da sua obra se deve à falta de pontos de referência neste período. "Vivemos a grande velocidade, há vazios, faltam referências", diz. "Da música à arte contemporânea há convulsão. É necessário voltar atrás, perspectivar as coisas. A presença dele, agora, deve-se a isso. É uma personalidade central, estruturante, pela sua vida e pela sua obra. É necessário não esquecer que foi ele que impôs uma série de novos paradigmas, da música às artes visuais."

No festival serão apresentados 13 dos clássicos testes de imagem de Warhol, onde aparecem Nico, Lou Reed ou o actor Dennis Hopper, personagens que circulavam pela Factory, o atelier e o espaço por onde passou toda a fauna boémia e artística da época.

Originalmente concebidos na década de 60, os "screen tests", serão apresentados ao vivo com uma banda sonora composta por temas originais e versões, tocados pela dupla Dean & Britta.

Warhol ama-se. Mas também se odeia. Suscita irritações. Nas projecções dos filmes ouviu insultos. Em "Sleep" a câmara fixa-se num homem que dorme durante cinco horas. Ele, provocador, afirmou que desejava "fazer os piores filmes do mundo".

Os seus filmes ainda hoje dividem os cinéfilos. "Não participou na evolução das linguagens cinematográficas, mas teve uma contribuição fragmentada com uma obra que, através da distância do tempo, percebemos que foi importante. Os 'scream tests' não são cinema convencional, mas é apaixonante a forma como ele se apropriou das figuras que rondavam a Factory e as fixou", defende Dario.

Artista religioso

Para muitos, a verdadeira obra de arte de Warhol foi a sua vida, uma existência cercada por lantejoulas à superfície, experienciada com distância no íntimo. Depois da sua morte, a interpretação da obra artística abriu-se às mais diversas teorias, das mais frívolas às mais empoladas. Pela variedade da sua actividade, aponta Alain Cueff, ainda existe espaço para muitas surpresas.

No caso da retrospectiva de Paris interessou-lhe mostrar que os seus retratos individuais (Stallone, Eastwood, Debbie Harry, Nico, Grace Jones, Armani, Pelé, Diana, Jagger, Jimmy Carter, Joseph Beuys, Leline, Presley, auto-retratos do próprio, etc, etc) constituem também um retrato colectivo das décadas de 60, 70 e 80, até porque do princípio ao fim os retratos se impuseram como um dos traços característicos da sua obra.  

Na maior parte deles aplicou a mesma técnica, serigrafia sobre tela impressa, a partir de retratos feitos com polaróides. Na visão de Cueff a exposição tenta mostrar "um espírito habitado por uma cultura religiosa". Nos anos 60 ele inscrevia-se numa tradição moderna, "era-lhe impossível apresentar-se como um artista religioso", afirma. "Um dos desafios desta exposição foi precisamente tornar essa dimensão religiosa mais visível."

Terá sido, afinal, Warhol um artista religioso que retratou os ícones do seu tempo à imagem do que a igreja vem fazendo com as imagens de santos há muitos séculos? É possível. Aliás, a exposição de Paris é concluída com a figura de Cristo, da série inspirada em "A Última Ceia" de Leonardo da Vinci, como se afinal aquilo que fomos levados a observar ao longo de mais de 246 obras não constituísse mais do que um percurso bíblico. "Essa última obra funciona como reverberação de todas as outras", esclarece Cueff, para quem Warhol, apesar de parecer o artista mais conhecido da segunda metade do século XX, continua envolto em segredos.

"Longe de mim querer torná-lo num místico, mas há uma grande sinceridade no seu pensamento religioso. O mito sociológico do artista de supermercado, algo irónico, muitas vezes, mais não fez do que esconder essa coisa raríssima que se chama génio. Ele tinha-o. Tanto como Picasso, por exemplo."

Nos anos 60, os seus retratos tinham fortes ressonâncias autobiográficas, de Judy Garland aos membros da Factory. Nos anos 80 dominam os retratos mundanos, alguns deles encomendados - por 25 mil dólares cada - por gente rica. "Alguns desses retratos são desvalorizados porque se sente neles o cheiro do dinheiro, mas isso não os desqualifica enquanto obras" diz Cueff. "Ele pode ter pintado o 'parecer' mas utilizou meios plásticos para fazer sobressair a consistência do 'ser'".

Chegar às parábolas e ideias religiosas de Warhol, eis uma narrativa que muitos dificilmente lhe colariam. O facto de se ter tornado famoso em vida "tornou-nos preguiçosos", na forma como o olhamos, avalia Cueff. "Se lhe colarmos apenas o autocolante da 'arte pop' nunca o perceberemos inteiramente."

Hoje, mais do que nunca, parece sujeito às mais diversas reinterpretações, barómetro e espelho de várias épocas. Como esta. Ele, que um dia disse que "era profundamente superficial", deve estar contente com o efeito que continua a provocar.

Capaz das mais diversas camuflagens e reincarnações, e durante décadas suspeito de "vampirizar" tudo e todos, é agora "vampirizado". É por isso que continua tão presente. No fundo, somos todos 'warholiens'.

2009-05-23 11:49

Cannes reage à morte de Bénard da Costa

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Cannes reage à morte de Bénard da Costa

22.05.2009
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O presidente do festival, Gilles Jacob, lamentou ontem o "brutal desaparecimento" do director da Cinemateca Portuguesa

No dia da morte de João Bénard da Costa, Cannes lembrou-se que ele passou pelo festival em 2008, para participar na homenagem a Manoel de Oliveira. Num comunicado, o presidente do festival, Gilles Jacob, lamentou ontem o "brutal desaparecimento" do director da Cinemateca Portuguesa.

O texto, na íntegra: "O festival tomou conhecimento, com pesar, do brutal desaparecimento de João Bénard da Costa, director da Cinemateca de Lisboa, fundador do movimento cineclubista em Portugal. Professor e historiador de cinema, João Bénard da Costa era um erudito, um homem fino, culto, delicioso, que contribuiu enormemente para a cinematografia portuguesa. Ainda no ano passado, ele esteve em Cannes junto com Manoel de Oliveira para assistir à homenagem que o festival prestou ao realizador. Querido de todos, homem do coração, foi o seu coração que acabou por falhar. Faço uma vénia em sua memória e dirijo à sua família a emoção e condolências do festival."

2009-05-23 11:48

João Bénard da Costa: Esta vida não acabou aqui

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João Bénard da Costa
Miguel Madeira (arquivo)
1935-2009

João Bénard da Costa: Esta vida não acabou aqui

21.05.2009 - Alexandra Lucas Coelho
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Sabia tudo com paixão. Acreditava que a criação humana era "uma forma de nos defendermos contra a morte". Acreditava em dar "testemunho do que vai durar contra o que parece que está para durar". Acreditava em convencer "quem eu quero que goste tanto como eu gosto" e, "se possível, goste como eu gosto". Escreveu num português vintage de frase lançada. Quando ele escrevia, acreditávamos que sabia tudo.

Num dos muitos textos que escreveu para transmitir a paixão - por Rosselini, Mozart, Marlene, Marilyn, a Arrábida, Florença, Ticiano ou Proust -, João Bénard da Costa descreve Gary Cooper como o "homem com qualidades".

Mas talvez nenhuma outra expressão descreva melhor o próprio Bénard.
Antítese do homem indistinto, amoral e neutro, João Bénard da Costa foi, ao longo do último meio século, um homem de qualidades transbordantes, com a paixão dos que querem converter os outros.
Nascido num meio burguês católico, confortável e conservador, soube cedo que lado era o seu: o da oposição não comunista a Salazar. Mas ser convictamente não comunista não o impediu de lembrar o comunista Mário Dionísio como um primeiro mestre, nem de nos anos 60 ter ido a uma reunião clandestina na Borgonha para ouvir Álvaro Cunhal, arriscando a pele.

De resto - antes de O Tempo e o Modo, da secção de cinema da Gulbenkian e da direcção da Cinemateca Portuguesa terem feito dele uma referência vital para sucessivas gerações -, deu aulas no liceu, porque a ditadura o vetou para assistente da faculdade.
Em John Ford há "essas mortes serenas, essas mortes de homens que acreditavam totalmente na vida, no homem e em Deus", disse João Bénard da Costa em 1991, quando morreu Luís de Pina, então director da Cinemateca.

Como também ele, Bénard, acreditava "totalmente na vida, no homem e em Deus", vê-se no que fez, no que isso fez aos outros, e em tudo o que escreveu num português vintage de frase lançada, tão sumptuosa como ágil e cantabile.
Foi uma das qualidades melhor praticadas por este renascentista do século XX, a língua.
Se tivesse que viver uma vida além da sua, escolheria a de Federico de Montefeltro, senhor de Urbino e príncipe das humanidades, retratado de perfil e em carmim por Piero della Francesca.

Férias grandes

"Somos crianças feitas para grandes férias", escreveu Ruy Belo, que Bénard citava até quando parecia não dar por isso.
Nascido a 7 de Fevereiro de 1935 em Lisboa, João Pedro Bénard da Costa cresceu entre a casa lisboeta da Avenida António Augusto de Aguiar - que era o Inverno - e a casa que o seu avô paterno mandara construir para um filho tuberculoso, a Vila Raul, na Arrábida - que era o Verão.
Numa das suas crónicas "em busca do tempo perdido", conta Bénard: "A Arrábida aconteceu antes de eu acontecer. Não me lembro de mim sem me lembrar dela e vice-versa." Estava na história da família: "Meus tetravós tiveram irmãos que foram guardiãos do convento. Bisavós desciam do Barreiro, onde viviam, para lá passear, avós e pais passaram lá a lua-de-mel, quando, até fins dos anos 40, nenhuma estrada dava acesso à serra, só atingível a pé, de burro ou mula, ou, por mar."
E lá dentro eram matas de medronheiros, urzes e carvalhos, que ele se lembra de enfrentar, levado ao colo, na retirada das férias.

Quando o avô fizera a casa, só havia mais sete na serra e dez no Portinho, e durante a infância de Bénard pouco mudou. "Puxadas as redes, à noite, os pescadores vinham vender salmonetes e linguados vivos." Dos Casais chegavam as mulheres "com os figos ainda molhados", maçãs reinetas, correio, jornal e o pão fresco "com que no dia seguinte se faziam as melhores torradas do mundo". Havia "a guerra no mundo e a descalma suave na Arrábida".

E "não havia luz eléctrica (não a houve até aos anos 80), não havia água canalizada (não a houve até ao ano 2000)". Parecia ser essa a forma de estar na Arrábida: "Alumiávamo-nos a petróleo e a estearina, bebíamos água das cisternas."
Isto, a 40 quilómetros de Lisboa. "O melhor peixe do mundo, as lapas profundas e escuras, na serra e no mar, capelas e fontes, atalhos infindáveis, caminhos de cabras e de raros conhecedores." O tempo passava como se "nada de mal" lhes pudesse acontecer, a ele e aos próximos, "todos seguros da amizade dos rochedos e das matas, das ermidas e dos túmulos jacentes".
E, "ao fim de dois meses de férias, ia tudo de volta" à cidade e à luz eléctrica, gente, tapetes, pratas e os filmes contados durante o jejum cinematográfico, que na casa da serra nada havia. Tudo o que lá ficava era "o cheiro único da madeira molhada e da roupa engomada".

Vista de Lisboa, a II Guerra começou por ser uma "angústia horrorosa", em que Bénard "chorava todos os dias", julgando que podia não ver mais a mãe (entrevista à revista Pública, 2001). Isto, porque o pai achou que Hitler ia invadir a Península e mandou-o com os três irmãos para um tio em Portimão.
Já de regresso à capital, houve o dia em que o pai - um anglófono - o acordou, porque os ingleses afinal iam ganhar. E houve o dia em que ganharam mesmo: "Grandes manifestações em Lisboa, toda a gente com as bandeirinhas americanas, inglesas. Lembro-me que nesse dia apanhei o primeiro pifo da minha vida." Graças a uns polacos eufóricos que lhe deram de beber.

Durante a primária, João Bénard da Costa "passava a vida nos museus, sabia imenso de História, não sei quantos poemas de cor", "adorava conversar com adultos" e, aos 11, 12 anos, começou a ir várias vezes por semana ao cinema, com cadernos para tomar notas.
Já no liceu, era bom aluno em letras, mas "péssimo em ciências" e "uma coisa horrorosa" em desenho. "Até ao quinto ano foi uma desgraça e no quinto ano chumbei. Foi o pior ano de toda a minha vida. Passei em letras, tive que repetir ciências. E voltei a chumbar, com dois valores em Desenho. Foi o desespero total."
Tiveram que pedir anulação da prova de Desenho ao ministro.

Amigos para a vida

Mas a partir do 6º e 7º anos tornou-se mais que bom aluno e acabou o liceu com média de 18. "Uma mudança total, era outra pessoa."
Lia muito, incluindo a Vértice, onde escreviam Mário Dionísio e Óscar Lopes, estudava filosofia, ouvia ópera. Chegou a tentar Direito três meses, mas detestou. Mudou-se para Histórico-Filosóficas, o que "foi muito mal recebido na família, um choque".

Os seus primeiros grandes amigos vêm deste tempo: Pedro Tamen, Nuno Bragança, M. S. Lourenço, José Escada, Alberto Vaz da Silva. "Um grupo muito ligado, com uma grande mística das grandes amizades, para a vida e para a morte. Víamo-nos todos os dias."
Juntos estarão também no Centro Cultural de Cinema, o cineclube que Bénard dirige entre 1957 e 1960, e além deles Nuno Portas, Manuel de Lucena, Francisco Sarsfield Cabral ou Paulo Rocha. Faziam as sessões no Jardim Cinema e no Roma, as grandes paixões eram Rosselini e Bresson - e, ao mesmo tempo, Bénard ainda dirigia a Juventude Universitária Católica.

1958 é o ano em que casa com Ana Maria Toscano (em breve será pai do primeiro de quatro filhos), começa a ir a Paris (onde verá os Pasolinis, Buñuels e Eisensteins proibidos), se empenha na campanha de Humberto Delgado (durante a qual D. António Ferreira Gomes denuncia a violência do regime) e assina manifestos católicos como "uma carta ao Salazar sobre as torturas da PIDE" (e por isso ficará persona non grata para a via académica).
Termina a licenciatura em 1959, com uma tese sobre o filósofo católico Emmanuel Mounier, crítico do poder colonial e da ortodoxia, que dirigia a revista Esprit e inspirava muitos daqueles crentes inquietos.
"Éramos, notoriamente, filhos incomodados da burguesia católica nacional que, ao mesmo tempo, nos tinha dado os meios para viver comodamente e os ideais para que isso fosse uma incomodidade", lembrou António Alçada Baptista (O Independente, 1990).

Foi quando Bénard conheceu Alçada que surgiu a ideia de uma revista e até de viver em comunidade. "Estava tudo tratado, fizemos solenemente esse pacto, chamava-se mesmo 'Pacto'. Chegámos a ter um terreno para construir casas. Tudo inventado pelo Alçada. A ideia era vivermos todos da mesma coisa, de uma editora - a Livraria Moraes - e da revista."
E em 1963 sai o primeiro número de O Tempo e o Modo, com Alçada director, Bénard chefe de redacção, e textos de Jorge Sampaio e Mário Soares.

Mas para isso acontecer, houve debates inspirados por orações sobre se deveriam acolher socialistas e contestários estudantis de 1962. E "foi com uma ave-maria que entrou o Mário Soares", contou Bénard (DNa, 1997).
Mas as grandes discussões "eram artísticas". Bénard tinha de lutar por Agustina, considerada reaccionária, já para não falar de Pound e Céline.
Reuniam-se em casa de João Paes - António Pedro Vasconcelos, Gérard Castello-Lopes, Nuno Bragança, João Bénard - e passavam uma noite a discutir Les Parapluies de Cherbourg, para depois reproduzirem a gravação em O Tempo e o Modo.
E ao núcleo duro da revista veio juntar-se, como subchefe de redacção, Vasco Pulido Valente, que Bénard conhecera em 1963, e de quem ficou amigo para a vida.

Os 101

Fortalecidos pela doutrina de João XXIII na encíclica Pacem in Terris, 101 católicos portugueses assinam em 1965 um manifesto a contestar a guerra colonial. Perguntam ao regime por que "se recusa a confrontar, a dialogar e responde com a afirmação do ódio, o insulto e a repressão aos que ousam expor soluções diversas". Entre eles estão Francisco Sousa Tavares, Sophia de Mello Breyner, Gonçalo Ribeiro Telles, Lindley Cintra, Ruy Belo, Alçada Baptista e João Bénard.
"A partir daí, qualquer emprego público foi-me recusado", contou Bénard (DNa, 1997).

E em Maio de 68 saiu da Igreja Católica. Não gostou de "ver o Papa e Salazar na televisão, guardados por tipos da PIDE" (Pública, 2001), e essa imagem juntava-se a todo um processo. Acreditara numa comunidade em movimento e a Igreja era a imobilidade. "Um pensamento institucional, uma obediência ou ter que dizer o que me era soprado de cima, não."
Institucional e obediente não era certamente a edição de O Tempo e o Modo sobre o casamento, com textos a favor do amor livre e citações de Sade. Ou a edição sobre Deus, onde escreveram Eduardo Lourenço, Nuno Brederode Santos, Jaime Gama, Alfredo Barroso.

Em 1969, Bénard candidata-se a deputado pela lista da CDE, com Jorge Sampaio e Lindley Cintra. É a altura em que está mais à esquerda e aceita ir ao encontro clandestino organizado pelo PCP na Borgonha - onde, com repulsa, ouve Álvaro Cunhal aprovar a invasão da Checoslováquia. "Se se soubesse cá que eu tinha estado numa reunião com o Cunhal no exílio, eram uns aninhos de cadeia e de tortura" (Pública, 2001). "Vivi com esse espectro durante muito tempo, a ideia de que se tocassem às seis da manhã não era o leiteiro de certeza."
Sabia que "no dia em que houvesse democracia deixaria a actividade política", mas até lá tinha que "estar na luta". Não para ganhar eleições, mas para mostrar que não havia medo de falar.

Entretanto, Alçada perdia dinheiro na Moraes e O Tempo e o Modo era uma "amante cara". Bénard propôs uma sociedade por quotas, ficou como director e abriu mais à esquerda, a embriões do MRPP. Passaram-se "seis meses bons" e depois começaram as discussões. A ruptura deu-se quando os maoístas, liderados por Amadeu Lopes Sabino, quiseram arrasar um livro de António José Saraiva sobre o Maio de 68. Bénard opôs-se, foram a votos, ele perdeu e saiu.
Muitos anos depois ainda dirá que lhe custou "muito".
A boa notícia é que o regime vacilava. Numa das suas surtidas parisienses, Bénard lê no Monde que Salazar caiu da cadeira. E tão incrédulo fica que compra outro exemplar do jornal para ter a certeza de que é verdade.

Chegado o 25 de Abril de 1974, integra o Movimento de Esquerda Socialista (MES), com Jorge Sampaio, César de Oliveira, Nuno Portas. Depois, votou PS e fez parte de campanhas, mas nunca teve cartão.
Não tinha paciência.
Quando em 1995 lhe perguntaram que político mais admirava, escolheu Nelson Mandela.

Música ao longe
E cinema?

Claro que João Bénard da Costa foi sempre um cinefils, um filho do cinema. Os pais iam ver filmes todos os sábados, uma prima anotava-os, toda a gente lhe contava enredos, e ele próprio começou cedo a ir sozinho.
Mas a "cinefilia aguda" só se desenvolve a partir de 1969. "O cinema, até entrar para a Gulbenkian, não tem um lugar muito importante na minha vida. É uma coisa de que gosto muito, como de literatura, pintura ou música, sobre a qual escrevo ocasionalmente, mas não é exclusiva - até é relativamente marginal nos anos 60, uma música ao longe."
O que acontece em 1969 é que Bénard vai organizar a secção de cinema no serviço de belas-artes da Gulbenkian, com ciclos que hão-de marcar milhares de espectadores.

Que os havia, e muitos, nesse Portugal de interditos, provou-se logo na primeira sessão, em 1973, com Roma, Cidade Aberta apresentada pelo próprio Rosselini. Em cima da hora a censura ainda quis actuar, mas conteve-se por o realizador já estar em Lisboa. Tendo dormido e até ressonado na sessão - porque detestava rever os próprios filmes -, Rosselini acordou com uma ovação de dez minutos, entre gritos de "Abaixo o fascismo!" e "Liberdade! Liberdade!" Henri Langlois, o mítico director da Cinemateca Francesa, estava lá, e viu nessa explosão a emergência do 25 de Abril.

Foi também nesse ano que João Bénard começou a ensinar Cinema no Conservatório. Só deixou de dar aulas em 1980, quando - a convite de Vasco Pulido Valente, então secretário de Estado da Cultura - entrou para a Cinemateca Portuguesa como subdirector. Em 1991, sucedeu a Luís de Pina na direcção, até hoje.
Ao todo são quase 30 anos de trabalho que, além de criarem o Arquivo Nacional de Imagens em Movimento, fizeram da casa lisboeta uma parceira de Paris, Bruxelas, Madrid, Lausanne ou Helsínquia em inúmeros ciclos, capaz de trazer cineastas como Claude Chabrol ou Jean-Marie Straub e de cruzar na programação actores, fotógrafos, artistas plásticos ou escritores.

O que Bénard escreveu em livros, catálogos e incontáveis "folhas-de-sala" - sobre Buñuel, Lang, Sternberg, Hawks, Ray, Hitchcock, Mizoguchi, Dreyer, Renoir, Oliveira, Buñuel, Capra, Godard, Bergman, Lynch, Cronenberg ou César Monteiro - representou para muita gente toda uma nova possibilidade de ver cinema, e dentro dele a infinita possibilidade humana.
Depois, nos anos 90 de O Independente, esse universo fundiu-se com a própria vida de Bénard em crónicas que alternavam Os Meus Filmes da Vida com Os Filmes da Minha Vida.

Quem, entre os que o leram, não sabe como se apaixonou por Esther Williams ou Alida Valli (e Gene Tierney?, e Anna Karina?, e a Isabella que Ingrid Bergman teve com Rosselini?)
Quem consegue pensar em Johnny Guitar sem pensar em João Johnny Bénard (que sobre este filme mil vezes disse "Porque era ele, porque sou eu")?
Como Godard, Bénard acreditava que não há o mais belo dos filmes, porque 100, 300 ou 500 são, naquele momento, o mais belo dos filmes.
E amou carnalmente os actores, aqueles que fazem acontecer o inexplicável de cada vez que aparecem, e cuja existência "não se parece com a de mais ninguém".
Foi ele próprio actor, sob o pseudónimo de Duarte de Almeida e a direcção sobretudo de Oliveira, mesmo sabendo "desde o princípio" que "não era actor".
Em 2001 contava já 21 filmes, e não ficaria por aí.

Educar o gosto

Talvez só um crente possa criar êxtase, e foi assim que João Bénard da Costa escreveu sobre o tudo e tanto que sabia em permanente jogo omnívoro - não como um crítico, que sempre disse não ser -, mas como quem amava a arte porque amava a vida. Queria ser arrebatado, saber e deixar de saber.
Acreditava em dar "testemunho do que vai durar contra o que parece que está para durar". Acreditava em convencer "quem eu quero que goste tanto como eu gosto" e, "se possível, goste como eu gosto". E parecia-lhe perda de tempo escrever sobre aquilo de que convictamente não gostava - "o mundo do audiovidual" ou "a arte para o público", Orozco ou Rivera, cinema inglês género Stephen Frears ou o eixo contemporâneo Hong Kong-Taiwan.

Sendo assim "uma pessoa muito apaixonada e extrema", era inevitável que o conflito surgisse "mais tarde ou mais cedo" (entrevista ao DNa). Como se viu por algumas reacções, quando lhe foi atribuído o Prémio Pessoa, em 2001.
"E ele aceitou?", foi a pergunta do realizador José Fonseca e Costa, que considerou o "galardão demasiado importante para quem tão pouco fez". António-Pedro Vasconcelos aproveitou a ocasião para dizer que Bénard era o "arauto de uma visão nefasta do cinema". E nos últimos tempos foram-se manifestando incompatibilidades na Cinemateca.
Em 2005, José Manuel Costa - um histórico da casa, grande especialista em preservação do património cinematográfico e o organizador do ANIM (Arquivo Nacional das Imagens em Movimento) - demitiu-se de membro da direcção.

Dois anos antes, o programador Nuno Sena - hoje director do festival Indie Lisboa - demitira-se por achar que não havia espaço para o que queria fazer.
A Cinemateca é "excessivamente conservadora" e tem de ser "refrescada", defendeu Sena no Ípsilon, a propósito dos 50 anos da instituição, em 2008, considerando que não só "é possível mostrar filmes velhos de uma maneira nova", como "falta uma atenção à contemporaneidade e um cruzamento do cinema com as outras expressões artísticas".
Entrevistado no mesmo número, Bénard admitiu esse seu "dirigismo" como parte de "uma certa educação de gosto", mas recusou que a insistência em filmes antigos fosse um problema: "Ninguém considera Bach muito antigo. Ou Dante, Homero." E deu exemplos de cineastas "seus" nas últimas décadas: Lynch, Scorsese, Coppola, Malick, Kiarostami, Shyamalan, Sokurov.

Já estava então com 73 anos, no prolongamento de uma licença especial para continuar na Cinemateca além da idade da reforma.
Em Abril de 2006, três meses antes dessa licença expirar, João Bénard da Costa disse que corria o risco de "ser abatido no activo", e começou a circular um abaixo-assinado pela sua continuação encabeçado por Pedro Costa, que ao fim do primeiro dia já tinha 300 assinaturas. A então ministra da Cultura, Isabel Pires de Lima, acabou por recuar, renovando a licença especial.
Quando José António Pinto Ribeiro a substituiu, a primeira nomeação que fez foi a de Pedro Mexia, o subdirector que João Bénard da Costa quis, e foi buscar fora.
Depois, a criação de um pólo da Cinemateca no Porto deu origem a uma discórdia. Bénard era contra, o ministro era a favor - e decidiu em conformidade.

Vida e morte

A "cinefilia aguda" não afastou João Bénard da Costa de todas as outras formas que lhe eram vitais. Está tudo lá, literatura, arte, música, no que escreveu, e na forma como falava dos filmes - como os via.
Porque a criação humana era "uma forma de nos defendermos contra a morte e uma forma de compensação diante do terror que a vida inspira" (DN, 2005).
Em 1976 ouviu todo o Mozart por ordem cronológica. Foi a seguir a isso que viu o irrepetível Saló de Pasolini, e por isso viu nele o que mais ninguém viu.

Quantas vezes citou Proust? Tantas que já não o identificava. As frases apareciam como lhe tinham ficado na cabeça, Proust, Proust e Proust, porque "tudo o que há para aprender se aprende com ele".
Mas nos seus textos também vão e vêm Ruy Belo e Sophia, poetas do seu tempo e "muito lá de casa". Outros tão diferentes como Nemésio ou Cesariny - a propósito, imagine-se, de Cyd Charisse. Ou Emily Brontë a propósito de James Mason, "a voz".

E já depois dos 70 anos ainda se deixou fascinar por Cristina Campo, essa italiana "heteronímica", que terá uma arca "tão vasta como a de Pessoa", escreveu nas crónicas do PÚBLICO.
Muitos destes textos mais recentes foram peregrinações pelo seu cânone de pintores (Ticiano, Rubens, Piero della Francesca, Fragonard, Van der Weyden, Matisse, Rafael). Pelos lugares eleitos ("em Florença devia ter nascido, em Nova Iorque devia ter vivido, na Arrábida nasci e vivi"). Ou por Bolonha, onde costumava passar a primeira semana de Julho, cidade de Bentivoglios e Bevilacquas, menosprezada por turistas, apesar dos frescos, dos oratórios, das piazzas e da gastronomia. Um sossego.
Comia bem, fumava três maços de SG Gigante por dia (nos últimos tempos, Marlboro lights) e nunca deixou de rezar. Durante muito tempo achou que ia morrer no ano 2000, aos 65 anos. Sabia que não havia céu com anjos de nuvem em nuvem ou caldeirões com diabos a picarem. "Mas acredito que esta vida não pode acabar aqui: nada faria sentido, para mim, se assim fosse."

Quando lhe perguntaram qual era a sua maior esperança para o futuro, respondeu: "Conhecer Deus." Assim seja.

2009-05-23 11:47

António Lobo Antunes e Chico Buarque em Paraty

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Chico Buarque

António Lobo Antunes e Chico Buarque em Paraty

22.05.2009
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O autor português não vai ao Brasil desde 1983. Chico Buarque acaba de lançar no Brasil o seu quarto romance, "Leite Derramado"

O escritor português António Lobo Antunes e o brasileiro Chico Buarque são dois dos convidados da FLIP - Festa Literária de Paraty, a decorrer de 1 a 5 de Julho de 2009 no Brasil. O autor português, Prémio Camões 2007, cujo último livro publicado no Brasil é "Meu nome é legião" não vai ao Brasil desde 1983, segundo divulgou a organização.

Chico Buarque, que acaba de lançar no Brasil o seu quarto romance, "Leite Derramado" (irá para as livrarias portuguesas a 12 de Junho numa edição Dom Quixote), regressa à FLIP e partilhará uma mesa com o escritor de Manaus, Milton Hatoum (autor de "Cinzas do Norte", ed. Cotovia). Outros dos convidados é o jornalista americano Gay Talese (autor de "Honra o teu Pai", ed. Presença), que na FLIP conversará com o jornalista brasileiro Mario Sergio Conti, sobre jornalismo literário.

O biólogo inglês Richard Dawkins ("A Desilusão de Deus", ed. Casa das Letras) estará também na festa no ano em que se comemora o segundo centenário de nascimento de Darwin e os 150 anos da publicação de "A Origem das Espécies". Em Paraty estarão ainda a irlandesa Anne Enright (Booker Prize de 2007), o afegão Atiq Rahimi (Prémio Goncourt 2008), o americano Tobias Wolff, a francesa Catherine Millet, a artista e fotógrafa Sophie Calle, o escritor Grégoire Bouillier e o crítico de música clássica Alex Ross ( da revista "New Yorker" e autor do livro "The Rest Is Noise").

São 35 autores de nove nacionalidades, reunidos em 18 mesas e como todos os anos haverá uma homenagem, desta vez dedicada ao poeta Manuel Bandeira (a conferência de abertura será feita pelo especialista e crítico Davi Arrigucci Jr.).

Flávio Moura, director de programação deste ano, na apresentação à imprensa disse que "a FLIP 2009, a exemplo das edições anteriores, traz autores de qualidade inquestionável" e que se consolida assim como "um dos melhores festivais literários do mundo".

2009-05-20 13:59

Pedro Almodóvar e Alain Cavalier no lugar da morta

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"Los Abrazos Rotos", de Pedro Almodóvar
 
Cannes

Pedro Almodóvar e Alain Cavalier no lugar da morta

19.05.2009 - Vasco Câmara
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No filme mais caro do cineasta espanhol, "Los Abrazos Rotos", e no diário íntimo do realizador francês, "Irène", parte-se à procura da imagem de uma mulher morta. Mas as semelhanças são pura coincidência.

 

Já vimos este Almodóvar várias vezes, uma "homenagem ao cinema" assim, escrita para fazer as peças de um intrincado "puzzle" organizarem-se e formarem uma imagem inteira, feliz, no fim. Mas Pedro leva demasiado tempo a construir a desorganização de "Los Abrazos Rotos". E é demasiado rápido a acelerar em direcção à síntese final. Por isso este é um filme sobre a obsessão que é muito menos obsessivo, cinematograficamente, do que anteriores. A obsessão perdeu-se no "puzzle". E não temos a certeza se tomámos contacto com personagens ou, em vez disso, se estivemos a ver em desenvolvimento ideias de um ensaio cinéfilo que inclui referências a Rossellini, Sirk, Hitchcock, Bette Davis, Jeanne Moreau. Como se cumprisse uma função demonstrativa a seguinte história e as seguintes "personagens": um cineasta (Lluis Homar) que ficou cego devido a um acidente de automóvel que vitimou a sua actriz e amada (Penélope Cruz) e que passou a existir apenas com pseudónimo de argumentista, já que foi obrigado a deixar a realização dos filmes (ficou obrigado a existir, portanto, como fantasma), vai conseguir reconstruir o filme "noir" da sua vida. E resgatar a sua identidade.

"Los Abrazos Rotos" é o filme mais caro de Almodóvar, mas a recepção em Espanha, onde já estreou, ficou aquém do que se esperava. E Pedro provavelmente continuará aquém da Palma de Ouro de Cannes, festival onde já recebeu prémios para o argumento e realização, nunca a Palma.

Há alguém que diz, em "Los Abrazos Rotos", que há certas coisas que só acontecem no cinema: por exemplo, aqueles corpos a cairem melodramaticamente por escadarias abaixo. As coincidências entre o filme de Almodóvar e "Irène", de Alain Cavalier, cineastas tão diferentes, só poderiam acontecer nos filmes: também há uma mulher morta, Irène, e igualmente num acidente de automóvel. Mas o filme de Cavalier pertence à vida (do seu realizador).

Foi nos anos 70, Irène era uma ex-miss França, partilhou a vida de Cavalier. Mais de trinta anos depois, ele regressa aos seus diários, que escreveu naqueles anos, 1970, 1971 e 1972, um movimento de memória desencadeado pela morte da mãe. Essa sombra de um corpo morto paira sobre o filme, esse movimento em direcção a um reconhecimento: o realizador, a sua voz, câmara digital na mão, filmando-se e às páginas do diário, aventurando-se (porque nunca se sabe o que se vai querer ver quando se acende a luz no escuro...) por espaços outrora habitados por Irène, tentando dar corpo ao que ficou na memória, esse corpo cuja ausência foi suprida por fantasmas (como a sua fantasia, confessada por Cavalier, pela actriz Sophie Marceau...).

Com meios mínimos - câmara digital, a voz, objectos -, "Irène" é infinitamente mais vertiginoso e obsessivo do que a natureza morta de Almodóvar. Sem necessitar dos sucessivos filtros do cinema e de uma construção a forçar um "puzzle". Embora haja coisas ligadas a "Irène" que são dignas de só acontecerem nos filmes. Como aquela forma de Cavalier se despedir dos espectadores na sala, depois de apresentar "Irène" na secção Un Certain Regard: mal as luzes se apagassem, disse, iria desaparecer da sala e, lá fora, com o crepúsculo a baixar sobre a Croisette, dizer um olá a Irène, que deve andar "no ar..."

2009-05-20 13:58

Ouviu-se Jim Carey gritar em Cannes: "Vou ser paneleiro, vou ser paneleiro"

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"I love you Philip Morris", de Glenn Ficarra e John Requa
 
"I love you Philip Morris"

Ouviu-se Jim Carey gritar em Cannes: "Vou ser paneleiro, vou ser paneleiro"

19.05.2009 - Vasco Câmara, em Cannes
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Um mentiroso compulsivo, um escroque, um psicopata emocional, Jim Carrey só joga com verdade no seu amor por Ewan McGregor. Com a comédia "I love you Philip Morris", Cannes aplaudiu um actor/autor na Quinzena dos Realizadores.

 

A caminho do aeroporto de Nice para continuar a promoção mundial de "A Christmas Carol", adaptação para toda a família, em 3D e com a técnica de animação de "motion capture", de um clássico de Charles Dickens, Jim Carrey parou por uns minutos no Palais Stephanie Théatre Croisette. Onde foi ouvido a gritar, no ecrã, "Vou ser paneleiro, vou ser paneleiro!".

Antes de tamanha determinação, já tinha visto pilinhas nas nuvens. E deixara-se dos agradecimentos a Deus, de joelhos com a mulher à beira da cama, por não ter havido problemas com o filtro da máquina de café. Deixou-se disso, do coito conjugal heterossexual para marcar o ritmo do casal ideal americano, e passou a cavalgar, furiosamente, determinadamente, a todo o tempo, os machos. Fez o seu "outing". Foi uma cena assim de "I love you Philip Morris", logo nos primeiros minutos do filme, em que Carey investe contra um "bear" que está de joelhos, que fez os distribuidores americanos engasgarem-se com receios e dúvidas. De tal forma que só no fim-de-semana anterior ao início do Festival de Cannes é que esta primeira-obra dos argumentistas John Requa e Glenn Ficara encontrou quem a vai distribuir no mercado americano, apesar de ter sido, há meses, uma das sensações do Festival de Sundance. Foi também uma da sensações da Quinzena dos Realizadores de Cannes, "habitat" para autores, mas que hoje se fez palco para receber de pé um actor, Jim Carrey. Só por uns minutos, antes de ele continuar o périplo de promoção de "A Christmas Carol", a animação que Robert Zemeckis fez para a Disney. Ou seja: antes de continuar a fazer de "pedaço de queijo numa ratoeira para ratos" (foi assim que definiu o jogo que escolheu jogar, a indústria), Carey apresentou ao público de Cannes um filme que lhe é caro. Para o qual estava disposto a entrar mesmo que não fosse pago. Só duas vezes, antes de "I love you Philip Morris", sentiu isso perante um argumento: foi com "Homem na Lua" e com "Eternal Sunshine of the Spotless Mind".

Carey interpreta Steven Russell, o tal que, em miúdo, já via pilinhas nas nuvens mas que apesar disso se casou, desesperou com os filtros da máquina de café e teve uma filha. Até que um desastre lhe ofereceu um momento de epifania: ser verdadeiro consigo próprio. "Vou ser paneleiro", gritou Steven, e partiu para a Florida onde fez o seu "outing" e à sua maneira prosseguiu o sonho americano. Engatando Rodrigo Santoro.

Mas Steven Russell - é uma história verídica - nunca conseguiu dizer a verdade. Mentiu sempre, não por tudo e por nada, mas "pela sua demente necessidade de aceitação" (Jim Carrey "dixit"). Foi um escroque, enganou meio mundo, deu golpes em bancos, em empresas (também porque ser "gay sai muito caro"). Uma espécie de Rei da Evasão, como o Leonardo DiCaprio de "Apanha-me se Puderes". E um dia foi preso.

Na prisão conheceu Philip Morris. Como é que poderíamos descrever Philip Morris? Tem, no filme, o rosto e o corpo de Ewan McGregor, é uma espécie de "southern belle" das peças de Tennessee Williams em corpo masculino, "always depended on the kindness of strangers". E Steven dedicou-se a protegê-lo, de verdade. "I love you Philip Morris" é a história desse "amour fou", na prisão e fora da prisão, contra tudo e todos.

Steven é um psicopata das emoções, um mentiroso incontinente, tal como outras personagens interpretadas por Carey- lembramo-nos de "Cable Guy", mas é só escolher. É um homem com dificuldade em dar a si próprio e aos outros provas da sua existência, como em "Homem na Lua" (talvez o seu papel máximo seja nesse filme de Milos Forman). Fez sentido, então, que a Quinzena dos Realizadores tenha recebido este actor: Carey, com o seu corpo, acaba por ser "autor" dos filmes em que participa. Sem desprimor para o trabalho dos argumentistas John Requa e Glenn Ficara (foram os argumentistas do politicamente incorrecto "Bad Santa", de Terry Zwigoff). Estreiam-se na realização e são impecáveis a evitar armadilhas, como a tentação de suavizar os riscos figurativos e temáticos do argumento, o que poderia acontecer se se refugiassem, por exemplo, no registo clownesco de Carey. Só este, disseram eles, podia liderar um projecto destes. Mas Carey podia também devorar um argumento destes. Mas em nenhum momento do filme a relação entre as duas personagens, por exemplo, é escamoteada em favor do virtuosismo do actor.

E um dia apanharam definitivamente Steven Russell. O Estado do Texas, quando governado por George W. Bush, sentiu-de de tal forma lesado que investiu mundos e fundos para condená-lo a prisão perpétua. Steven Russell passa, hoje, 23 das 24 horas do dia na sua cela. Só tem uma hora para descontrair no exterior. E o verdadeiro Philip Morris? Tem um "cameo" em "I love you Philip Morris", dizem as notas de produção do filme, uma figuração especial. Quem é ele? Apanhem-no se puderem...

2009-05-20 13:57

"Billy Elliot" ganhou dez Drama Desk

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Prémio Musical

"Billy Elliot" ganhou dez Drama Desk

19.05.2009
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Os vencedores da edição de 2009 destes prémios de teatro foram conhecidos ontem no LaGuardia Concert Hall, em Nova Iorque

 

O que poderá juntar "Billy Elliot" e "Shrek" numa mesma frase? Os Drama Desk Awards. Os vencedores da edição de 2009 (a 54ª) destes prémios de teatro foram conhecidos ontem no LaGuardia Concert Hall, em Nova Iorque. Entre os muitos espectáculos que mereceram o troféu que premeia produções de Broadway e "off-Brodway", um merece destaque: "Billy Elliot".

O musical que conta a história do rapaz nascido num bairro operário inglês que queria ser bailarino arrecadou dez prémios. Nem mais nem menos. A produção mereceu o prémio mais desejado de melhor musical e o júri reconheceu ainda o trabalho do encenador Stephen Daldry, do compositor Elton John e de vários membros do elenco norte-americano (Gregory Jbara e Haydin Gwynne, como actor e actriz secundários). A coreografia, as orquestrações, o som e a luz também foram premiados.

"Billy Elliot" está nomeado em 15 categorias para os prémios Tony, considerados os Óscares do teatro Ainda na categoria dos musicais, outro dos grandes vencedores da edição deste ano foi Shrek: cinco prémios no total, entre os quais o de melhor actor (Brian d'Arcy James). Nas peças de teatro, o vencedor do melhor trabalho apresentado em palco foi Ruined, de Lynn Nottage. O prémio para melhor peça revival foi para The Normam Conquests e para melhor musical revival entregue a Hair.

2009-05-20 13:55

Parece que o mundo acabou e um outro ainda não nasceu

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Bernardo Carvalho

Parece que o mundo acabou e um outro ainda não nasceu

15.05.2009
Por: Alexandra Lucas Coelho
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O brasileiro Bernardo Carvalho experimentou o pânico em São Petersburgo e o resultado é o romance "O Filho da Mãe". Um amor "gay" na Rússia de agora, violenta, corrupta, desesperada, onde já ninguém pode ser inocente. Entrevista em Lisboa

Bernardo Carvalho (Rio de Janeiro, 1960) acha que o mundo está num intervalo. As pessoas interessantes calaram-se. Uma direita infantil instalou-se, dizendo que dois e dois são quatro. Mas em arte nunca são, diz o escritor, que talvez seja anarca. Só votou em Lula quando Lula não podia ser eleito. Não tem simpatia por nenhuma religião. Pediram-lhe um amor em São Petersburgo e ele imaginou um soldado russo com um refugiado do Cáucaso. Chamou ao livro "O Filho da Mãe".

É o segundo romance a sair do projecto Amores Expressos (17 escritores brasileiros contam histórias de amor em 17 cidades do mundo - http://www.amoresexpressos.com.br/). E é o décimo livro de Bernardo Carvalho.

Para o escrever, usou pela primeira vez a terceira pessoa. O narrador está "no lugar do espectador de cinema", mas não vê tudo. A arte é como São Petersburgo, a ruína por trás da fachada.

A escolha de São Petersburgo foi sua?

Não. Ofereceram-me São Petersburgo e aceitei imediatamente. Nunca tinha estado lá, não tenho contacto com a língua russa, não conhecia ninguém. Não teria aceite Paris ou Nova Iorque. Mas se me tivessem enviado para o Haiti eu teria ido com o maior prazer, talvez mais do que São Petersburgo.

Porque é um lugar menos carregado.

Menos carregado de sentido. E para mim é decisiva a ideia de uma incongruência entre uma história de amor e um lugar. Quanto mais incompatível, mais interessante.

São Petersburgo e uma história de amor - eram as únicas obrigações?

E escrever o livro em três meses, coisa que não foi feita. E cedíamos os direitos para o cinema por uma percentagem mínima.

Tinha lido os russos...

Lógico...

Antes de viajar, o que tinha na cabeça eram essas leituras.

E uma imagem romântica da cidade, que é contraditória em relação à imagem da literatura do século XIX, Dostoievski, Gogol, em que Petersburgo é um lugar horrível.

Na hora em que me convidaram, a imagem era a do cliché, não sei porquê, talvez por folhetos turísticos. E queria-me livrar daquilo.

Como se preparou?

Comecei a ler livros de jornalistas, História recente, e, inevitavelmente, acabei lendo os livros da Anna Politkovskaia, a jornalista assassinada um ano antes de eu ir. E foi aí que descobri as mães dos soldados. Achei muito forte como essas mães se organizam para salvar os filhos - os filhos dos outros, na verdade.

Que vão para a guerra da Tchetchénia.

Vão para a guerra e estão sendo torturados no próprio exército, um exército em decadência, que era um pilar da sociedade soviética. Com o final do comunismo aquele negócio degringolou. E, moralmente, se já havia uma semente de violência, floresceu. As forças armadas já não recebiam mais dinheiro do estado e começaram a se auto-devorar.

Com episódios como oficiais mandarem recrutas prostituírem-se.

Quando você começa o projecto de um romance parece que a realidade conspira a seu favor. Tudo o que você vê é como se houvesse deus e deus estivesse te ajudando. Nessa época [de preparação], vi uma reportagem na CNN sobre um quartel em São Petersburgo que prostituía os recrutas. Juntei aquilo com a história das mães e aquele negócio começou a germinar na minha cabeça. Fui tomando notas e comecei a perceber a violência da sociedade russa.

O que é curioso para um brasileiro. Porque o Brasil é o caos, talvez seja uma das sociedades mais injustas do mundo, um negócio violentíssimo. Mas tem uma diferença, que é uma certa hipocrisia, também. A gente vive no Brasil como se estivéssemos numa espécie de jardim-de-infância. Sobretudo a pequena burguesia. Você vai-se acostumando, vai sendo anestesiado por aquela violência, mas continua com esperança. O Brasil é inocente, e essa inocência está ligada a uma hipocrisia.

O que mais me assustou na sociedade russa é que não há possibilidade de inocência. Todo o indivíduo tem uma consciência absoluta da violência que é estar vivo na Rússia hoje. Todo o mundo já passou por experiências horríveis, no século XIX, em todo o século XX. Isso cria um individualismo, um pragmatismo absoluto, porque você não sabe se amanhã vai estar morto. Aquela coisa dos oligarcas que vêm para a Europa e compram tudo é uma espécie de desespero. E essa foi a diferença para mim. É cada um por si.

Isso torna as coisas mais difíceis. O Brasil parece ter um verniz, uma inconsciência, que faz as pessoas viverem como se estivessem no paraíso.

Como se a vida humana valesse realmente, enquanto que na Rússia é um dado adquirido que não vale nada.

Exactamente. Isso muda tudo. A gente vive num estado um pouco cego no Brasil, mas acha que é possível alguma coisa. Na Rússia ninguém acha que é possível nada.

Entre aceitar o convite e chegar à cidade foi quanto tempo?

Me convidaram em Janeiro de 2007 e eu fui em Setembro.

Já tinha uma história?

Tinha. Como fiz pesquisa, toda essa ideia do caos, da violência, das mães, estava na minha cabeça. Eu já tinha uma ideia preconcebida do que ia encontrar.

Queria que fosse uma história "gay", isso desde o início. Queria que um dos personagens fosse um dos recrutas. E como seria artificial entrar num universo que não conheço, queria um olhar exterior, estrangeiro. Mas demorei muito a entender que seria um homem do Cáucaso, que é como se fosse o nordestino em São Paulo.

O "bunda-preta".

É. Tradução literal do modo como alguns russos chamam as pessoas do Cáucaso. Como se fosse o argelino na França, o mexicano nos Estados Unidos. Então no final da estada em São Petersburgo acabei concluindo que seria uma história de amor entre um soldado e um refugiado do Cáucaso.

Alugou uma casa. Isso já estava tratado antes de chegar?

Estava. O produtor de cinema [que o convidou para o projecto] pagava tudo. Fez umas ofertas muito ruins de apartamento e eu contrapus uma outra agência [sobre a qual tinha lido]. Aí havia um apartamento relativamente pequeno mas óptimo na principal avenida de São Petersburgo, a Niévski.

Com o problema de não haver ninguém no prédio.

É. Um prédio óptimo, mas comercial, onde não havia nenhum morador depois das oito da noite. E as portas eram de ferro, tanto na entrada do prédio, que se abria com código, como no próprio apartamento, que era uma porta como de cofre-forte, que se rodava. Na hora em que abri isso supus que era assim porque havia a possibilidade de assaltos bárbaros. Cheguei à noite, e o motorista da agência imobiliária disse: "Não abra a porta de jeito nenhum se não souber quem está do outro lado."

Viajo bastante, mas pela primeira vez eu estava sozinho e não tinha conseguido articular nenhum contacto.

A sua experiência é de jornalista [ex-correspondente e colunista da "Folha de São Paulo"], e a estratégia de um jornalista seria reunir contactos, gente a quem ligar.

Sempre fiz isso, sempre deu certo, e ali não sei o que aconteceu. Fui para Moscovo uma semana, e foi maravilhoso, o tempo inteiro eu estava com gente, fui a festas, a jantares. Moscovo é considerada uma cidade mais violenta, maior, mas em São Petersburgo é que tudo deu errado, eu conseguia contactos mas estavam viajando. Na última semana começaram a aparecer, mas já era tarde. O que foi óptimo para o livro, porque criei essa situação limite de desespero, que era o que eu estava procurando.

Os dois primeiros dias foram como?

Procurei criar uma rotina. Procurei uma academia de ginástica para me matricular e usei uma espécie de cibercafé como meu escritório. Saía de casa de manhã, ia para lá trabalhar, saía, almoçava, pesquisava lugares que seriam cenários, fiz turismo, conheci museus, depois ia à ginástica e escolhia um restaurante. Até que no terceiro dia fui assaltado e a rotina quebrou-se

Foi em pleno dia?

Seis da tarde, com todo o mundo voltando do trabalho, a Niévski lotada, gente andando, pegando ônibus. Percebi que tinha três sujeitos atrás de mim falando muito alto de forma estranha, resolvi parar para deixá-los passar e eles pararam. Eu andei de novo e eles andaram de novo. E isso virou uma coreografia que para mim durou uma eternidade mas deve ter sido muito rápido. Foi como aqueles documentários da "National Geographic", da zebrinha e do leopardo, os dois se olham, um sabe que vai morrer, o outro sabe que vai matar. Nós nos olhámos, eu entendi que ia ser assaltado, eles entenderam que eu entendi. Foi aterrorizante, não tinha a quem recorrer, não falava russo, nas minhas pesquisas tinha lido que a polícia russa é corrupta. A própria agência imobiliária tinha-me alertado: "Não saia com passaporte para evitar que a polícia retenha documentos e exija dinheiro." Um guia inglês dizia: "Se a polícia pedir que o acompanhe não vá de jeito nenhum, a não ser que você tenha a certeza de que está sendo preso." Acho que eu delirei a cidade. Nada aconteceria de facto...

Mas deus contratou esses três...

... para que eu pudesse escrever o livro. Fui andado, pensei que o mais óbvio era entrar numa loja, mas não sabia falar russo, tinha medo que dissessem que eu tinha roubado. Enfim, comecei a ficar totalmente louco. A certo ponto pensei correr até minha casa, mas antes resolvi olhar para trás. Foi uma fracção de segundos, e um deles já estava com a mochila aberta e o computador na mão, preso num gancho de chaves na mochila - uma coisa que eu tinha descoberto na véspera. Começou uma discussão, eu gritando em inglês, ele em russo, a única palavra que eu sabia em russo era "milicia" - polícia - e eu gritava como naqueles sonhos em que a voz não sai, mas esganiçado. Eu estava do lado de um ponto de ônibus, tinha velhinhas e ninguém se mexia. Era como se eu fosse invisível e ele também. As pessoas que conheci depois disseram que todos deviam estar apavorados. Talvez não tivessem entendido o que era aquilo.

Esse assalto me deu consciência de que a vulnerabilidade atrai o perigo, e é irreversível - você percebe que é uma espécie de íman. No Brasil eu teria sido assassinado, eu venho de um lugar muito pior. Mas isso não aconteceria em São Paulo, porque aí eu me situo bem, sei onde as coisas são, onde está o perigo, tento me precaver, e falar a língua muda completamente as coisas.

A solidão é muito vulnerável. Se eu estivesse com o meu filho, hipoteticamente, de cinco anos, certamente não teria sido assaltado. Eu teria de proteger uma criança, os sentidos se reconfigurariam, e isso já seria um escudo. Mas a solidão absoluta, eu nunca tinha vivido isso.

Como se blinda contra a violência em São Paulo?

Me habituei a uma série de práticas, mas não ando em carro blindado, não moro em condomínio fechado, meu prédio é totalmente vulnerável, ando a pé. Andar a pé em São Paulo é menos perigoso que de carro. Houve um momento em que as pessoas eram sequestradas nos semáforos, com armas, e às vezes morriam. Era para tirar dinheiro nos caixas automáticos. Então não páro de vidro aberto nos semáforos, tento não parar, isso todo o mundo faz. A vida em São Paulo não é que nem estamos aqui [sentados no miradouro da Senhora do Monte, de costas para a rua]. É de vigilância absoluta e isso torna o quotidiano muito mais pesado. Você está de olho em todas as acções à volta, nunca está realmente à vontade a não ser que esteja protegido por guarda-costas, e isso acaba criando todo um serviço para-militar, para-policial.

Por exemplo, o meu prédio é de classe média-alta, mas na minha rua mora um dos irmãos Safra, banqueiros judeus com uma fortuna incrível, e eles alugaram um andar do meu prédio para os guarda-costas. É uma espécie de rotatividade, em que fazem turnos, e são pesssoas muito truculentas, para quem não existe lei, porque a lei é a deles. Então o copeiro do banqueiro liga e diz: "O meu patrão vai sair dentro de cinco minutos." E em cinco minutos eles têm que estar prontos e na porta para seguir colados no carro. E se calha você entrar entre o carro do patrão e o deles é possível que os guarda-costas arrebentem seu carro.

Eu tenho até um pouco de vergonha de dizer que me senti apavorado em São Petersburgo, mas essa situação psicológica de solidão é muito interessante.

Diz que depois do assalto alucinou a cidade. O que é que isso quer dizer?

Acho que a distorci. Quando voltei para casa, meu medo é que me estivessem seguindo e me assassinassem. Sou muito medroso, e ao mesmo tempo o medo é um sentimento...

... estimulante?

Fascinante. E a vulnerabilidade também. São dois estados primordiais para a literatura e para as artes. Você só consegue criar alguma coisa que tenha algum valor se sentir medo e vulnerabilidade.

Se estiver em risco.

É procurar uma literatura de risco, uma arte de risco. Esse movimento de perda que também está no livro. Só quando você acaba de perder tudo é que ganha o direito à vida.

Depois do assalto, sentei no sofá, fiquei olhando para o tecto durante duas horas me acalmando: "Estou sozinho na cidade, não tenho a quem recorrer e preciso reagir, se não vou ficar paralisado. Então, vou fazer tudo como planeado, como se nada tivesse acontecido." Naquele dia eu tinha pensado ir num restaurante indiano que ficava numa rua erma, longe, distante. E esperei para sair tarde da noite, para continuar fazendo as coisas como um desafio. Eu ia, mas ia aos frangalhos, olhando para trás. Passei um mês assim, achando que qualquer coisa podia acontecer a qualquer instante. E foi quando fui a Moscovo que deu uma melhorada.

Quando voltei, as pessoas que seriam os meus contactos iniciais começaram a aparecer.

Que tipo de pessoas? As mães?

Não. Eu tinha ido a Moscovo para entrevistar a presidente da organização das mães. As de São Petersburgo são mais religiosas, rezam, mas não se responsabilizam pelos soldados como as de Moscovo. As de Moscovo são umas loucas, muito activas, tentaram criar um partido e o Putin conseguiu reverter as leis para não deixar.

Então, as pessoas de São Petersburgo não tinham a ver com as mães. Havia duas amigas que tinham criado uma agência literária russa - excêntrica, porque Moscovo é o grande centro cultural. Eram amigas do meu ex-editor inglês, e com elas foi muito legal. Uma estava fazendo aniversário na semana seguinte, tinha uma festa, e ela era casada com um arquitecto riquíssimo. Eles compraram um daqueles apartamentos comunitários, não sei se no próprio prédio [supostamente] do "Crime e Castigo". Fica num canal, você vê o Teatro Marinski, é um lugar lindo. Eram vários apartamentos, e eles foram comprando de uma família, de outra, e de outra, até que formaram uma espécie de "loft". Derrubaram todas as paredes e é um apartamento modernérrimo.

Com essa coisa dos oligarcas, as mulheres dos oligarcas começaram a construir e decorar as casas, e não sei se a classe dos arquitectos não é a segunda em termos de riqueza.

Então, era um apartamento sensacional no centro de São Petersbungo, com gente superinteressante, todo o mundo paupérrimo, porque são os amigos dela, e aí conheci um rapaz muito interessado em poesia. Tem uma coisa estranha de poesia na Rússia. É como se houvesse ainda Rimbaud. Há concursos, grupos, fãs, um sujeito que é poeta maldito, um círculo em torno dele, blogues. Endeusam esse sujeito.

Como se chama?

Não sei, esqueci. Mas esse rapaz me mandou o blogue, aliás com vírus. Era um rapaz muito interessante, que odiava profundamente São Petersburgo. Tinha vindo em adolescente de Vladivostok com a mãe e foram morar num subúrbio onde moravam as pessoas do Uzbequistão, os pobres. Depois conseguiram sair, foram para o centro, e ele é jornalista. Os jovens na Rússia têm uma urgência. Se no lado do dinheiro, da máfia, tem pragmatismo, individualismo, no lado das artes parece que você vai morrer amanhã. Isso acaba cerrando um lado romântico, meio século XIX.

Febril.

Muito febril. Esse garoto me disse: "Você conhece os guetos?" Periferia. Aí a gente foi junto. Foi quando eu encontrei o lugar onde mora o Ruslan [um dos protagonistas do livro]

E como eu estava nesse estado de pânico, quando cheguei nessa periferia, dos marginais, dos pobres, finalmente achei um lugar onde me reconhecia na cidade, que não era aquele centro de fachada, não era a cidade turística. Senti uma vida ali, uma dignidade nas pessoas, mas era um negócio de derrocada absoluta. Prédios com o ideário soviético, mas nas vésperas do fim, construído e imediatamente abandonado.

No livro é véspera da comemoração dos 300 anos de São Petersburgo, então os prédios estão a ser limpos por fora. E por dentro, tudo podre.

Tudo azulinho, amarelinho, verdinho, os palácios restaurados por razões turísticas - mas você entra e está tudo caindo aos pedaços. E a cultura interessante acontece por trás das fachadas.

Teve acesso a isso a partir do momento em que conheceu esse rapaz?

E houve um cineasta de São Petersburgo que me mostrou muitas coisas. É pobre, mas de uma família judia muito intelectualizada, que nunca foi embora. Mora num apartamento que herdou dos avós, como se fosse um negócio do "Crime e Castigo". Fica no centro, que hoje deve ser caro, mas está em escombros. O banheiro é um nojo, tudo caindo aos pedaços.

Ele é muito interessante. Tinha estudado cinema com um cineasta soviético dos anos 60 que era uma espécie de Godard, amigo do Tarkovski, e que fez um filme extraordinário que por acaso eu vi na televisão em Moscovo. Um negócio muito vibrante, a preto e branco, meio "nouvelle vague", em pleno comunismo, jovens se reunindo, recitando poemas, um filme deslumbrante, com o Tarkovski actor. Eu tinha visto isso e quando conheci o rapaz descobri que ele era uma espécie de aluno dilecto desse cineasta. Estava empregado na agência central dos correios porque queria fazer um filme e entender como funcionava a coisa das cartas, queria as histórias das pessoas. Trabalhava lá ensacando as cartas.

De uma família judia...

É, tinham sofrido uma perseguição terrível, mas ficaram.

Isso leva a outra coisa que também está no livro, o racismo desta sociedade.

É muito racista. Mas, ao mesmo tempo, a gente diz que o Brasil tem essa relação muito boa com as raças e há um racismo pesadíssimo no Brasil, totalmente hipócrita e escondido. Estou muito cheio desse racismo. Os negros são massacrados no Brasil. Diz-se: "São os pobres, não são os negros." Mas é mentira. Os pobres, em maioria, são negros.

O lado totalitário desta sociedade está também na violência do exército, alimentada pela corrupção, na guerra da Tchetchénia. Isso ficou da Anna Politkovskaia?

Um pouco, e de outras coisas que li e vi. Li recentemente na "New Yorker" o julgamento dos acusados do assassinato da Ana Politkovskaia, que é tudo um golpe montado. Uma menina que conheci em São Petersburgo me disse: "As leis na Rússia são óptimas, o problema é como são usadas por essa sociedade completamente corrompida."

Ficou com ideia de que é impossível haver ali um país democrático?

Fiquei. Quando fui, a economia ainda estava florescendo. Tinham passado por um período caótico do final do comunismo e dos anos de Ielstin. O Putin criara uma estabilidade económica e eles estavam contentes com isso. E com a ideia da Rússia como uma potência, finalmente sendo respeitada pelo Ocidente. Os movimentos democráticos são minoritários, todas as pessoas que tentam se organizar, fazer manifestações pelos direitos civis são imediatamente massacradas pela polícia sem a mobilização do resto da população.

É uma população que sofreu muito. Em 1905, as pessoas em São Petersburgo reuniram-se para fazer reivindicações de direitos civis e o czar mandou matar todo o mundo. Foi um dos factores para revolução. Não sei como a democracia pode se estabelecer ali.

Sentiu que olhavam a guerra da Tchetchénia como uma coisa inevitável que não lhes dizia respeito, ou que havia alguma consciência ética?

É uma guerra muito confusa. O problema é que os "milicianos" [tchetchenos] não são melhores que o exército russo. É uma guerra de maus contra maus. As pessoas que conheci que são jovens e esclarecidas estão do lado da Rússia. Acham que é uma guerra terrível. Não acham justo que a população civil sofra, mas acham terrível a coisa islâmica fundamentalista. E eu também acho. Estive agora no Egipto, e não acredito, contrariamente ao que as pessoas tentam dizer, que há um islamismo bom e um islamismo ruim. Eu não acho que haja um islamismo bom, como não acho que haja um cristianismo bom.

Refere-se ao islamismo radical?

Não, porque no islamismo tradicional os "gays", por exemplo, têm que ser metidos na prisão ou assassinados, não têm direito à existência. Não sei porque tenho de respeitar uma religião assim, que propõe a minha inexistência. Não tenho simpatia nenhuma pelo islamismo, como não tenho pelo cristianismo. Não tenho por religião nenhuma. Acho interessantes as religiões como filosofia, mas acho terrível a prática das igrejas.

A sua família é católica?

Muito. Eu não, e minha mãe também não, mas eu tinha um tio padre, duas tias freiras.

A guerra da Tchetchénia é muito confusa. A razão está nos direitos civis, das pessoas, no direito de existir com condições mínimas. É violência contra violência, barbárie contra barbárie. A própria Anna Politkovskaia, que combateu os abusos do exército russo, tinha horror daquela coisa tchetchena fundamentalista.

Quase no fim do seu livro há esta passagem: "As pessoas precisam se agarrar ao que já conhecem. Os modernismos não podiam mesmo durar. Nem as revoluções. Ninguém vai construir uma casa à beira do abismo." Quer comentar?

Não existe revolução permanente, e isso dá um desencanto, que é o que a gente vive. Abriu um vácuo onde por exemplo se instala uma nova direita, quase primária, meio infantil, com uma vontade de aplicar uma lógica de criança, imediata, a tudo o que existe na sociedade, inclusive as artes: se dois mais dois não é igual a quatro é porque é falso. Mas se dois mais dois fosse igual a quatro, não existiria arte.

É terrível viver isso hoje. Tem a ver com essa falta de inocência russa. É o fim da modernidade, das utopias, mas também de uma possibilidade que não seja pragmática.

As revoluções têm uma hipocrisia embutida. Vão tentar mudar uma coisa que vai-se restabelecer de seguida com outros meios, outras pessoas. Mas se você faz arte não pode perder essa perspectiva, essa passagem. Eu sou pelo movimento, pelo risco. Tenho uma descrença absoluta, e ao mesmo tempo uma espécie de fé. E a fé, para mim, é nas artes, sabendo que lidam com paradoxos, não são para entender imediatamente. Ninguém quer construir uma casa à beira do abismo, e no entanto é isso que é interessante.

Acho que estamos num momento de entre-safra. Uma espécie de interregno. Você não vê nada nas artes que seja extraordinário, a política é um fracasso, há uma descrença no mundo inteiro cada vez mais envolvido com a corrupção. Isso dá uma solidão, porque não tem discussão. Parece que o mundo acabou e um outro ainda não nasceu. O Godard não é mais o Godard, o Wenders não é mais o Wenders. É óbvio que tem pessoas novas aparecendo, mas não se configurou um novo mundo. Está um magma em que as pessoas estão militando. Esse advento de uma nova direita é como se fossem crianças desafiando as hipocrisias do mundo que acabou.

Votou no Lula?

Votei no Lula a vida inteira. Quando estava na Faculdade assinei para o PT existir. E quando o Lula chegou na iminência de ser eleito deixei de votar. Talvez eu seja anarquista. Mas agora, quando a alta burguesia brasileira tem horror do Lula e fala das "gaffes", eu defendo-o com unhas e dentes. Dentro do pragmatismo do mundo actual fez um óptimo governo. Teve muita sorte.

O que acho interessante é que tem gente muito inteligente que aparece cada vez menos. Pessoas que estudam literatura, que sabem muita coisa e se calaram. É como se nessa sociedade da visibilidade, desse afã de aparecer, as melhores pessoas tivessem se recolhido, e estivessem se recarregando. Entre jovens, tem muita coisa interessante, mas na calada.

2009-05-20 13:50

Quem já se esqueceu do Gomo?

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Entrevista

Quem já se esqueceu do Gomo?

15.05.2009
Por: Mário Lopes
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Cinco anos depois, ei-lo que regressa. Gomo, ele mesmo. O homem da pop exuberante e da alegria adolescente de "Best Of", ressurge num mundo diferente. "Nosy" é o título do novo álbum e Gomo é o mesmo, entusiasmado com o futuro.

Lembram-se certamente. "Feeling alive" e "I wonder", rebuçados pop de exuberância juvenil que, em 2004, rodaram intensamente na rádio e puseram milhares a reproduzir coreografias exibidas em palco. A responsabilidade era de Paulo Gouveia, o músico que assina como Gomo.

"Best Of" foi o álbum, o primeiro de Gomo, responsável por toda a efervescência. Tinha título certeiro: era colecção de singles, devidamente luminosos, iminentemente trauteáveis.

Estávamos em 2004, repetimos, e nunca pensámos esperar tanto tempo pelo regresso. Nem nós, nem o Paulo Gouveia que connosco conversa acerca de "Nosy", o seu novo álbum. A verdade é que aconteceu muita coisa. Coisas como uma frustrante experiência americana, coisas como o nascimento de uma filha.

É um novo mundo este em que Gomo ressurge - há MySpaces, YouTubes e twitters, uma indústria musical (ainda mais) confusa. A sua música, contudo, não sofreu a passagem do tempo: "Não consigo fugir-lhe."

Depois de "Best Of", disco de sucesso, nunca se esperaria uma ausência tão prolongada. "Nosy", o segundo álbum, surge cinco anos depois. Porquê tanto tempo?

O maior problema está relacionado com a vida pessoal. Um novo relacionamento, uma mudança de casa, a gravidez da minha namorada. Tanta coisa que não permitiu concentrar-me devidamente na música que fazia. O caos até é porreiro, o que acontece é que há uma série de coisas a que tens de dar mesmo atenção e isso tirou-me o tempo real - a Emília teve uns problemas respiratórios logo após o nascimento e não tive mesmo hipótese de me desligar. Essas condicionantes fizeram com que o disco se atrasasse irremediavelmente. Já li críticas onde se dizia que este álbum fazia mais sentido há uns anos. Isso eu sei, mas não foi possível editar antes. De qualquer modo, queria que fizesse sentido com o "Best Of". Vamos tocá-lo ao vivo e não tinha qualquer lógica aparecer agora com canções mais lentas ou um álbum acústico.

"Nosy" foi sendo criado lentamente ao longo dos últimos cinco anos ou saiu de rajada quando o "caos" se dissipou?

Não sou o tipo de compositor que comece por gravar só voz e guitarra. Geralmente, acordo com uma música na cabeça, chego lá baixo - moro num duplex -, e tento gravar o máximo possível. As vozes, que são aquilo que, quanto a mim, cria a maior diversidade na minha música, são a última coisa a fazer - e isso inviabiliza muitos arranjos, porque obriga a reestruturar tudo. Por isso, apesar das ideias originais serem de há dois, três anos, a roupagem final é muito actual. Foi tratada ao mesmo tempo para conseguir uma estética semelhante.

Sendo alguém que se mantém bastante atento ao que se vai criando no universo pop - basta acompanhar o seu blogue -, foi certamente afectado por novos sons, novas bandas. "Nosy", contudo, mantém-se fiel à linguagem musical do primeiro álbum.

Houve uma altura em que fiquei um indeciso quanto ao que deveria fazer. Por exemplo, a seguir ao "Best Of" sai o disco do Mika. Depois temos os MGMT e os Vampire Weekend e encontrei neles muita coisa que fazia parte do meu universo. Quando ouvi os primeiros singles fiquei rendido: "É isto mesmo que gostaria de fazer". É muito fácil olhar para uma banda que te diz muito e segui-la, mas [fazendo-o] acabas por perder a noção do que és exactamente. Tentei fugir a isso, mas não consigo. Esta é a sonoridade que gosto mesmo de fazer. É a música que gosto de tocar e, principalmente, que gosto de reproduzir ao vivo. Porque tenho que me sentir bem a tocar aquilo ao vivo. Não sou músico para não dançar ou não saltar para junto do público. Não posso cantar música que não tem nada a ver com o tipo de reacções que depois tenho em palco, ou com o tipo de interacção que quero ter com o público.

Agora que regressa, não tem receio que, num universo pop onde tudo acontece cada vez mais rapidamente, o público tenha esquecido o Gomo?

Sem dúvida que esqueceu. Até agora, nunca tinha tido consciência disso, mas, neste momento, é um facto. Quando lancei "Best Of", estávamos na iminência de uma presença muito forte da internet, mas que ainda não se fazia sentir. Ou seja, não havia YouTube, não havia MySpace, ainda não podia promover o meu disco a esse nível. A partir do momento em que isso aconteceu, o mundo mudou. Hoje, consigo ouvir facilmente, num dia, 30 temas de que gosto bastante, mas tenho a perfeita noção de que não vou ouvir os 30 como deve ser. Vê-se isso muito bem no twitter, que funciona à velocidade real da nossa cabeça. Por exemplo, há 11 mil pessoas ligadas ao Nuno Markl, mas essas 11 mil estão depois ligadas a outras pessoas: músicos, realizadores, jornalistas. Aquilo que o Nuno Markl "twittou" há 50 minutos deixou de fazer sentido há precisamente 50 minutos - porque, a seguir, já houve mais dez "twits" a que se está a dar atenção.

Passados cinco anos do disco de Gomo, é isso que acontece. Para mim, como músico, isto é muito complicado de gerir e, para manter a minha sanidade mental, não posso pensar muito no assunto. Tenho que me concentrar nestas músicas. Tenho que defendê-las com unhas e dentes, não porque precisem, mas porque tenho de chamar mais a atenção para elas do que antes. Existe um processo de renovação constante e as pessoas andam muito mais distraídas que anteriormente.

"Final Stroke", o primeiro single do novo álbum, é uma canção em queda, a voz de um músico com graça na desgraça. É, de certa forma, a história da sua investida pelos Estados Unidos, em 2005 e 2006. Uma desilusão?

Em 2005 fui às convenções da Musexpo [ciclo de conferências, realizadas anualmente em Los Angeles, que reúnem agentes da indústria e artistas]. Estavam lá todos os grandes nomes da indústria musical e essa parte foi porreiríssima, porque estás com pessoas que são, no fundo, quem manda na indústria e faz a indústria tomar as direcções que toma. Mas, quando percebes que elas próprias não fazem a mínima ideia de qual é o futuro, que não querem saber de novas bandas... Essa foi uma das coisas que me escandalizou. Às tantas, uma banda perguntou a um A&R como poderia fazer chegar-lhe a sua música. Ele respondeu que a última vez que editara um disco mediante uma maquete que lhe chegara às mãos tinha sido há 13 anos, com os Ace Of Base. Explicou que, das duas uma, ou a banda descobria quem eram os seus filhos, que eram quem lhe recomendava a música, ou conhecia um grande amigo que, depois, o obrigasse a ouvir o disco. Quando se percebe este modo de funcionamento, a decepção é uma coisa brutal. Porque não há nada a fazer. Mostras o teu disco às pessoas e elas gostam, passas em rádios, tocas em bares e os bares estão cheios sem saberes porquê. Tudo muito fantástico, mas nada acontece e dizem-te logo que dificilmente acontecerá.

A ideia de "internacionalização" é, portanto, uma carta fora do baralho.

Não. Quero continuar a tentar. Não nos Estados Unidos, mas a Europa interessa-me bastante. Quero forçar este disco em Espanha, Itália, e mesmo nos países nórdicos, porque há muito potencial. Tenho sondado através de promotores suecos, holandeses, dinamarqueses e noruegueses e eles acham que pode resultar. Daí novamente esta aposta no inglês. De resto, para mim não faz sentido nenhum cantar em português, apesar de agora estar novamente na moda.

Acho que devo a mim próprio arriscar outra vez. Tenho que esquecer que passaram cinco anos e pensar apenas que este é o segundo disco. Uma coisa é certa, aprende-se sempre e eu gosto muito de aprender. Este disco chama-se "Nosy" precisamente por isso. Tenho metido o nariz em tudo, sou curioso em relação a tudo. Umas coisas correram bem, outras correram mal e, depois, isso reflecte-se na própria música. A verdade é que não me importo de cair se isso me der uma lição válida para o futuro.

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