O especialista em ouvir conversas alheias
O especialista em ouvir conversas alheias
O brasileiro Marçal Aquino só consegue escrever um livro mergulhando nele. O romance "Cabeça a Prémio" foi escrito em 54 dias. Sem parar. Histórias de amor num mundo de traficantes já adaptado ao cinema
Tudo começou quando uma revista pediu ao escritor brasileiro Marçal Aquino um conto. Ele escreveu a história de dois pistoleiros que num parque de diversões se preparavam para "matar um sujeito". Era "uma tocaia", "uma emboscada em que o cara fica ali vigiando para escolher o melhor momento de atacar."
Os dois pistoleiros estavam numa cidade do interior brasileiro atrás de um piloto de avião que iam matar. Mas o escritor não sabia o que é que o piloto tinha feito ou se eles o iam efectivamente matar. "Tanto que o conto termina sem que eles façam algo", explica Marçal Aquino que esteve em Matosinhos a participar no LEV - Encontro de Literatura em Viagem.
Só que quando acaba de escrever este conto - que nunca chegou a publicar - o escritor percebe que quer saber o que está por trás daquela história e recomeça a escrever. Fecha-se em casa e durante 54 dias escreve sem parar porque a história começa a aparecer-lhe de "uma forma muito veloz". Assim nasce "Cabeça a Prémio", romance que publicou no Brasil, em 2003, e que acaba de ser editado pela portuguesa Quetzal.
"Eu não teria tempo para tocar esse livro em três anos. Se eu levasse três anos a escrever 'Cabeça a Prémio' não o teria escrito."
A vida de Marçal Aquino, 50 anos, transtornou-se. Escrevia de manhã, à tarde e à noite: chegava a escrever 17 horas por dia. "'Cabeça a Prémio' saiu desse embrião e a história se mostrou para mim do jeito que está publicada. Ela tem um desarranjo temporal, ela avança, recua, avança, recua, mas não é nada pensado. É assim que a história me apareceu", explica.
Quis contar uma história de amor num ambiente absolutamente hostil, um mundo de traficantes. Aliás, "Cabeça a Prémio" cruza duas histórias de amor. Uma delas acontece entre Brito e Marlene - duas personagens "absolutamente à margem de tudo" que, para serem felizes, não podiam ter ciúmes uma da outra. Ela é uma "cafetina", uma dona de bordel, e ele é um pistoleiro, um matador. Para conseguirem viver juntos fazem "um pacto maravilhoso": "eu não vou perguntar sobre o seu passado, não pergunte sobre o meu presente." Mas, mesmo numa relação "tão acordada, tão feita de acordo, o ciúme acaba envenenando tudo", explica Marçal Aquino, que quando estava a escrever o livro se deparou com uma outra história de amor. A de um piloto, Dênis, que se envolve com Elaine, a filha do traficante para quem ele trabalha e ela fica grávida. "Esta história acabou sendo o eixo narrativo mas no início eu não tinha ideia de qual era a história do livro. Tal como o leitor, quando escrevi o livro, também estava na ignorância. Não sabia bem o que era aquilo. Sabia que estavam atrás de um piloto, não sabia porquê. Mas quando avanço na história vou descobrindo e fica claro: ele tem uma história com a menina e eles fogem." O escritor foi encontrando toda a trama à medida que ia escrevendo, tal como acontece com o leitor quando está a ler este livro. "Não tem nenhum jogo, não tem nenhuma armação. No livro policial se prepara o enigma de modo que o leitor só vem a descobrir na hora certa. 'Cabeça a Prémio' é anti-climático. Termina antes. Tem uma espécie de coda. São jogos que fui estabelecendo e descobrindo à medida que ia escrevendo."
Para escrever este romance, em que uma quadrilha de traficantes domina uma certa região do Norte do Brasil e faz contrabando de droga com pequenos aviões que pousam em pistas clandestinas, Marçal Aquino inspirou-se na realidade brasileira. O mesmo se passou com a personagem do piloto. "Existem. Normalmente são pilotos que não conseguem fazer carreira na aviação comercial e vão trabalhando para traficantes."
Pistoleiros de aluguer
Esta preocupação com o real está muito presente na sua obra. Considera-se um escritor "realista". Foi por causa de uma reportagem que foi fazer, ainda na década de 80, na zona de fronteira do Brasil com o Paraguai, que tomou contacto com o universo dos pistoleiros de aluguer e ficou fascinado. Fez parte do grupo de escritores que nos anos 80 trabalharam em São Paulo no "Jornal da Tarde". Abandonou-o em 1990. "Trabalhei num jornal que era o meu sonho. Dava tratamento literário para as matérias, para os textos e valorizava as imagens de uma forma muito diferente. Era um jornal muito bonito graficamente, e ousado." Era "uma delícia" ser repórter. Aquino era repórter policial e quando ia cobrir um crime, o editor pedia-lhe: escreva uma novela policial.
Quando se tornou jornalista "freelance", passou a ter mais tempo para se dedicar à literatura e acabou por ir parar ao cinema. A verdade é que nunca quis trabalhar como argumentista porque achava que em matéria de actividade economicamente inviável já lhe bastava a literatura. "Não precisava de me meter com o cinema", diz a brincar, mas a sua prosa sempre foi considerada "cinematográfica" e as suas narrativas visuais. Não concorda quando dizem que essa prosa visual está relacionada com o seu trabalho de argumentista. "Sempre esteve presente na minha literatura. Desde os meus primeiros livros essa é uma marca da minha literatura."
A sua narrativa é muito visual porque o cinema entrou na sua vida antes da literatura. A primeira vez que o levaram ao cinema tinha seis anos, "nem alfabetizado era" e quando viu "aquela tela" ficou apaixonado.
"Cabeça a Prémio" foi adaptado ao cinema (o filme está em pós-produção no Brasil) como muitas das suas obras. Actualmente, Marçal Aquino tem um livro parado porque está a escrever com Fernando Bonassis o argumento da série policial "Força-Tarefa" em exibição na Globo.
"Não consigo trabalhar de dia no seriado e chegar à noite, desligar, e voltar para o meu livro. O meu livro exige um mergulho. Então tenho uma novela parada. É uma novela que não sei direito o que é ainda."
O espião
Marçal Aquino é um andarilho. Nem carro tem. Anda pela cidade. "Sempre olhando, sempre anotando frases." Precisa de estar sempre em movimento e o que lhe interessa são as pessoas. "Afinal é para as pessoas que eu escrevo", diz.
Sempre se interessou por vidas marginais. Afirma que São Paulo é "um cinema a céu aberto, ininterrupto". Se prestarmos atenção, vemos maravilha e miséria. As duas existem no mundo quotidiano. Tanto o acto de violência, quanto a poesia. "Então você precisa de estar de olho e de ouvido aberto. Essa coisa de ser andarilho, sempre me facilitou."
E é especialista em "ouvir conversa alheia". Já lhe aconteceu dar por si a seguir gente na rua. Hoje em dia é mais difícil porque as pessoas o reconhecem e já sabem que é escritor. Mas o jornalismo ensinou-o a ouvir sem ser visto.
"Já me aconteceu ver um casal brigando, discutindo, e segui-lo por quarteirões e quarteirões." Isso deu em alguma coisa? "Eu queria saber o motivo da briga - como se houvesse um motivo aparente de uma briga de casal. Enfim, tinha essa ilusão de que ia entender o que estava acontecendo. Bem no momento em que parecia que eles iam falar o motivo, entraram num edifício e fecharam a porta. Eu fiquei para fora. E percebi, claro, vou para casa e vou inventar esse motivo. Então aí eu fiz literatura, deixei de fazer jornalismo."
"A revolução tecnológica de certa maneira me prejudicou porque antigamente o Brasil tinha muita linha cruzada de telefone. Eu adorava quando tirava o telefone e tinha alguém conversando. Ficava ouvindo." Porquê? "Pelo extremo sabor que têm os diálogos. Como é difícil escrever um bom diálogo, um diálogo natural. Sempre digo que cansei de ver no cinema brasileiro um sujeito sair correndo atrás de um 'trombadinha' que tomou a carteira dele a gritar: 'Peguem-no! Peguem-no!'. Ninguém grita: 'Peguem-no!'. Grita-se: 'Pega ele'. Pode até ser um erro gramático mas ele grita: 'Pega ele!'"
O "diálogo naturalista", a "sintaxe da fala coloquial" sempre o interessou. E no dia-a-dia só consegue isso "espionando as pessoas."













