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Notícias

2009-05-26 12:14

O especialista em ouvir conversas alheias

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Marçal Aquino

O especialista em ouvir conversas alheias

22.05.2009 - Isabel Coutinho
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O brasileiro Marçal Aquino só consegue escrever um livro mergulhando nele. O romance "Cabeça a Prémio" foi escrito em 54 dias. Sem parar. Histórias de amor num mundo de traficantes já adaptado ao cinema

Tudo começou quando uma revista pediu ao escritor brasileiro Marçal Aquino um conto. Ele escreveu a história de dois pistoleiros que num parque de diversões se preparavam para "matar um sujeito". Era "uma tocaia", "uma emboscada em que o cara fica ali vigiando para escolher o melhor momento de atacar."

Os dois pistoleiros estavam numa cidade do interior brasileiro atrás de um piloto de avião que iam matar. Mas o escritor não sabia o que é que o piloto tinha feito ou se eles o iam efectivamente matar. "Tanto que o conto termina sem que eles façam algo", explica Marçal Aquino que esteve em Matosinhos a participar no LEV - Encontro de Literatura em Viagem.

Só que quando acaba de escrever este conto - que nunca chegou a publicar - o escritor percebe que quer saber o que está por trás daquela história e recomeça a escrever. Fecha-se em casa e durante 54 dias escreve sem parar porque a história começa a aparecer-lhe de "uma forma muito veloz". Assim nasce "Cabeça a Prémio", romance que publicou no Brasil, em 2003, e que acaba de ser editado pela portuguesa Quetzal.

"Eu não teria tempo para tocar esse livro em três anos. Se eu levasse três anos a escrever 'Cabeça a Prémio' não o teria escrito."

A vida de Marçal Aquino, 50 anos, transtornou-se. Escrevia de manhã, à tarde e à noite: chegava a escrever 17 horas por dia. "'Cabeça a Prémio' saiu desse embrião e a história se mostrou para mim do jeito que está publicada. Ela tem um desarranjo temporal, ela avança, recua, avança, recua, mas não é nada pensado. É assim que a história me apareceu", explica.

Quis contar uma história de amor num ambiente absolutamente hostil, um mundo de traficantes. Aliás, "Cabeça a Prémio" cruza duas histórias de amor. Uma delas acontece entre Brito e Marlene - duas personagens "absolutamente à margem de tudo" que, para serem felizes, não podiam ter ciúmes uma da outra. Ela é uma "cafetina", uma dona de bordel, e ele é um pistoleiro, um matador. Para conseguirem viver juntos fazem "um pacto maravilhoso": "eu não vou perguntar sobre o seu passado, não pergunte sobre o meu presente." Mas, mesmo numa relação "tão acordada, tão feita de acordo, o ciúme acaba envenenando tudo", explica Marçal Aquino, que quando estava a escrever o livro se deparou com uma outra história de amor. A de um piloto, Dênis, que se envolve com Elaine, a filha do traficante para quem ele trabalha e ela fica grávida. "Esta história acabou sendo o eixo narrativo mas no início eu não tinha ideia de qual era a história do livro. Tal como o leitor, quando escrevi o livro, também estava na ignorância. Não sabia bem o que era aquilo. Sabia que estavam atrás de um piloto, não sabia porquê. Mas quando avanço na história vou descobrindo e fica claro: ele tem uma história com a menina e eles fogem." O escritor foi encontrando toda a trama à medida que ia escrevendo, tal como acontece com o leitor quando está a ler este livro. "Não tem nenhum jogo, não tem nenhuma armação. No livro policial se prepara o enigma de modo que o leitor só vem a descobrir na hora certa. 'Cabeça a Prémio' é anti-climático. Termina antes. Tem uma espécie de coda. São jogos que fui estabelecendo e descobrindo à medida que ia escrevendo."

Para escrever este romance, em que uma quadrilha de traficantes domina uma certa região do Norte do Brasil e faz contrabando de droga com pequenos aviões que pousam em pistas clandestinas, Marçal Aquino inspirou-se na realidade brasileira. O mesmo se passou com a personagem do piloto. "Existem. Normalmente são pilotos que não conseguem fazer carreira na aviação comercial e vão trabalhando para traficantes."

Pistoleiros de aluguer

Esta preocupação com o real está muito presente na sua obra. Considera-se um escritor "realista". Foi por causa de uma reportagem que foi fazer, ainda na década de 80, na zona de fronteira do Brasil com o Paraguai, que tomou contacto com o universo dos pistoleiros de aluguer e ficou fascinado. Fez parte do grupo de escritores que nos anos 80 trabalharam em São Paulo no "Jornal da Tarde". Abandonou-o em 1990. "Trabalhei num jornal que era o meu sonho. Dava tratamento literário para as matérias, para os textos e valorizava as imagens de uma forma muito diferente. Era um jornal muito bonito graficamente, e ousado." Era "uma delícia" ser repórter. Aquino era repórter policial e quando ia cobrir um crime, o editor pedia-lhe: escreva uma novela policial.

Quando se tornou jornalista "freelance", passou a ter mais tempo para se dedicar à literatura e acabou por ir parar ao cinema. A verdade é que nunca quis trabalhar como argumentista porque achava que em matéria de actividade economicamente inviável já lhe bastava a literatura. "Não precisava de me meter com o cinema", diz a brincar, mas a sua prosa sempre foi considerada "cinematográfica" e as suas narrativas visuais. Não concorda quando dizem que essa prosa visual está relacionada com o seu trabalho de argumentista. "Sempre esteve presente na minha literatura. Desde os meus primeiros livros essa é uma marca da minha literatura."

A sua narrativa é muito visual porque o cinema entrou na sua vida antes da literatura. A primeira vez que o levaram ao cinema tinha seis anos, "nem alfabetizado era" e quando viu "aquela tela" ficou apaixonado.

"Cabeça a Prémio" foi adaptado ao cinema (o filme está em pós-produção no Brasil) como muitas das suas obras. Actualmente, Marçal Aquino tem um livro parado porque está a escrever com Fernando Bonassis o argumento da série policial "Força-Tarefa" em exibição na Globo.

"Não consigo trabalhar de dia no seriado e chegar à noite, desligar, e voltar para o meu livro. O meu livro exige um mergulho. Então tenho uma novela parada. É uma novela que não sei direito o que é ainda."

O espião

Marçal Aquino é um andarilho. Nem carro tem. Anda pela cidade. "Sempre olhando, sempre anotando frases." Precisa de estar sempre em movimento e o que lhe interessa são as pessoas. "Afinal é para as pessoas que eu escrevo", diz.

Sempre se interessou por vidas marginais. Afirma que São Paulo é "um cinema a céu aberto, ininterrupto". Se prestarmos atenção, vemos maravilha e miséria. As duas existem no mundo quotidiano. Tanto o acto de violência, quanto a poesia. "Então você precisa de estar de olho e de ouvido aberto. Essa coisa de ser andarilho, sempre me facilitou."

E é especialista em "ouvir conversa alheia". Já lhe aconteceu dar por si a seguir gente na rua. Hoje em dia é mais difícil porque as pessoas o reconhecem e já sabem que é escritor. Mas o jornalismo ensinou-o a ouvir sem ser visto.

"Já me aconteceu ver um casal brigando, discutindo, e segui-lo por quarteirões e quarteirões." Isso deu em alguma coisa? "Eu queria saber o motivo da briga - como se houvesse um motivo aparente de uma briga de casal. Enfim, tinha essa ilusão de que ia entender o que estava acontecendo. Bem no momento em que parecia que eles iam falar o motivo, entraram num edifício e fecharam a porta. Eu fiquei para fora. E percebi, claro, vou para casa e vou inventar esse motivo. Então aí eu fiz literatura, deixei de fazer jornalismo."

"A revolução tecnológica de certa maneira me prejudicou porque antigamente o Brasil tinha muita linha cruzada de telefone. Eu adorava quando tirava o telefone e tinha alguém conversando. Ficava ouvindo." Porquê? "Pelo extremo sabor que têm os diálogos. Como é difícil escrever um bom diálogo, um diálogo natural. Sempre digo que cansei de ver no cinema brasileiro um sujeito sair correndo atrás de um 'trombadinha' que tomou a carteira dele a gritar: 'Peguem-no! Peguem-no!'. Ninguém grita: 'Peguem-no!'. Grita-se: 'Pega ele'. Pode até ser um erro gramático mas ele grita: 'Pega ele!'"

O "diálogo naturalista", a "sintaxe da fala coloquial" sempre o interessou. E no dia-a-dia só consegue isso "espionando as pessoas."

2009-05-26 12:13

Scorsese filma Sinatra (e não só)

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Frank Sinatra na celebração do seu 80º aniversário em 1997
Reuters

Scorsese filma Sinatra (e não só)

22.05.2009
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O encontro entre dois dos mais célebres italo-americanos do mundo do espectáculo era há muito desejado pelo realizador.

Parece que é desta que Martin Scorsese vai concretizar o seu velho sonho de dirigir uma biografia de Frank Sinatra. O encontro entre dois dos mais célebres italo-americanos do mundo do espectáculo era há muito desejado pelo realizador, cujo fascínio pela era clássica de Hollywood é bem conhecido (basta lembrar "O Aviador"...).

Segundo a revista "Variety", Scorsese aceitou embarcar no projecto que a Mandalay Pictures de Peter Guber (produtor de "Batman") está a desenvolver sossegadamente há dois anos. Tratar-se-á não apenas do primeiro filme biográfico sobre a mais lendária das vozes da era de ouro da canção popular americana, como da primeira vez que os herdeiros do cantor deram a sua autorização para um projecto deste género (incluindo o OK para utilizar as gravações originais de Sinatra).

Phil Alden Robinson (realizador de "Campo de Sonhos" e "A Soma de Todos os Medos") está a escrever o guião e já se fala de Leonardo di Caprio, actual "musa" do realizador, para o papel de Sinatra. O filme não será, contudo, para já: Scorsese ultima neste momento "Shutter Island", baseado no romance de Dennis Lehane ("Mystic River"), com Di Caprio, Mark Ruffalo, Ben Kingsley e Michelle Williams, que estreará em Outubro e está em préprodução na sua adaptação de "Silêncio", de Shusaku Endo, com Benicio del Toro e Gael García Bernal.

E a sua World Cinema Foundation, que estabeleceu em 2007 com uma série de outros cineastas entre os quais Stephen Frears e Guillermo del Toro e é responsável pelo restauro e preservação de filmes esquecidos, vai agora iniciar a distribuição digital dos projectos em que tem trabalhado nos últimos anos. Scorsese anunciou na passada semana, no festival de Cannes, que os filmes restaurados pela fundação, até aqui visíveis apenas em projecções pontuais, passarão a estar disponíveis (em muitos casos gratuitamente) no website theauteurs.com e poderão igualmente ser requisitados por museus, universidades, festivais e cineclubes.

2009-05-26 12:12

João Salaviza tem dois curtos filmes e uma grande Palma de Ouro

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Salaviza subiu ao pódio de Cannes

João Salaviza tem dois curtos filmes e uma grande Palma de Ouro

26.05.2009 - Joana Amaral Cardoso
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Cannes deu-lhe o prémio e o jovem realizador português agradeceu com uma dose de perspectiva. Quer fazer mais cinema, sim, está feliz, mas resiste ao deslumbramento. Actor, editor, estudante e futebolista eternamente adiado, João Salaviza traz uma Palma na bagagem.

Ontem, a Internet Movie Database (imdb.com) ainda não dava conta da Palma de João Salaviza. Aliás, até dizia que a sua popularidade (medida a partir do número de notícias e buzz da indústria num dado momento) estava a cair sete por cento. Na mesma base de dados, a curta "Arena" ainda aparecia sem qualquer prémio ou distinção associada - parece que Hollywood ainda não reparou no Maio mágico de Salaviza.

É que, no dia 2, ele venceu o Prémio para a Melhor Curta-Metragem Portuguesa do festival IndieLisboa e, no dia 24, recebeu a Palma de Ouro para a Curta-Metragem no Festival de Cannes. Mas, para o jovem realizador português, o primeiro a receber esta distinção no festival dos festivais de cinema, essa ausência no IMDB não contará muito. Não gosta de unanimidades e continua a relativizar o seu prémio francês, apesar de estar "extremamente contente". E explica, ao telefone, minutos antes de o seu avião partir de França e o trazer de volta a Portugal: "Tento relativizar porque o filme é anterior a tudo isto. Os prémios são coisas que nada têm a ver com os filmes. Representam a ideia de cinco pessoas que preferiram este filme em detrimento de outros".

Mais: relativiza porque sabe "que há muitas pessoas que vão ver o filme e que não vão gostar. E ainda bem, ainda bem que as coisas são discutidas e que não há unanimidades. Não houve unanimidade no júri, o que também é bom, gostei de saber isso". Quase no ar, mas com os pés na terra com a humildade que quem o conhece diz ser uma das suas maiores qualidades, João Salaviza ainda tem tempo para dizer que sim, se abriram algumas portas, que houve conversas com produtores, distribuidores e actores estrangeiros. "Contactos porreiros."

Uma Palma de Ouro para curta-metragem não é a mesma coisa que uma Palma de Ouro na competição de longas, mas, ainda assim, "vai fazer com que eu possa continuar a filmar". Algo que já queria antes dos prémios e antes de ter mostrado ao mundo o seu olhar sobre a exclusão num bairro social de Lisboa, com os seus actores (uns profissionais, outros amadores) perante a câmara como se numa coreografia entre preso encurralado e a violência t(r)ocada por miúdos. O presidente do júri de Cannes, John Boorman, acha que com Arena assistimos à "emergência de um novo talento cinematográfico". "Muitos festivais (Cannes, Veneza, Locarno) procuram o típico filme português", comenta Miguel Valverde, um dos directores do IndieLisboa e responsável pela competição de curtas. O que Arena traz é um misto de realismo e narrativa. "O que não é muito comum em Portugal - quando se filmam as franjas, está-se muito mais próximo do documentário do que da ficção", explica o programador.

Valverde também se recorda que, "numa das sessões do Indie, ele dizia que quer fazer um cinema marginal" sobre as facetas menos óbvias da realidade portuguesa e "em que politicamente possa afirmar-se". Agora, enquanto espera pela estreia em sala de Arena, João Salaviza tem outros pequenos filmes em estreia na televisão: os da série Fantasbloco, que editou para os tempos de antena do Bloco de Esquerda às eleições europeias e que vão passar na RTP2.

Cinéfilo audiovisual

Arena é, então, um sinal. Um sinal de que temos realizador, mas também um sinal de um realizador que não faz o cinema típico de Portugal. Um cinema com "vocação universal", como categoriza Miguel Valverde, que faz lembrar outras linguagens. Americanos, romenos, argentinos, comenta quem viu o filme e identificou essas marcas na sua (curta) cinematografia. Tudo parece confluir para uma curta de 15 minutos que deram a fama, ainda que doseada e sem direito a actualização do IMDB, a um filme de João Salaviza sobre um preso domiciliário e a sua pulseira electrónica, confinado à violência urbana com Lisboa muito ao fundo.

João Salaviza nasceu em Lisboa em 1984. Tem, portanto, 25 anos e a sua imagem a aceitar a Palma em Cannes é diferente daquela a que Portugal modestamente se habituou quando vê os seus nos tapetes vermelhos da Croisette. Setenta e cinco anos o separam de Manoel de Oliveira, o anterior laureado no Festival de Cannes (em 2008, por ocasião do seu centenário). Nos últimos dias, graças à ida a Cannes e aos elogios saídos do IndieLisboa, Portugal ficou a conhecê-lo melhor.

Quando era pequeno e sonhava ser grande, queria ser jogador de futebol (prestou provas no Sporting aos dez anos, sem grandes resultados, como disse ao Semanário Económico), jornalista ou escritor. Foi actor em dois telefilmes franceses, em Belle Époque, de Fernando Trueba, em Quando Troveja, de Manuel Mozos, em Coitado do Jorge, de Jorge Silva Melo, e em Querença, do seu pai José Edgar Feldman (a mãe é produtora de TV). E, em 2004, ainda na Escola Superior de Teatro e Cinema, realizou a primeira curta, Duas Pessoas, premiada em Vila do Conde. Cresceu com o cinema e o audiovisual em volta, também fez edição de imagem para TV e publicidade e foi assistente de montagem de Singularidades de Uma Rapariga Loira, de Manoel de Oliveira.

Valverde e Maria João Mayer, produtora de Arena na Filmes do Tejo, elogiam a pesquisa, o trabalho, as bases sobre as quais se erguem as duas curtas de João Salaviza. "Insatisfeito" e permanentemente em busca de melhor, diz Maria João Mayer. Um dos jovens realizadores que, opina Vilaverde, o faz pensar que "há uma cada vez maior profissionalização" daqueles que "têm tão poucas oportunidades para filmar que, quando têm meios para isso" (Arena teve apoio do Instituto do Cinema e do Audiovisual), demonstram ter feito o trabalho de casa, por sinal um "trabalho muito cuidado".

Sobre ele, dizem ainda que é um voraz consumidor do cinema que lhe interessa. "É frequentador da Cinemateca", comenta Maria João Mayer, mas é sobretudo "bastante curioso e faz opções" e adora discutir filmes. Miguel Valverde sabe que ele era espectador regular dos ciclos de cinema da associação cultural Zero em Comportamento no Cine-Estúdio 222, em Lisboa, e recorda a admiração pelo "entusiasmo" do cinema argentino que o levou a trocar o último ano no curso na Escola Superior de Teatro e Cinema por Buenos Aires. Outra admiração: pelos irmãos Jean-Pierre e Luc Dardenne, a cuja masterclass assistiu em Cannes.

Para o futuro, conversa de futebol: tem "uma grande margem de progressão", diz Miguel Valverde, mas prognósticos sobre a sua carreira promissora só depois de ter feito mais filmes. Há agora que fazer escolhas. "Como eu quero continuar a filmar em Portugal", diz João Salaviza, "ainda estou a tentar perceber que portas se abriram e se me interessam ou não".

2009-05-26 12:10

O novo álbum de Danger Mouse tem David Lynch (e é um CD-r)

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O novo álbum de Danger Mouse tem David Lynch (e é um CD-r)

22.05.2009
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Devido a um conflito legal não especificado com a EMI, a editora de Danger Mouse e dos Sparklehorse, "Dark Night Of The Soul" não pode ser editado. Os músicos contornaram a questão e disponibilizam ao público um CD-r virgem.

No final de Março a notícia foi anunciada misteriosamente e divulgada com pompa. Danger Mouse e os Sparklehorse tinham novo álbum, intitulado "Dark Night Of The Soul" e com lançamento previsto para o Verão. Desta vez, a colaboração não se resumiria a ter o produtor trabalhando algumas canções da banda de Mark Linkous, como aconteceu em "Dreamt For Light Years In The Belly Of A Mountain", o álbum de 2006 dos Sparklehorse.

Desta vez, o acontecimento seria épico e podia ser anunciado como tal ainda antes de se conhecer a música. Bastava olhar para a lista de convidados: Julian Casablancas, dos Strokes, James Mercer, dos Shins, Black Francis, dos Pixies, Suzanne Vega, Iggy Pop, os Flaming Lips, Vic Chesnutt ou, surpresa, David Lynch.

Assim como estava, já era surpreendente o suficiente. Agora, tornou-se bizarro. Porque, afinal, o disco está feito mas não vai ser editado tão cedo. Devido a um conflito legal não especificado com a EMI, a editora de Danger Mouse e dos Sparklehorse, "Dark Night Of The Soul" não pode ser editado. Os músicos, contudo, contornaram a questão e disponibilizam ao público, isso mesmo, um CD-r virgem. No interior, estará uma nota encorajando o comprador a fazer dele o que bem quiser - leiase, a gravar ali as canções do álbum, já disponíveis em plataformas ilegais de partilha de ficheiros. Mais: a edição terá duas versões, acessíveis através do site www.dnots-store.com. A luxuosa custa 50 dólares (37,7 euros) e vem acompanhada de um álbum de fotografias de David Lynch. A simples, não ultrapassa os 10 dólares (7,3 euros) e oferece ao comprador um poster alusivo ao álbum.

Para os desinteressados no CD-r, nas fotos de Lynch ou no poster, mas curiosos quanto à música de "Dark Night Of The Soul", há formas legais de conhecer a obra. Até ao fecho de edição do Ípsilon, o site da NPR, a rede de rádio pública americana, tinha o álbum disponível para audição em stream. Entretanto, no site dedicado ao álbum, lê-se a seguinte mensagem: "Danger Mouse deseja que as pessoas afortunadas o suficiente para ouvir o disco, de que forma for, estejam tão entusiasmadas como ele próprio". A "batalha" conhecerá certamente desenvolvimentos nos próximos tempos.

2009-05-23 11:55

Mude Finalmente

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Design

Mude Finalmente

21.05.2009 - Joana Amaral Cardoso
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A grande novidade do novo Museu do Design e da Moda (Mude) é a colecção de moda do acervo Francisco Capelo, nunca exposta em Portugal. Mas na exposição inaugural Antestreia há também o design de equipamento que, com as peças de moda, é um conjunto de símbolos e sintomas sociais de um século de mudanças. O Mude abre finalmente as portas.

Ao lado do móvel de assento vermelho vivo de Verner Panton repousa um minivestido negro e metálico de Pierre Cardin. Através do sofá-móvel "Living Tower" vê-se um gira-discos pick-up de Dieter Rams e um vestido Givenchy. O novo e muito esperado Museu do Design e da Moda (Mude) é como um sistema de vasos comunicantes entre design de equipamento e design de moda. E é também uma colecção valiosíssima e nunca exposta em Portugal de mais de mil peças de moda do mundo. Detalhe: o Mude é ainda um work in progress.

O museu situa-se na proximidade que une a Rua Augusta ao Terreiro do Paço, ideal para captar público turístico ou nacional. Na sua primeira exposição, "Antestreia - Flashes do Mude", vai de Le Corbusier a Azzedine Alaïa num sopro. É uma antestreia por a inauguração do museu ser feita quando ainda não está pronto, uma vez que as obras de recuperação do edifício do antigo BNU só devem arrancar no final de 2010. E nesta exposição estão 170 peças da colecção Francisco Capelo que contam a história do século XX (e um pouco da do início deste século XXI) em silhuetas e objectos de desejo. São apenas uma amostra de um acervo de cerca de 2500 peças de design industrial, de equipamento e de moda (1268, segundo as contas de Capelo) coligido nos últimos 20 anos pelo coleccionador.

Como um livro de recortes tridimensionais, integram a Antestreia “algumas das peças mais importantes do ponto de vista da reformulação dos hábitos, das mentalidades, da habitabilidade do espaço, da maneira como o corpo foi sendo desenhado, como foi construída a sua relação com o outro” do século XX, explica a directora do museu, Bárbara Coutinho, ao P2. As portas são abertas amanhã ao público, que durante o primeiro mês terá entrada gratuita. Daí em diante, o bilhete deve rondar os três euros, mas o preçário ainda está em discussão.

Lá dentro estão Dior, Yamamoto, Walter van Beirendonck, Gaultier, Madame Grès (moda) e Droog Design, Jean Prouvé, Russel Wright ou Charles & Ray Eames (equipamento). As cadeiras empilháveis e o móvel de assento "Living Tower" de Verner Panton, claro, o candeeiro gigante de Gaetano Pesce, sim. Mas outros ficaram de fora, à espera no armazém dos Olivais em que se aclimatam as peças que não estão no arranque do Mude, mas que pertencerão sempre ao seu acervo.

O imponente balcão do antigo BNU serve de fronteira expositiva. No centro estão obras dos pais fundadores do design. Nas margens, viajamos dos anos 1960 em diante, através dos clusters expositivos que encenam as peças centrais - a cadeira de Hans Wegner para o debate Kennedy-Nixon, com o respectivo vídeo em fundo; os discos dos Doors, Beatles e Rolling Stones com o som de ("I can’t get no") satisfaction a emoldurar o casaco de peles da boutique londrina Biba que Mick Jagger usou num álbum dos Stones; os minivestidos de Rudi Gernreich que a Time pôs na capa em 1967 (o exemplar chegou às mãos de Bárbara Coutinho quando o P2 visitava o museu).

São 15 núcleos expositivos - do Moderno do início do século XX (Mies van der Rohe, John Angelo Benson) ao Espírito Internacional do design em torno da utopia pós-I e II Guerra com Charlotte Pérriand, Le Corbusier, Jean Prouvé, passando pelo trabalho da Herman Miller no desenho de interiores e pelo manifesto do Bom Design de Dieter Rams. Também o New Look de Christian Dior, o ideal futurista de Paco Rabanne, Pierre Cardin e o bar esférico de François Arnal, além da contestação ao Bom Design pelo grupo Memphis e a explosão conceptual das escolas japonesa e belga de moda. Sintomas sociais de um século de voragem de mudança.

A ausência de “barreiras visuais” serve para se usufruir simultaneamente da “estrutura histórica” da colecção e para se poder “vaguear e descobrir outras ligações - por exemplo, entre as peças da Dior de 1947 e o que o John Galliano faz para a Dior já nos anos 1990”, explica Bárbara Coutinho. A ideia é “descobrir outras narrativas por estes discursos visuais que se fazem entre o objecto e a moda e o próprio espaço”.

A moda está em grande destaque, visto que esta é a sua estreia em Portugal. “Quando imaginei esta colecção com um destino museológico, a moda era parte integrante”, frisa Francisco Capelo, o coleccionador de colecções (são de moda, design, máscaras, cerâmicas chinesas, marionetas...).

Mas a moda nunca entrou no Museu do Design do CCB por “falta de curiosidade” da gestão do centro, responde o agora presidente do conselho de gestão do Mude. Ei-la na Baixa de Lisboa com Mondrian incorporado nos vestidos de André Courrèges e na estante "Bibliothèque Méxique" de Charlotte Perriand. Pôr objectos e roupas em diálogo é “natural e óbvio” para Bárbara Coutinho, sobretudo porque os criadores “partilham práticas criativas, influências, conversas e amizades”.

Glossário sensorial do Mude: contaminação entre peças, frequência e não apenas visita do público, leituras cruzadas, linguagem imagética. Um esperanto visual do gosto.

Da fonte do acervo do Mude (leia-se Francisco Capelo) vai continuar a brotar mais design. As compras continuam e o design português, de Cassiano Branco a Tomás Taveira, passando por Ana Salazar, Manuela Gonçalves e José António Tenente, integram-na.

Atento a cada passo em torno das peças já dispostas, a cada manipulação do Bar sur Patins de Paul Dupré-Lafon (1937) ou do vestido de ópera de Pierre Balmain (1957/58), Francisco Capelo está a viver a concretização de “um sonho com dez anos”. Entre o fim da relação com o CCB e o impasse relativo à sede do museu após a compra da colecção pela Câmara de Lisboa, Capelo não perdeu o gosto pelos “seus” objectos. “Estes objectos são vividos, enquanto a pintura ou a escultura são muito mais passivos. E são tão fantásticos que as pessoas têm que... não digo ter vontade de os roubar, mas de os ter. Têm de ter desejo por eles e isso é fantástico.”

 

Peças com histórias

Francisco Capelo fala das suas compras

 O Japão em Paris

“É uma peça que não pode ser mais do que magnífica”, diz Francisco Capelo sobre a túnica dourada Issey Miyake. “Achei que precisava de três para vermos a dimensão escultural” da escola japonesa. Comprou mais duas. Ao lado dos Miyake estão um saia-e-casaco Yohji Yamamoto, um vestido Jean Paul Gaultier e um vestido Azzedine Alaïa. E uma cadeira de Shiro Kuramata (1986). A narrativa deste conjunto é a do “minimalismo na concretização dos efeitos”. Os adereços são o pregueado ou o entrançado do próprio metal. “E depois há a ideia do estranho e do desconforto.” Gaultier faz a ligação com a Paris que albergou todas estas criações.

Festejar como se fosse 1959

O que têm em comum um vestido violeta de Hubert de Givenchy (ver foto de capa) e um gira-discos de Dieter Rams? “Quando se vê duas coisas que foram feitas na mesma época, mas em separado, e que são tão perfeitas... É fantástico”, diz Capelo. Na época, “o preço do pick-up não era para a média dos mortais, era para a média alta dos mortais...”. O gira-discos era um objecto de luxo. Como um Givenchy.

A importância de se chamar Capelo

A famosa saia de seda de Elsa Schiaparelli (1948), eco da inspiração da criadora no surrealismo e na lagosta de Dalí, tem tudo: volume, cor, evocação. E Francisco Capelo tinha de a ter. Comprou-a num leilão em 1998 e uma semana depois, num jantar em que conheceu Azzedine Alaïa, ouviu o costureiro tunisino falar do misterioso comprador da saia Schiaparelli. Resposta de Francisco Capelo: “C’est moi!” A amizade com Alaïa nasceu aí e não parou. Foi ele que restaurou alguns dos modelos agora no MUDE e foi também ele, além de Sonia Rykiel, Jean-Charles Castelbajac e das directoras das casas de couture parisienses, que o ajudaram a comprar as peças de moda mais raras.

J.A.C.

2009-05-23 11:54

O homem que escolheu os filmes da nossa vida

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João Bénard da Costa
Miguel Madeira (arquivo)
João Bénard da Costa

O homem que escolheu os filmes da nossa vida

21.05.2009 - Alexandra Prado Coelho com Alexandra Lucas Coelho, Isabel Coutinho, Kathleen Gomes
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Foi, talvez, Eduardo Lourenço quem melhor resumiu ontem o impacto da morte de João Bénard da Costa, aos 74 anos: "Morreu o senhor Cinema Português". Muitos outros, ao longo do dia, usaram palavras diferentes para dizer essencialmente a mesma coisa sobre o homem que marcou profundamente a cultura portuguesa e, sobretudo, a forma como se vê cinema em Portugal.

O funeral de Bénard da Costa - que morreu em casa, vítima de cancro - realiza-se hoje a partir das 14 horas da Igreja de S. Sebastião da Pedreira, em Lisboa, para o cemitério dos Olivais.

A Cinemateca Portuguesa - de que foi subdirector desde 80 e director a partir de 1991 (Pedro Mexia é actualmente director interino) - quis despedir-se dele com cinema: suspendeu todas as sessões até segunda-feira e anunciou que vai projectar apenas, numa última homenagem, "Johnny Guitar", de Nicholas Ray, o filme dos filmes de Bénard.

Foi dessa frase, uma citação de Montaigne, que se recordou Alberto Vaz da Silva quando o PÚBLICO lhe pediu um depoimento sobre o amigo com quem, no início dos anos 60, fundou a revista O Tempo e o Modo: "Continuámos amigos, nascemos amigos, nascemos os melhores amigos do mundo. Tínhamos os mesmos amores, os mesmos gostos e as mesas paixões pela arte e pela vida".

Dessa "grande aventura" que foi O Tempo e o Modo (com António Alçada Baptista como director, Bénard como chefe de redacção, e Vasco Pulido Valente como subchefe), Vaz da Silva diz que "o João Bénard tinha um orgulho enorme nessa sua obra que foi realmente histórica e que marcou o século XX português em termos intelectuais". Só depois disso, e de um afastamento da política é que começou a nascer a "grande paixão" pelo cinema. "Toda a sua sensibilidade e veia artística foram canalizados para os textos que escrevia noite dentro sobre os filmes". As chamadas "folhas da Cinemateca" - que marcaram gerações de cinéfilos. O encenador Jorge Silva Melo lembra-se de ler, aos nove ou dez anos, o que Bénard escrevia. "Ele era colega de faculdade da minha irmã e ela ia ao Centro Cultural de Cinema [o cineclube que Bénard dirigiu entre 1957 e 1960] e trazia as folhas para casa. Portanto, li muita coisa ainda antes de ter visto os filmes".

Bénard começou a marcá-lo aí e continuou a fazê-lo pela vida fora. "Tudo o que ele pensava interessava-me. Para mim é uma figura fundadora, paternal, admirável e admiravelmente contraditória". Silva Melo lembra como Bénard gostava de citar a frase no final de Bitter Victory, também de Ray: "I always contradict myself". "Porque é que ele gostava do Dia de Portugal [em 1997, Jorge Sampaio nomeou-o presidente do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades], como é que se interessava tanto pela vida de determinados santos, eram tudo coisas que me surpreendiam".

O poeta e crítico literário Manuel Gusmão, que o conheceu também na época de O Tempo e o Modo, recorda-o como católico mas que "nessa fase começa a tomar posições de esquerda, antifascistas", atraindo para as páginas da revista "colaboradores que vinham de outras áreas da esquerda". Também o realizador João Mário Grilo prefere recordar Bénard pelo seu valor para lá do cinema, considerando-o "uma figura decisiva na preparação de Portugal para a democracia", num país "carenciado de exemplos de pessoas que sacrificaram a vida por uma causa pública e por valores essenciais".

Mário Soares, que escreveu no primeiro número de O Tempo e o Modo, conta como, quando "o João Bénard estava numa situação difícil porque tinha assinado o documento dos 101 católicos [contra a guerra colonial]" o convidou para o Colégio Moderno, onde se revelou "um excelente professor de História e de Filosofia".

E Gonçalo Ribeiro Teles salienta a sua "espantosa universalidade". "Era uma pessoa que sedimentava o passado para poder ver o presente. Era de uma actualidade espantosa por isso".

Mas, inevitavelmente, é do cinema que todos falam. O primeiro-ministro José Sócrates sublinhou a "paixão contagiante de Bénard da Costa pelo cinema, paixão que soube transmitir a várias gerações de portugueses", o Presidente Cavaco Silva descreveu-o como "um homem com um conhecimento único sobre o cinema" e o ministro da Cultura, José António Pinto Ribeiro disse estar "certo de que todos nos esforçaremos por ser dignos dele".

Alguns quiseram deixar um agradecimento pessoal. "A minha existência no cinema deve-se a João Bénard da Costa", disse, a partir de Cannes, o produtor Paulo Branco. "O legado dele é devastadoramente importante para a minha geração. A nossa cultura cinematográfica foi grandemente assente nos ciclos que ele organizou na Gulbenkian [a partir de 1969]", declarou José Manuel Costa, ex-subdirector da Cinemateca.

Muitos falaram na sua escrita. "Tinha uma forma de escrever muito poética, sem fazer versos" (Gonçalo Ribeiro Teles). "Foi um homem de grande cultura, com uma grande formação filosófica e um grande escritor" (Mário Soares).

E houve simplesmente quem visse no seu desaparecimento o fim de um tempo. O realizador Alberto Seixas Santos foi lapidar: "O cinema acabou. A morte do João é a confirmação disso".

2009-05-23 11:54

Jorge Molder é Jorge Molder é uma estátua é uma máscara de tragédia antiga que cai

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Exposição

Jorge Molder é Jorge Molder é uma estátua é uma máscara de tragédia antiga que cai

22.05.2009 - Vanessa Rato
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Para a exposição que hoje se inaugura na Chiado 8, Molder fotografou réplicas do próprio corpo

Há qualquer coisa de terrível em Pinóquio, há qualquer coisa de profundamente trágico e inquietante na ideia de uma criança de madeira que ganha vida, e há qualquer coisa desse mesmo desconforto, um desconforto que se reprime e censura mas volta sempre a nascer, pelas fissuras, em Pinóquio, a mostra de Jorge Molder com que a Chiado 8 abre hoje às 22h o seu segundo ciclo de exposições.

Depois de mais de dois anos com Ricardo Nicolau, o pequeno espaço do edifício sede que a Fidelidade Seguros dedica às artes plásticas e que a Culturgest tem vindo a programar ganha novo curador: Bruno Marchand. Com Ricardo Nicolau, que entretanto se tornou no mais jovem dos curadores do Museu de Serralves, no Porto, houve uma sucessão de artistas mais e menos jovens, nomes como Ana Jotta, Luísa Cunha, Alberto Carneiro, José Loureiro, André Guedes e Leonor Antunes. Bruno Marchand estreia-se, então, com Molder, naquela que é a primeira exposição deste artista desde que há dois meses deixou a direcção do Centro de Arte Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian, onde estava faz em Junho 15 anos.

Uma década e meia, mas uma década e meia em que não o perdemos de vista como fotógrafo. Uma década e meia - praticamente duas décadas - em que nos foi sempre confrontando enquanto artista, sobretudo em que nos foi confrontando enquanto duplo de si mesmo, personagem de sucessivas séries em que a ficção e a narratividade se insinuavam como sombra. Molder era o fotógrafo, mas não quem fotografava - ele era antes a figura ao centro, o eixo das imagens que alguém captava em seu lugar. Agora, esse eixo mexeu-se, rodou. E é nesse movimento que está a vertigem, a origem de grande parte do nosso desconforto.

Em Pinóquio Jorge Molder continua dentro, mas pôs-se ao mesmo tempo de fora das suas imagens. Nelas, de duplo passou a réplica: desta vez o que está ali, nas imagens, não é um corpo, são moldes de um corpo, um corpo que reconhecemos com estranheza como sendo o dele - como sendo ele.

O torso, o rosto, as mãos, o ângulo e o brilho de um olhar: para Pinóquio, Molder fez nascer uma pele por cima da sua pele, depois largou-a, deixou cair a máscara, retocou-a, recompô-la, e, por fim, afastou-se, a olhar de fora para os despojos como para qualquer coisa que se autonomizou, ganhando vida própria - quem sabe se roubando-lhe parte da sua.

Nós somos essa terceira presença que está ali, a sacudir o mesmo horror vago, o mesmo pânico que nos assalta sempre que ficamos perante algo aquém ou além do humano - algo que, nessa distância, se nos afigura como estarrecedoramente humano.

Como uma estátua

O historiador de arquitectura Gerrit Confurius, que escreveu um texto para esta exposição, fala em "narradores liminares", figuras próximas daquelas que na tragédia clássica regressavam de outro mundo para tornar evidentes as circunstâncias da sua morte. Na modernidade falaríamos talvez de um primado em que o homem não sobrevive a deus e em que as identidades se fazem simulacros animados pelo deslocamento perpétuo de pequenas diferenças e repetições.

Molder é Molder é uma estátua, uma escultura hiper-realista, uma peça de arte sacra, uma máscara médica sobre rosto desfigurado... Molder é um artista que fotografa sucessivas etapas do processo de feitura de sucessivos moldes do seu corpo e que, nesse gesto, nos projecta mais além, no abismo.

O caminho abriu-se, explica, com duas exposições anteriores, uma em Santiago de Compostela outra em Madrid - 2005 e 2006 -, ambas com instalações que, ao centro, tinham réplicas escultóricas. Da escultura de regresso à fotografia: para Pinóquio Molder trabalhou a imagem digital numa lógica de acumulação, com pormenores que vai acrescentando às imagens, como na pintura, explica, em que se vão criando empastamentos que, por sua vez, vão dando origem a diferentes brilhos, transparências e tonalidades de branco e negro. Nem molduras nem papel fotográfico, impressões sobre papel de desenho de bordos irregulares, como o rasto de uma memória que regressa das paredes.

"Esta série foi também uma surpresa para mim", diz Bruno Marchand, o comissário da exposição. Aponta sobretudo uma imagem, o positivo de um molde do rosto numa série só de cabeças em que nos sentimos resvalar definitivamente para o monstruoso e o abjecto. A mais interior das máscaras ficou ali. 

2009-05-23 11:53

Vamos pôr um crocodilo no telhado?

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Pancho Guedes

Vamos pôr um crocodilo no telhado?

21.05.2009 - Alexandra Prado Coelho
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Entre leões que riem, mulheres habitáveis, fatias de rua, espaços torcidos e revirados e um crocodilo-discoteca, o mundo de Pancho Guedes, arquitecto português com a maior parte da obra construída em África, apresenta-se no Museu Berardo, em Lisboa. "Está a ver como a arquitectura não tem que ser chata?", pergunta o homem dos 25 estilos.

Há uma casa "morta por uma revolução", o que é uma pena "porque aquela casa destinava-se a existir - era uma casa escultórica, onde cada fachada tinha caras nas janelas e nas portas".

Há uma outra que foi desenhada para um dentista, que "tinha uma senhora muito pinoca" que um dia declara que "a casa assim é uma maluquice e que quer uma casa quadrada, como é costume, uma caixa". O arquitecto baptizou o projecto como Mulher Habitável, lamenta que só tenha sido construída "até aos joelhos", e diz que estas e muitas outras casas que desenhou e construiu "causaram todas grande perturbação nas cidadezinhas onde eram construídas". E até "os colegas arquitectos ficavam muito aflitos porque estas casas mostravam que a arquitectura podia ser muito mais do que caixotes".

O arquitecto chama-se Amâncio d'Alpoim Miranda Guedes, mais conhecido como Pancho Guedes, nasceu em Lisboa em 1925, mudou-se muito pequeno para África, onde passou grande parte da vida, e tem agora a sua primeira - e muito aguardada, por aqueles que ao longo dos anos o foram "descobrindo" - retrospectiva em Portugal, no Museu Berardo, em Lisboa. Quase no final da visita guiada que faz pela exposição, Pancho volta-se para nós: "Está a ver como a arquitectura não tem que ser chata?"

Tínhamos acabado de percorrer grande parte das suas vidas e dos seus mundos. "Tudo depende do que se sonha", declara o arquitecto que diz ter 25 estilos - há, no Museu Berardo, exemplos do seu Stiloguedes, o mais carismático, mas também dos Espaços Torcidos e Revirados, da Elegante Arte de Curvar o Espaço, do estilo Américo-Egípcio, de Torres Temporárias e Fatias de Rua, de Escapadelas Neoclássicas, Palhotas e Palácios de Capim, Pedaços de Aldeia, Palácios Euclidianos, Pechinchas num Estilo Mato Tropical, e até de Caixotes de Prateleiras Habitáveis.

Pancho fez de tudo, sem se impor limites. "Nós não somos aquilo que se diz. Esta nossa civilização racional, lógica, matemática, não tem nada a ver connosco." Por isso, com Pancho cada edifício tem uma história, que ultrapassa em muito a arquitectura e que ele conta como se fosse uma brincadeira de crianças.

O Leão que Ri, por exemplo. O edifício, construído em 1958 na então Lourenço Marques (hoje Maputo), Moçambique, tornou-se o mais emblemático da obra de Pancho e ele próprio o assume como um momento especial. "Os meus desenhos e pinturas recentes no Stiloguedes tornaram-se autobiográficos, e sobretudo este edifício em particular, cujo corte pintei várias vezes, que identifico como sendo a minha casa, o meu túmulo, como sendo eu mesmo", escreve.

E, no entanto, no mesmo texto dessacraliza completamente a obra: "O desenho é do meu filho Pedro [Pedro Guedes, arquitecto e comissário desta exposição], quando era um rapazinho de seis anos. Viu-me desenhar o Leão que Ri e disse: 'Dada, não estás a fazer isso como deve ser. É assim que deve ser.' O desenho é realmente uma ideia para um edifício muito mais solto do que o que eu consegui fazer".

Tudo começou sempre com um desenho, conta o mesmo Pedro noutro texto do catálogo: "O desenho é o prisma através do qual Pancho percebe e cria os seus mundos [...] Quando era pequeno, achava esta maneira de trabalhar perfeitamente natural, uma vez que o escritório e o atelier de Pancho eram em casa e ele estava sempre a desenhar e a fazer a sua magia no papel para projectos que em breve ser tornariam noutra coisa, que iriam ocupar um lote de terreno na cidade, uma prateleira na nossa casa ou no jardim, ou se transformariam em mais um quadro pendurado numa das nossas paredes já preenchidas".

Machel devora a casa

Pancho sempre quis ser pintor. Tornou-se arquitecto, casou com Dori [Dorothy Ann Phillips], com quem viria a ter quatro filhos - "na universidade tive muitas namoradas, até que houve uma que me disse a verdade e casei com ela" - mas continuou sempre a pintar.

Estamos agora a passar em frente a um quadro em que [o antigo Presidente moçambicano] Samora Machel devora a casa em que Pancho e Dori viviam em Lourenço Marques - "já trincou o quarto da Dori e o atelier, e eu estou aqui a deitar-lhe a língua de fora". Mais à frente, noutro quadro, estamos dentro do carro com os dois, a caminho da aldeia de Eugaria, em Sintra, onde compraram duas casas, e vemos, pelo retrovisor lateral, a casa de Lourenço Marques e pelo central a de Joanesburgo (cidade onde viveram depois de deixaram Moçambique).

Pancho construiu muitas centenas de edifícios - casas, escolas, hospitais, bancos, igrejas - mas diz que desenhou muito mais do que construiu. "Esta é a cidade com sarampo [aponta para um mapa de Lourenço Marques cheio de pontinhos vermelhos], com todos os projectos que fiz, os que foram construídos e os que não foram, que são sempre os melhores."

Alguns dos seus projectos eram de tal maneira arrojados que assustavam os clientes (mas também tem tido "clientes estupendos, que são aqueles que fazem o que eu quero, mas que julgam que eu estou a fazer o que eles querem"). A certa altura, começou a ser reconhecido pelo Stiloguedes. "Não fui eu que inventei o nome. Foram as pessoas, que me diziam 'sabemos que o senhor faz umas plantas estupendas, mas não faça tanto estilo Guedes'. Eu peguei logo no nome."

Hoje considera como a sua "família real" esta "bizarra e fantástica família de edifícios com bicos e dentes, com vigas rasgando os espaços em redor, inventados como se algumas das partes estivessem prestes a separar-se e a estatelar-se no chão, com paredes convulsivas e luzes encastradas".

Mas, enquanto em África a obra de Pancho despertava paixões (e desde o início dos anos 60 na Europa também, sobretudo em Londres), em Portugal, onde vive actualmente, o arquitecto permaneceria praticamente ignorado ainda durante algumas décadas. "Aqui uma pessoa pode ser anónima. É estupendo funcionar num país em que sou o Guedes, o senhor Guedes."

O amigo Malangatana

"Nos anos 80 Pancho Guedes foi bastante apropriado pelos pós-modernistas", explica o arquitecto Pedro Gadanho, autor de um documentário sobre Pancho e comissário de uma exposição que esteve em 2007 no Museu de Arquitectura da Suíça, em Basileia. Foi nessa década (em 1985) que a revista "Arquitectura Portuguesa", dirigida por José Lamas, lhe dedicou um primeiro grande trabalho, intitulado "Vitruvius Mozambicanus: as vinte e cinco arquitecturas do excelente, bizarro e extraordinário Amâncio Guedes", e dois anos depois, em 87, a galeria lisboeta Cómicos convidou-o para apresentar uma exposição, "Da Invenção dos Templos e Outras Artes". "Mas a tendência que se veio a afirmar na arquitectura portuguesa foi avessa a uma figura como Pancho Guedes, que explorou outros caminhos e construiu em contra-corrente", explica Gadanho.

Claramente influenciado por Le Corbusier, Pancho é "modernista antes dos modernistas". Mas o que o torna especial é o facto de "explorar um estilo em função de cada circunstância". Além disso, sublinha ainda Gadanho, "Pancho liga-se a um imaginário local africano" - que, aliás, invade toda a exposição, onde a arquitectura surge no meio de referências tão importantes para ele como as cruzes Mbali, que recolheu em cemitérios abandonados, as portas Zambeze ou as máscaras Lomue, feitas pelo maior grupo étnico de Moçambique.

Foi esta paixão pela arte africana que o levou também a descobrir aquele que se tornou um dos seus melhores amigos, o pintor Malangatana. "Ele era o criado do bar do clube da elite em Moçambique [o Clube de Lourenço Marques]", conta Pancho. Um dia viu uma pintura dele, e perguntou-lhe se lhe vendia um quadro por mês e se aceitaria ir viver para casa dele.

A amizade dura até hoje e é para o amigo que Pancho projecta em 2002 a Fundação Malangatana, em Matelane. No topo do prédio, um crocodilo. "O Malangatana quando o viu queria fazer um clube nocturno, de forma que depois vamos fazer um cá em baixo, também em forma de crocodilo."

Actualmente, este é o único projecto que Pancho tem em vias de ser construído.
De resto, conta com o seu humor desconcertante, vive num arquipélago utópico, a Ecléctica, onde existe a ilha Petrolia (onde foi descoberto petróleo), a ilha Bancária (onde estão todos os bancos), e a ilha "onde vivem os filhos de família que foram estudar arte para Paris" e que é um sítio onde "só há pastelarias estupendas, e onde os bolos são construídos por arquitectos". É aí que habita, junto a uma cidade, Ruinata, em que cada arquitecto pode construir aquilo com que sonha - isto quando não está a desenhar bolos, claro.

2009-05-23 11:52

Noomi Rapace, a Maria-rapaz de “Millennium”

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Niels Arden Oplev, o realizador do fi lme, decreveu Noomi como “explosiva”
LOIC VENANCE/AFP

Noomi Rapace, a Maria-rapaz de “Millennium”

22.05.2009
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A actriz que era uma desconhecida até ter entrado neste filme está destinada a ser a próxima "big star" europeia. Noomi Rapace é descrita por Niels Arden Oplev, o realizador do filme, como "explosiva".

Noomi Rapace está a dar que falar. A actriz é Lisbeth Salander no filme que adapta "Os Homens que Odeiam Mulheres" (ed. Oceanos), o primeiro volume da saga "Millennium" do escritor sueco Stieg Larsson (1954- 2004), que está a estrear em vários cinemas europeus. Esta semana, a propósito da sua passagem por Cannes, o "The Hollywood Reporter" escreveu: "Esqueçam Lars von Trier. A maior estrela escandinava em Cannes este ano é Noomi Rapace."

A actriz que era uma desconhecida até ter entrado neste filme está destinada a ser a próxima "big star" europeia. Noomi Rapace é descrita por Niels Arden Oplev, o realizador do filme, como "explosiva". "Ela é como uma granada de mão a que se tirou cavilha de segurança. É imprevisível."

Depois dos países escandinavos, o filme já estreou em França, na Suíça e na Bélgica. E no dia 29 de Maio irá para as salas de cinema espanholas, italianas e canadianas. Até ao fecho da nossa edição, o filme ainda não tinha sido comprado para Portugal, mas estaria a ser negociado em Cannes.

Com o título em inglês "The Girl With the Dragon Tattoo", foi rodado em Estocolmo, começou por ser feito para a televisão e tem nos principais papéis actores suecos. O outro papel principal, o do jornalista Mikael Blomkvist, é o actor Michael Nyqvist. Só na Escandinávia fez 2, 4 milhões de espectadores e a produtora Yellow Bird já está a preparar os filmes seguintes - compraram os direitos de adaptação ao cinema antes de os livros terem sido publicados.

A actriz sueca de 29 anos aprendeu a andar de mota e treinou técnicas de combate para interpretar este papel que nos livros quase parece uma heroína da banda desenhada. E foi buscar ao seu passado coisas que a ajudaram a entrar no papel: quando tinha 13, 14 anos cortou o cabelo, praticava judo e kung-fu, e nessa época lamentava não ter nascido rapaz. O agente da actriz tem tido conversas com produtores norte-americanos e europeus que lhe têm enviado muitos argumentos. Mas Noomi Rapace só está interessada em papéis complicados, como o de Lisbeth Salander (a "hacker" gótica e bissexual que interpreta em "Dragon Tattoo"), e não quer fazer "comédias românticas tontas".

Segundo a revista "Variety" o filme já foi comprado pela Polónia e está em negociação a sua venda para o Reino Unido e a Alemanha. O terceiro (e último) volume de "Millennium", "A Rainha no Palácio das Correntes de Ar" (Oceanos) irá para as livrarias portuguesas no dia 2 de Julho.

2009-05-23 11:52

PJ apreende dois quadros antes de leilão em Lisboa por suspeita de falsificação

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Arte

PJ apreende dois quadros antes de leilão em Lisboa por suspeita de falsificação

20.05.2009 - Sérgio C. Andrade
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As duas pinturas estavam atribuídas a Álvaro Lapa e a René Bertholo, e avaliadas em 22.500 e 25.000 euros

A Polícia Judiciária apreendeu na segunda-feira em Lisboa, numa sala do CCB para onde a leiloeira Sala Branca tinha agendado um leilão de arte portuguesa, dois quadros atribuídos a Álvaro Lapa (1939-2006) e a René Bertholo (1935-2005) por suspeita de se tratar de falsificações. A operação foi confirmada pelo director da leiloeira, Pedro Mesquita da Cunha, que lamentou "este episódio desagradável", que, no entanto, não impediu a normal realização do leilão.

O coordenador de investigação criminal da PJ, João Oliveira, não quis fazer qualquer comentário sobre a operação, nem sobre a investigação que agora irá ser feita no encalço dos dois quadros. "Não confirmo nem infirmo", limitou-se a dizer o responsável da PJ.

A operação foi também confirmada e descrita ao PÚBLICO pelo advogado Delgado Martins, que, em representação tanto da última companheira de René Bertholo, a alemã Helma Voss Hellwig, como do filho mais velho de Álvaro Lapa, Hugo, solicitou a intervenção da PJ. Na base da suspeita das eventuais falsificações esteve a percepção de Hellwig, que viveu com Bertholo 27 anos, de que obras abusivamente atribuídas ao pintor têm circulado impunemente no mercado da arte em Portugal. Delgado Martins diz que algumas dessas obras foram até já documentadas em revistas de leilões e catálogos de exposições.

Foi quando estava no encalço delas que o advogado reparou, no catálogo para o leilão do dia 18 da Sala Branca, na existência de um óleo sobre tela de Bertholo, "s/título" (81,5cmX110cm), assinado e datado de 1999 - e com uma base de licitação de 25 mil euros. Quando foi ver a obra, reparou que ela era "uma réplica da tela ‘Confusões', do mesmo ano, actualmente na posse de um coleccionador privado em Lisboa". O quadro, diz Delgado Martins, repete os elementos compositivos desta pintura, mas com uma dimensão inferior.

A obra com a assinatura de Álvaro Lapa - um óleo sobre tela, "s/título" e s/data (78,5cmX118,5cm), com uma base de licitação de 22.500 euros - esteve já referenciada no catálogo de uma exposição da galeria portuense Nasoni, em Março de 2008. Isso mesmo é referido por Pedro Mesquita da Cunha, que considerou essa citação como "um dos crivos" que permitem à leiloeira assegurar a autenticidade das obras com que trabalha.

Contactado pelo PÚBLICO, António Cabecinha, da Nasoni, recusou fazer qualquer comentário a estas "suspeitas".

O responsável da Sala Branca assegura que é a primeira vez que a leiloeira se confronta com um caso do género. E nota que as obras do leilão de segunda-feira foram publicadas no catálogo "há cerca de um mês, e estiveram em exposição durante três dias". Daí a surpresa pela intervenção da PJ no próprio dia do leilão, nota Pedro Mesquita da Cunha, que espera agora o desenvolvimento do processo e a clarificação do caso.

René Bertholo e Álvaro Lapa são dois nomes de relevo da arte portuguesa da segunda metade do século XX, com uma cotação crescente no mercado da arte.

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