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2009-06-19 15:43

"A esquerda falhou completamente nos países islâmicos do Mediterrâneo"

Camilo Azevedo
Périplo

"A esquerda falhou completamente nos países islâmicos do Mediterrâneo"

11.06.2009
Por: Alexandra Lucas Coelho
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O Sul do Mediterrâneo andou devagar milhares de anos. De repente, levou com colonialismo, ditaduras, globalização - e refugiou-se nas mesquitas. A esquerda tem culpa, reconhece Miguel Portas. "Périplo", com texto de Portas e fotografias de Camilo Azevedo, é uma viagem no tempo e no espaço

Das montanhas do Iémen aos desertos da Líbia, dos cemitérios do Cairo aos rios da Mesopotâmia, dos "souks" de Alepo aos palácios de Petra, o livro "Périplo" vai até onde acaba a oliveira na margem sul do Mediterrâneo.

A série documental que Miguel Portas fez em 2003-4 com o realizador Camilo Azevedo tinha as duas margens do Mediterrâneo e vem em DVD no fim do livro. Mas o que agora está em 350 páginas de texto e fotografias é outra coisa, antes e além das filmagens. Algo entre o ensaio histórico e a viagem, um périplo no tempo e nestes espaços sem paralelo em Portugal. O Norte ficará para um futuro volume.

Camilo Azevedo fez a maior parte das fotografias em viagens de pesquisa, antes de filmar. Miguel Portas escreveu o texto depois da série, muitas vezes recorrendo a viagens posteriores. Há lugares que estão no livro e não estão na série, como Jerusalém. Texto e fotografia são dois discursos paralelos, que frequentemente confluem.

Neste mundo maioritariamente islâmico, mas também judeu e cristão, o ateu Miguel Portas demora-se nas religiões, e defende ao longo do livro a necessidade de dialogar com elas. Não o fazer é ignorar a maioria, e isso foi o que a esquerda fez, erradamente, quando pactuou com as ditaduras nacionalistas árabes. E os pobres voltaram-se para o islamismo político.

Miguel Portas diz que gostava de ter lançado "Périplo" semanas antes da campanha oficial para as europeias, mas o livro ficou pronto apenas dias antes. As duas primeiras apresentações, em Lisboa e Mértola, acabaram por aparecer no portal do Bloco de Esquerda, confundindo-se com a campanha. "Mas ainda não era campanha oficial", justifica Portas. "O lançamento em Coimbra, já em plena campanha, não o anunciei." De resto, diz, "é uma questão de pura formalidade", porque a pré-campanha já vem de Outubro. "As pessoas têm várias dimensões e nunca dissociei as partidárias e as não-partidárias, desde que cumpra a lei."

Dizes que "Périplo" não é um livro de história, não é um ensaio, não é uma reportagem, mas um pouco de tudo isto. Porque é que aparece tão pouca gente a falar?

Foi uma opção. O documentário é que suscitou o livro, e no documentário tivemos condições de filmagem sob vigilância, porque em nenhum daqueles países se filma sem polícia.

Mesmo quando iam às ruínas perdidas da Líbia? Ou sobretudo na Líbia?

Sobretudo na Líbia. E no Egipto os mecanismos de defesa eram muito grandes. Depois havia um outro problema. Ou se fala árabe ou a comunicação é difícil com as pessoas comuns. E portanto tinha que existir a mediação de um intérprete, o que não permitia confirmar a veracidade das respostas porque era agente de polícia.

Os intérpretes eram-vos atribuídos?

Eram. Mas mesmo quando a mediação é através de uma agência, eles têm que fazer um relatório de informação. É assim na generalidade daqueles países.

Nunca encontrei essa realidade. Tem a ver com a câmara?

Tem. Com um pedido de filmagens. Indo a lugares históricos, num registo cultural, estas eram as condições. Depois, eu podia ter feito intervir bastante mais gente [a falar], mas isso tornaria o livro dependente das minhas visitas políticas, nomeadamente à Palestina, Líbano e Egipto, e eu não quis que o livro fosse de actualidade. Pareceu-me mais interessante perceber porque tenho sobre a conjuntura política daqueles países as opiniões que tenho, e para isso era pouco relevante a reportagem de circunstância.

Interessava-me a grande paisagem civizacional, as tendências longas da História, que podem determinar comportamentos ou ajudar a desmistificar conflitos. Mais do que fazer um relato das minhas viagens na Palestina, pareceu-me importante, por exemplo, trabalhar sobre as origens do povo judeu ou do judaísmo.

É dos capítulos mais marcados pela História.

Aí, tinha duas opções. Ou fazia reportagem nos dois lados, mas não tenho conhecimento para tirar um ponto de vista suficientemente original face a tanta coisa escrita e editada, ou fazia um mergulho em certas histórias da História para proporcionar a um público português - e este livro está escrito para portugueses - análises pouco conhecidas cá.

Mas há momentos em que aparecem resquícios dos cadernos de viagem, com diálogos. Aproveitar mais isso podia distrair a estratégia do livro?

Tive medo de o contaminar de reportagem. A minha preocupação foi que tanto fosse acessível ao meu filho mais velho, que gosta de História, como a um professor, a um jornalista, como retaguarda na qual a actualidade se inscreve. Não achei que fosse capaz de fazer sobre a actualidade melhor do que tem sido feito.

Os capítulos também variam. Há uns que têm mais História, outros mais viagem, com algumas peripécias. Como quando estava na Estrada dos Sudaneses, na Líbia, e me deparo com um concerto de relâmpagos. Foi aí que tive a minha luz, que descobri o princípio da racionalidade na religião. Isso tem mais a ver com a literatura de viagens introspectiva.

Tal como a parte em que falas do deserto.

Há elementos intimistas, como há outros que são quase de guia.

Isto começou por ser um livro de fotografias legendadas, com base no acervo do Camilo, à roda de 10 mil fotos. Depois, os primeiros ensaios que fiz não me satisfizeram. Tentei textos curtos sobre grupos de fotografias, mas ninguém compra um livro para ver nele a mesma coisa do documentário. Comecei a construir capítulos.

O primeiro, dos mesopotâmicos, era demasiado curto comparado com os outros. Decidi, a partir dos mesopotâmicos e dos rios [Tigres e Eufrates], resumir o livro do ponto de vista da grande viagem histórica. Portanto, esse capítulo é uma espécie de apresentação.

O seguinte, do Egipto, é muito mais viajante. Mas amarrei-me a um escrito pouco conhecido do Eça de Queirós ["O Egipto"]. Por que é que o Eça jovem via o Egipto daquela maneira? Quase sigo a reportagem dele.

Há um outro capítulo com base num livro, o do Cairo, mas o propósito é revelar uma novidade. Porque se vemos a grande história do Mediterrâneo em [Fernand] Braudel, podemos ver outra grande história em [Schlomo Dov] Goitein [erudito judeu que estudou milhares de documentos de mercadores judeus dos séculos IX-XIII, uma micro-história do quotidiano]. Entre Braudel e Goitein estão as grandes coordenadas do entendimento do Mediterrâneo. A vantagem do Goitein é que era desconhecido em Portugal.

E orientei esse capítulo para as mulheres, porque o capítulo seguinte seria sobre as mulheres. Portanto, cada capítulo foi tendo a sua própria história.

Do Iémen à Líbia, quais são os teus lugares de eleição?

O vale de Hadramaut, a grande paisagem do oásis em forma de rio e da arquitectura de terra...

No Iémen.

... Aliás, se tivesse que escolher um país seria o Iémen. Não é só o vale de Hadramaut. São aquelas montanhas do Centro e do Norte, todas em socalco, com quatro, cinco vezes a dimensão do Douro.

É o único país onde vi que a história fazia efectivamente parte do presente, como força propulsora. Constrói-se como sempre se construiu. No mundo árabe, é a única arquitectura espampanante para fora. Normalmente, a arquitectura do mundo árabe é cega para fora, porque o espaço público é o da família no pátio. No Iémen, não. E é assim no Sul [com vários andares em terra] e em Sana [a norte], com construção de pedra, cada andar construído geração a geração.

Pelo choque negativo, um outro lugar foi o Vale do Jordão [que atravessa Israel e a Cisjordânia, ao longo da fronteira com a Jordânia]. Creio que quando Moisés chegou ao cimo do Monte Nebo com 120 anos e Deus lhe disse "Aqui tens a Terra Prometida", o tipo disse: "Se esta é a Terra Prometida, por aqui me fico" - e pimba, morreu no Monte Nebo. É brutal, a secura. É uma terra abaixo do nível do mar, um ar abafado, um rio Jordão que se salta de um pulinho, pouco mais que um riacho, um mar que é Morto, tudo terrível.

Belíssimo mas estéril.

De cima, parece estéril. Está longe da ideia de paraíso.

Depois, se tivesse que escolher uma cidade, há três, Lisboa, Nápoles e Istambul, que têm tanto em comum...

Mas aí já estás no Norte.

... Não, se tivesse que escolher uma cidade escolhia Alepo [Síria]. É muito bonita, de uma pedra amarelada, tem muito boa construção, muito varandim de madeira, e a pedra e a madeira combinam bem. E tem um "souk" denso, fantástico, talvez o mais denso que conheci. É muito mais bonito e interessante que Damasco.

Pensei que ias escolher Beirute.

Tenho muita ambivalência em relação a Beirute. É, de longe, onde se respira mais liberdade.

E rapidez de reconstituição.

Destruição e reconstituição são absolutamente vertiginosas. É uma cidade agradável para se estar, mas não diria que é bonita. Tem um enorme excesso de construção e é dura.

No livro em que visita algum deste Sul, "Mediterrâneo, Ambiente e Tradição", Orlando Ribeiro defende que o Mediterrâneo é um todo, uma unidade para além das diferenças religiosas, com um carácter de permanência que o progresso ofusca sem destruir. Disse-o em fins de 50, começos de 60. Ainda é possível dizer isto?

Que há uma unidade, creio que há - a do tempo, mais que a dos lugares. Ou seja, não é a unidade da paisagem, é a da persistência do tempo. A ideia de que a vida mudou, mas muito pouco ao longo de muitos séculos. A ideia de que as mudanças passaram pelas comunidades, mas que elas as absorveram para mudar o menos possível. Como o Mediterrâneo tem um excesso de História, aprendeu a lidar com ela dessa forma. Isso mantém-se.

O que acho é que a aceleração dos últimos 150 anos, em particular dos últimos 50, é de tal modo poderosa que curto-circuita todos os adquiridos anteriores. Mas não rebentou com eles. Há uma tentativa desesperada de resistir à instantaneidade como forma de vida. Acho que é isso que explica os fundamentalismos, essa dificuldade de entender a fusão dos tempos. É a resistência do clã que se adapta ao sistema político moderno, transformando as lideranças de clãs em lideranças modernas dos partidos. É o modo como a penetração da cultura americana é espantosamente compatível com o arcaísmo da vida na família alargada. Poucos países conseguem concentrar tão bem essas contradições como o Líbano. É uma espécie de grande concentrado do Império Otomano, da globalização e da resistência à globalização, ao mesmo tempo.

As religiões são chapéus de chuva, atrás dos quais se abrigam as velhas realidades clânicas.

A imigração, que transformou o Mediterrâneo num espaço de morte, com centenas a tentarem atravessá-lo, é uma mudança decisiva no equilíbrio de que falava Orlando Ribeiro?

O livro acaba justamente com a imigração. Adopto a ideia de que neste mar sempre se perseguiram os paraísos na terra, e que a viagem é uma busca do paraíso terreal. Para concluir com a ideia - do Cláudio Torres [co-autor do documentário] - de que o paraíso terreal mora dentro de cada um, tem a ver com a força que leva as pessoas a partirem. Sempre se partiu ou porque se tinha que fugir ou porque não se tinha como ficar. Raramente partir é uma escolha. É uma escolha só para quem pode.

Género Bruce Chatwin.

Exacto. O Chatwin sustenta que o viajante é um nómada e eu discuto isso.

No caso do Chatwin, é um luxo.

Para mim, é um luxo. É uma dádiva que tenho, uma possibilidade.

Como o rei Faisal diz a Lawrence da Arábia: só os ocidentais escolhem o deserto.

Exactamente. O que se passa no Mediterrâneo tem que ver com uma tendência humana muito antiga, mas com decisões de policiamento muito modernas. A decisão de fechar o Mediterrâneo é da Europa. E aquilo que é horroroso nas políticas de imigração - a expulsão e o repatriamento - deixa de ser função de um estado para passar a ser função de Bruxelas. A Europa está nesta posição extraordinária de ter uma política de expulsão sem ter uma política de entrada nem de integração. Mais, consome 50 por cento do orçamento em expulsões e repatriamentos.

Isto é absurdo por razões humanas e porque dá alimento a posições sobre a imigração como as mais recentes do parlamento italiano, que criminalizam quem ajude um emigrante sem papéis, ou seja, criminalizam a humanidade. São pura e simplesmente protofascistas, não têm outro paralelo que não nos anos 30 na Alemanha. E Bruxelas foi incapaz de contestar aquele tipo de legislação porque se inclui no quadro legal da directiva de retorno.

Uma das perguntas para a qual não tens resposta definitiva: por que é que se enchem as mesquitas a sul e se esvaziam as igrejas a norte?

Ensaio uma resposta, acho que é pelo menos parte da resposta. A dificuldade de fazer em 50 anos o caminho que as sociedades do Norte puderam fazer em 150 ou 200, ou seja, a aceleração dos tempos no presente. Onde tive a melhor ideia disto foi em Sana, no Iémen. O camelo ainda é meio de transporte e o último todo-o-terreno também. A sociedade é a do petróleo e ao mesmo tempo tão arcaica, conservadora e fechada como os sauditas das areias. Foi aí que tive a noção de como é difícil a comunidades tribais lidarem com a avalancha de modernidade e ao mesmo tempo com o facto de os modernistas que os dirigiram serem ditadores.

Ficaram sem saída. A certa altura, a mesquita transformou-se num reduto de identidade e de liberdade. Esta avalancha do moderno é de tal modo violenta sobre uma sociedade habituada a andar devagar que fica difícil lidar com a vertigem.

Eu não procuraria convencer o meu avô, se ele fosse vivo, de coisas que pudesse pensar. Estou convencido de que aquilo que lhe pudesse dizer não era aquilo que ele ouviria. Se isto é assim entre gerações num país ocidentalizado, como não há-de ser nas terras em que a intromissão do Ocidente é tardia, e onde as boas ideias chegam com o colonialismo? Digamos que o europeu leva duas malas. A mala dos direitos individuais e da revolução e a mala do colonialismo e imperialismo económico.

Para voltar aos ditadores. Uma explicação para o reforço das mesquitas - depois aproveitado pelo islamismo político - é a falência pós-colonialista....

Do nacionalismo árabe, claramente.

... dos serviços públicos e de todas as redes que é suposto o Estado construir. Esta é a história do crescimento do Hamas, da Irmandade Muçulmana: redes sociais ligadas às mesquitas que fazem aquilo que o Estado não faz.

No fundo, é o princípio das antigas fundações em que se alicerçou a sociedade otomana, e até a sociedade árabe inicial. A ideia da fundação ligada à dízima. O império nunca foi centralizado, os estados são um produto recente. Os sistemas de dominação naquele mundo foram sempre muito fractais, em mosaico, intercomunitários. E este princípio de autogoverno foi seguido mesmo pelo mais perene dos impérios, o romano. Só é brutal se há dissensões no topo, ou uma sedição que corre o risco de contaminar o vizinho. Fora disso, procura conviver com os poderes locais, É essa a história do Mediterrâneo. Os poderes locais sempre foram fortíssimos.

Grande náufraga do falhanço nacionalista é a esquerda laica. No Egipto, na Palestina - o que é que aconteceu?

A esquerda é vítima quer da força da religião como resistência identitária quer das ditaduras. Às vezes, a diferença entre estar no Governo ou na prisão é a diferença de uma atitude ou do modo como acordou naquele dia o líder nacionalista. Não há meio termo. Com excepção do Líbano e da Palestina.

No Líbano, o [historiador de esquerda] Samir Kassir acabou morto em 2005.

Aí as tradições são outras, é muito mais complicado. Há um bom exemplo, o caso da Síria. Tem dois ou três partidos comunistas. Dois estão no Governo, o outro está na prisão. Mas podia ter sido ao contrário.

A esquerda foi cúmplice da modernidade dos regimes nacionalistas, mas essa modernidade foi imposta à bruta. Nunca se procurou trabalhar com o tempo. Todos aqueles líderes, de Ataturk [Turquia] ao xá da Pérsia ao Nasser [Egipto], tinham os olhos postos no Ocidente e nas ideias ocidentais que transformavam a religião num produto do passado e da ignorância. Tentaram afrontar a religião ou nacionalizá-la.

"Périplo" é o livro de um não-crente. Mas compreendes quem procura negociar dentro dos limites da tradição religiosa, em vez de quebrar.

Isso tem a ver com o modo como olho para as pessoas hoje, que não é como olhava. E o modo como hoje respeito os tempos longos da história. Isto parece estranho vindo da esquerda radical, mas tem a ver com uma conclusão política a que cheguei também em Portugal. Uma pessoa de esquerda nunca deve deixar de lutar por transformações, mas deve resistir à tentação de as impor à bruta. E a esquerda do século XX nunca soube resistir à pior das tentações do poder, que é o poder. Ou seja, a ideia de que, em nome da razão, a pode impor de qualquer forma.

Para mim, os fins não justificam os meios. E como entendo que a política deve ser feita com a maioria, deve ser a possibilidade de a maioria se apropriar da política, isto é incompatível com impor valores à bruta. A batalha pela hegemonia ao nível dos valores implica trabalhar com o factor tempo.

Se tivesses que apontar os falhanços da esquerda no Sul do Mediterrâneo, quais seriam?

Em nome da modernidade, a aceitação da ditadura. O que deixou o campo aberto às redes sociais do islamismo político. Digamos que os pobres passaram a reconhecer-se no islamismo político.

E não na esquerda. Um tremendo falhanço.

Brutal. Há um outro dado, que se percebe bem na Palestina. Arafat é o líder nacionalista que tem que fazer compromissos com todos os chefes que vieram com ele de Tunes, mas ainda é o pai de uma nação sem estado. Por baixo dele, e com a cobertura dele, todos os sistemas de poder na sociedade se reconstituíram em ligação íntima com os israelitas, porque já não é possível fazer comércio na Palestina sem ser com empresas israelitas. Então, são as próprias circunstâncias de um território ocupado, com segmentos de autogoverno, digamos, que colocam as novas lideranças palestinianas, que vieram do exílio, na estrita dependência do inimigo. Ao fim de alguns anos, isto não só corrompe completamente como acaba por deixar a maioria do povo entregue às correntes menos comprometidas com os laços económicos com Israel.

Seres ateu e de esquerda é uma liberdade ou uma incapacidade neste mundo? Reconhecendo que a esquerda não soube dialogar com a religião, parece-te inevitável que esse diálogo aconteça, e que tudo terá que ser discutido dentro dos limites dessa religião?

Não só penso que o diálogo é indispensável, como o diálogo com o islamismo político é absolutamente indispensável. A ideia de que não se pode ou deve dialogar com o islamismo político é um enorme erro. É o equivalente a dizer que não se deve dialogar com aqueles povos. Porque, se houvesse eleições realmente democráticas, os que mandam não se aguentavam nem seis meses.

O islamismo político ganharia.

Ganharia. Depois havia de perder, mas abria-se o jogo. O partido que actualmente governa a Turquia não é outra coisa que não uma variante da Irmandade Muçulmana.

Então, neste universo muito mais próximo do islamismo político do que há décadas - e já vimos como a esquerda também foi responsável por isso -, o que é que a esquerda tem a fazer?

A esquerda árabe é tributária da formação marxista europeia e teve sempre dificuldade em compreender o fenómeno religioso. O que faço no livro é um exercício que hoje muita gente na esquerda faz: tentar compreender o fenómeno religioso depois de a fractura entre religião e ciência ter deixado de ser o que era. Hoje a ciência não tem que se opor à fé para resolver problemas de ordem filosófica que decorrem estritamente da crença. Não há resposta científica para algo que decorre da fé. O facto de eu não ter religião, e de pensar que a religião é um produto dos homens, permite-me ter a distância que de algum modo um jornalista pode ter. Não parto para a análise da religião com um "parti pris" de ateu. Parto para a análise da religião como fenómeno humano, que é o que me interessa.

As religiões são profundamente desconhecedoras das suas vizinhas. Os sunitas desconhecem tanto os xiitas quanto os católicos desconhecem os protestantes. Em Alepo, em 2007, num encontro ecuménico, defendi isto: pelo menos podemos concordar que o homem inventa Deus à sua semelhança. E no fim eles declararam-me crente: você acredita no homem. E eu disse que sim. Tive que dizer. Mas, de facto, hoje não tenho uma crença particular no homem. Transitei do cristianismo para o marxismo bastando-me acreditar no homem. Substituí uma crença por outra. E hoje estou convencido de que o homem é capaz do pior e do melhor, e que não há nenhum destino escrito. Não há uma bondade inata que, no fim, triunfe sobre o mal. É possível, aliás, que o mal triunfe. Tenho a certeza absoluta que se quiser algum bem tenho que lutar muito, e que vale a pena fazê-lo. Mas hoje a minha relação com a crença na humanidade resume-se a quase uma atitude egoísta: poder chegar ao fim da vida e achar que, apesar de tudo, fui útil, não sacaneei o próximo, não fiz coisas de que me tenha mesmo que arrepender. Que a minha vida teve algum sentido - e só entendo a minha vida com outros.

Se fosses um homem de esquerda no Egipto, o que farias?

No Egipto, não sei bem. Não há nenhum partido em que me pudesse reconhecer. Seria provavelmente um activista social ou cultural, um jornalista procurando ser sério, um escritor procurando ganhar espaço de liberdade. A minha política seria a minha forma de ser útil nesse mundo.

Ou seja, não é possível fazer política de esquerda no Sul do Mediterrâneo?

É possível. No Egipto, é que não há, neste momento, forças visíveis. No Líbano, é um pouco diferente. Ou na Palestina, onde eu estaria com a esquerda da Terceira Via, nem Hamas nem Fatah, que não se conseguem entender entre si. Apesar de tudo, na Palestina há uma possibilidade de a esquerda laica se afirmar se não estiver dividida.

Não me esqueço de um momento em Gaza, num encontro com vários deputados, em que eu e a [eurodeputada] Luisa Morgantini estamos a discutir com eles: "Porque é que continuam a atirar 'rockets'? Isso não presta para nada, não tem nenhum efeito militar, só une a sociedade israelita contra vocês. Que falta de sentido nisso!". E um homem da FDLP [partido de esquerda] levanta-se e diz: "São capazes de ter razão, mas digam-me lá o que faz um gato numa jaula? Pelo menos tem que mostrar as garras. Isto são as nossas garras. A gente sabe que não serve para nada, mas temos que mostrar qualquer coisa".

Estamos vivos.

Estamos vivos. Eu consigo compreender isto. A questão deles não é a eficácia. A eficácia deles é demonstrarem que estão vivos.

2009-06-19 15:42

Dança, música, teatro, performance e outros Materiais Diversos

“L’Après Midi”, de Raimund Hoghe
Festival

Dança, música, teatro, performance e outros Materiais Diversos

19.06.2009 - Vasco Câmara
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Tiago Guedes é o director artístico do novo festival, que se realiza de 19 a 29 de Novembro

Regresso às origens: dali saiu, aos 18 anos, para estudar dança em Lisboa, e licenciar-se na Escola Superior do Instituto Politécnico, e ali regressa 12 anos depois - suspendendo temporariamente a sua obra de coreógrafo - como director artístico de um festival. Dança, teatro, música, performance, anuncia-se a 1ª edição de Materiais Diversos, de 19 a 29 de Novembro.

"Ali" é Minde (onde nasceu) e "ali" é Alcanena, cuja Câmara Municipal é organizadora do festival. Ele é Tiago Guedes e os dados da sua biografia não são aqui mera curiosidade: a relação, simultaneamente, de proximidade e de distância com um micro-cosmos (ribatejano) habitam o programa editorial deste festival que leva o nome - Materiais Diversos - da estrutura de produção do coreógrafo. Proximidade e distância: porque algo tem a ver com os idílicos modelos de infância e algo tem a ver com as transformações que obrigam a reconfigurar essa memória.

Podemos dizer isto sobre Materiais Diversos: programará materiais contemporâneos, internacionais e nacionais, no interior, em Alacanena, Minde e Torres Novas - na dança, Raimund Hoghe ("L'Après Midi"), Eszter Salomon e "Magyar Tankoc" ("peça autobiográfica, ela revisita a família, a música e a dança tradicional húngara", diz-nos Tiago Guedes), Jonathan Burrows+Matteo Fragion, Filipa Francisco+Bruno Cochat ou ainda Luís Guerra, Andresa Soares e Tânia Carvalho; no teatro, associando a Cão Solteiro ao artista plástico Vasco Araújo, e programando também Martim Pedroso ("Purgatório"); na performance, com Karine Décorne+Simon Proffitt, ou com Margarida Mestre e André Murraças; na música destacando Norberto Lobo.

Mas diz o director artístico: "não queremos correr o risco de ser um ovni" no interior, uma bolha artificial. E por isso -  e isto singulariza Materiais Diversos - uma série de espectáculos foram inventados juntando os convidados às estruturas que existem no local. E é assim que, por exemplo, Eszter Salomon se associará ao Rancho Folclórico do Covão do Coelho (aldeia vizinha a Minde) para uma "espécie de 'jam session' entre os bailarinos e os músicos das duas companhias"; que a encenadora Cláudia Gaiolas encenará "A Gaivota", de Tchekov, com o grupo de teatro local Boca de Cena; ou que André Murraças intervirá no Museu Roque Gameiro de Minde, encenando uma visita guiada. Eis como se convoca - para esta contemporânea festa na aldeia - a capacidade associativa das populações locais, possibilitando-lhes envolvimento e expressão. A elas e aos equipamentos - Cine-Teatro S. Pedro (Alcanena), Cine-Teatro Rogério Venâncio, Blackbox do auditório do Conservatório Regional de Música, Museu Roque Gameiro (todos em Minde), Teatro Virgínia (Torres Novas, que se junta ao festival ao abrigo de uma parceria).

Materiais Diversos existe através de um protocolo, para dois anos, renováveis, com a Câmara Municipal de Alcanena. Que apoia o projecto em 40 por cento do orçamento - o mesmo que cabe ao Ministério da Cultura. A edição de 2010 acontecerá no Verão, em Setembro. Com a renovação do protocolo Materiais Diversos não será apenas nome de festival: designará também um projecto de centro internacional de residências artísticas.

 

2009-06-19 15:41

Carla Bruni actriz para Woody Allen?

REUTERS/Yannis Behrakis
Paris

Carla Bruni actriz para Woody Allen?

19.06.2009
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O realizador americano disse em Paris que por ele isso poderá acontecer

Woody Allen disse em Paris (e citamos a revista "Les Inrockuptibles") que gostaria de dar um papel num filme seu a Carla Bruni. Golpe publicitário do realizador, que na capital francesa promove o seu novo filme, "Whatever Works"? Certamente, uma declaração que, segundo a revista, criou acontecimento...

"Tenho a certeza que ela seria maravilhosa. Ela tem carisma, ela está habituada a actuar em público, poderia dar-lhe um papel qualquer", disse Allen. Que vai contactar Bruni para saber se ela está interessada. "Há boas hipóteses de que um encontro entre nós aconteça."

2009-06-19 15:41

Bruno Se um "Borat" incomoda muita gente, um "Bruno" pode incomodar ainda mais

Sacha Baron Cohen como Bruno na estreia do filme em Londres
REUTERS/Toby Melville
Bruno

Se um "Borat" incomoda muita gente, um "Bruno" pode incomodar ainda mais

18.06.2009 - Joana Amaral Cardoso
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O novo filme de Sacha Baron Cohen, que se estreia em Portugal a 9 de Julho, já está a gerar incómodo mundo fora

Quando Sacha Baron Cohen chega a algum lado, quase nada acontece. Ele é um comediante que, fora da personagem, é um homem discreto. Mas quando "Borat" chegou, todo o mundo ouviu o restolhar de incómodo dos americanos, dos judeus, dos cazaques. Agora, chega "Bruno" e à medida que o filme vai tendo ante-estreias pelo mundo, o desconforto é audível. O humorista britânico parece não conhecer outro valor cómico que não o choque e o confronto realidade/surrealismo da actuação e agora preocupa a comunidade gay e os defensores dos pantanosos "bons costumes".

Desde que se começou a delinear o projecto "Bruno", já se sabia quem seriam os visados - não só os americanos, símbolos do homem comum nas suas múltiplas declinações, mas também os cidadãos do planeta moda e, entre eles, os gay. Claro que há outros candidatos à indignação pública. Bruno é um jornalista de moda austríaco. E já invocou o nome do Führer  - "A última coisa que eu gostaria de ser era ser o austríaco mais famoso desde Hitler"- e também pôs o dedinho empertigado num outro ponto aparentemente intocável do humor de actualidade. Candidamente, citado pelo "Independent" disse que quer viver "o sonho austríaco de encontrar um parceiro, comprar uma masmorra e começar uma família". Ou seja, brincou com o caso Joseph Fritzl.

Mas se Borat irritou o Cazaquistão por ter na personagem principal um retrato campónio e pouco simpático desse país, perdendo-se de vista que os alvos da chacota eram mesmo os americanos, Bruno não está a gerar tanta preocupação na Áustria quanto comunidade de defesa da igualdade e dos direitos LGBT (lésbico, gay, bissexual e transgénero). E, ao que tudo indica, Sacha Baron Cohen não vai conseguir o feito Borat - parece não se conseguir ultrapassar a caricatura do jornalista de moda austríaco Bruno para se chegar ao ar atordoado dos americanos que ele visita, chocados com a sua homossexualidade feérica.

Cohen não quer deixar ninguém esquecer que está a satirizar um dos grupos que poderiam estar ao abrigo do politicamente correcto - a comunidade gay - e não se livra das queixas. Tal como "Borat", "Bruno" é um "mockumentary" (um falso documentário) que acompanha as diatribes da personagem num périplo americano, seja junto de americanos desconhecidos, seja encontrando-se com americanos conhecidos. E joga com as suas reacções à sexualidade de Bruno, ambas fortes. Mas o facto de a Universal Pictures, que produz "Bruno", dizer que o filme quer satirizar a homofobia, há associações que defendem que o risco é demasiado grande - o filme pode vir a reforçar os estereótipos sobre os homossexuais.

Veja-se a actividade promocional sem vergonha (no melhor dos sentidos) de Sacha Baron Cohen: não aparece sem uns calções absurdamente curtos, sem penas e plumas e lantejoulas, sem exagerar os tiques homossexuais de uma certa franja da comunidade, nem sem brincar com a temática gay e com a indústria da moda. Este "é o filme mais importante com um protagonista austríaco gay desde ‘Exterminador Implacável 2'", com Arnold Schwarzenegger, disse na estreia de Londres. "O filme que acabei de fazer é o mais importante documentário sobre um gay branco desde ‘A Paixão de Cristo', disse num talk-show em França. "Pensei em chamar-lhe ‘A Moda de Cristo'", num trocadilho com o título original de "A Paixão de Cristo", "The Passion of the Christ". E pronto.

"A bem intencionada tentativa de Sacha Baron Cohen de sátira é problemática em muitos aspectos e francamente ofensiva noutros", comentou Rashad Robinson, da Gay and Lesbian Alliance Against Defamation. Do lado da Human Rights Campaign, o maior lobby nos EUA, defende-se que os responsáveis pelo filme deviam avisar que o filme deve ser entendido como sátira à homofobia e que para isso é preciso um aviso nas salas de cinema.

E segundo o "New York Times", Elton John recusou que "Can You Feel the Love Tonight" aparecesse no filme, numa cena em que dois homens lutam numa jaula e de repente começam a acariciar-se. Porquê? Porque soube dos detalhes da cena e "ficou lívido", segundo o "Times", estando ainda assim aberto a que a música figurasse noutra cena.

2009-06-19 15:40

O cartaz político ainda é uma arma?

Shepard Fairey
Mude

O cartaz político ainda é uma arma?

17.06.2009 - José Marmeleira
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É um diálogo entre símbolos, corpos e rostos: Lenine, Che, Otelo, Nixon, Bush, Obama... No Museu do Design e da Moda, Lisboa, em "Ombro a Ombro: Retratos Políticos". Suscita perguntas. A política portuguesa pode, um dia, produzir um cartaz com o impacto icónico daquele, com o rosto de Obama, da autoria de Shepard Fairey?

Os "outdoors" andam nas auto-estradas, as máquinas eleitorais preparam as suas campanhas e os políticos treinam para convencer o eleitorado. Estamos em ano de eleições (uma já passou, duas vêm a caminho) e, com sentido de oportunidade, o Mude - Museu do Design e da Moda, em Lisboa, recebe, até 13 de Setembro, uma imensa galeria de cartazes: "Ombro a Ombro: Retratos Políticos" (exposição comissariada por Christian Brändle, director do Museu de Design de Zurique). Estão lá Che Guevara, Lenine, Mussolini, Hitler, Mário Soares, Otelo, Barack Obama, Mitterrand ou George W. Bush. Encenados por artistas, designers, propagandistas, com e sem assinatura.

Os formatos, os estilos e os objectivos das imagens expostas são diversos. Umas fazem o culto da personalidade, outra servem a campanha eleitoral clássica ou a simples propaganda política. Todas, porém, permitem um reencontro do visitante (que na maioria dos casos será, também, um eleitor) com o passado e o presente da vida política. Uma parte de "Ombro a Ombro" também inclui cartazes retratos anódinos, limpos, absolutamente esquecíveis, em particular os portugueses e aqueles produzidos pela publicidade política contemporânea, o que leva a perguntar: há qualidades estéticas no cartaz político? Ou este é (tem que ser) necessariamente pouco criativo?

As orientações do "marketing"

Mário Moura, crítico de design e autor do blog ressabiator.wordpress.com, explica a pobreza gráfica da generalidade dos cartazes contemporâneos com o predomínio da publicidade política: "Têm sido muito raros os cartazes políticos dos últimos anos que dão vontade de pendurar em casa. A maioria, mesmo os de partidos com ideologias opostas, acaba por ser muito parecida". E esta homogeneidade visual tem objectivos concretos, até previsíveis: aponta, claro, ao centro. "Se um cartaz representar uma força de política de modo demasiado evidente arrisca-se a alienar indecisos e pessoas de outros partidos políticos. Por isso, são cada vez mais graficamente neutros e semelhantes entre si".

Neste contexto, onde as orientações são ditadas pelo "marketing" e a publicidade, os designers pouco podem fazer: "Limitam-se a fazer o arranjo final da fotografia e do slogan sobre o papel. Contam-se pelos dedos as campanhas que se apoiam sobre uma ideia gráfica".

A perspectiva de António Costa Pinto, politólogo e investigador do Instituto de Ciências Sociais, não se distancia muito da de Mário Moura, mas parte de outras premissas. A propósito de um par de cartazes, na exposição, que juntam, como casal perfeito, John McCain e Sarah Palin, a dupla republicana derrotada nas presidenciais dos EUA, considera: "São terríveis do ponto de vista estético, mas cumprem bem a sua função. São dirigidos a um eleitorado que é o da América provinciana, dos valores conservadores e religiosos". E acrescenta: afinal, "os cartazes são instrumentos racionais de conquista de poder, não lapsos estéticos".

Em Portugal, a criatividade no poster político teve o seu período áureo logo após o 25 de Abril. Mas a chegada do "marketing" político alterou o cenário: "Nos finais dos anos 70, os partidos que em Portugal acabariam por dominar a cena política já tinham alguma empresarialização, mas era muito pequena. Foi com as candidaturas presidenciais do [General] Ramalho Eanes e a consolidação da nossa democracia que a profissionalização na propaganda política se concretizou". Apareceram as agências de comunicação e a publicidade e a sua utilização aumentou numa dinâmica inversamente proporcional à militância partidária. A realidade alterara-se: "Os partidos não eram os mesmos de há 30, 40 anos quando eram partidos de militantes."

Determinado como um meio específico, neutro, esvaziado de ideologia, o cartaz político, feito de papel, para estar na rua, tem hoje uma presença mais modesta na actividade política. António Costa Pinto concorda: "Sim, foi predominante entre o final do século XIX e os anos 70 do século XX, mas a tendência para a utilização de outros suportes é cada vez maior. Por outro lado, o mundo é muito diverso. Há camponeses nos Andes que precisam de votar, camponeses chineses que um dia irão votar e nestes casos é a propaganda política mais tradicional que será convocada". E não precisamos de ir mais longe: "Em Portugal fala-se sempre nas dimensões da inovação, da blogosfera, dos sites, mas a maior parte da propaganda política continua a ser feita nas chanfanas e nas feiras".

Para Mário Moura, onde os designers têm maior liberdade para trabalhar com os cartazes "é nos partidos pequenos e nas causas mais independentes". As imagens criadas são, talvez, eleitoralmente menos eficazes, "mas a longo prazo podem tornar-se ícones poderosos que são frequentemente apropriados e reapropriados por diferentes grupos, ideologias e partidos ou mesmo produtos. Os cartazes baseados na figura de Che Guevara são um bom exemplo".

Em suma, o cartaz ainda é uma arma. Mais discreta ou eficaz, com poder de fogo diminuído, continua a existir nos "outdoors", na internet, nas caravanas partidárias. Como uma representação gráfica dos candidatos e da política (que temos).

Os cartazes que merecemos

Se o cartaz como elemento da propaganda política tem com objectivos convencer, conquistar, mobilizar, onde entra o design? Mário Moura: "O design é um processo muito sensível a mudanças políticas, mesmo que pequenas, pois é um processo de negociação entre várias pessoas. E o resultado final depende da forma como esse processo se organiza. Numa grande empresa, por exemplo, o objecto final está dependente de uma série de aprovações muito grande". Os efeitos desta prática são inevitáveis e limitam a invenção.

Condenado a ser um produto de uma forma de administração empresarial (associada à ideologia neo-liberal), o design político espelha um desencanto que, segundo o crítico, se descobre no próprio design. "A falta de fé na política está ligada a uma falta de fé no design. Se uma campanha usa design demasiado sofisticado é logo acusada de se preocupar demasiado com a imagem. O que acontece é que a maioria das campanhas políticas são não apenas contra o design vistoso como contra o próprio design. Se neste momento a política profissional precisa de recuperar a sua credibilidade, o design tem certamente algum trabalho nesse sentido". E, nem por acaso, o panorama visual e gráfico das campanhas eleitorais portuguesas precisa, com urgência, se não de mais credibilidade, pelo menos de mais arrojo. Os cartazes das últimas europeias, com destaque para os partidos do poder, foram soporíferos dirigidos aos olhos. Imagens de fotógrafo de subúrbio, tão risíveis quanto incómodas. Faz falta um pouco mais de verve, imaginação e convicção. A bem da democracia e contra a abstenção.

O cartaz Barack Obama, da autoria de Shepard Fairey, é, na opinião de Mário Moura, um dos exemplos raros de um "bom cartaz " contemporâneo: "De todas as apropriações da imagem de Obama, é a mais bem sucedida. Tornou-se mais oficial que a imagem oficial. Agarrou naquilo que a campanha de Obama procurava transmitir, uma imagem de esperança no futuro, mas também uma nostalgia de uma América mais inocente e sensata". E embora sem inaugurar uma nova forma de criar imagens políticas - Shepard trabalha a partir da apropriação de imagens históricas e a imagem de Obama remete para os cartazes realizados durante o New Deal - veio entretanto recuperar o formato do cartaz, trazendo-o não tanto para a rua, mas para a internet.

A política portuguesa pode, um dia, vir a produzir um cartaz com semelhante impacto icónico? António Costa Pinto tem dúvidas e justifica-as com a natureza política da nossa democracia: "Faltam-nos algumas coisas. O nosso sistema político não sendo anti-presidencial, é apesar de tudo menos pessoalizado. Temos eleições para a Presidência da República, mas o cargo institucional do presidente é mais anónimo". E a esta particularidade acrescenta-se outra: "Falta-nos uma dimensão que é mais difícil de introduzir em Portugal: a dimensão messiânica; ou seja, alguém que numa conjuntura de crise possa protagonizar um modelo de esperança para a sociedade americana".

José Luís Garcia, sociólogo, também investigador do Instituto de Ciências Sociais enuncia outras razões que se encontram com as apresentadas pelo seu colega: "O sistema político da União Europeia, e de cada um dos Estados europeus, não tem tendência a forjar personagens com a força mítica e icónica de um Barack Obama. A primeira porque a sua personalidade mais importante resulta de uma escolha feita pelos directórios dos partidos maioritários nas costas dos eleitores. E do ponto de vista de cada um dos Estados, por razões sociais e políticas de fundo, as oligarquias políticas europeias não permitem que possa surgir um jogador que, nesse terreno, pudesse restituir uma certa esperança nas transformações políticas. E se não aparecem jogadores, não podem aparecer estrelas da política ou um cartaz como aquele."

José Luís Garcia não está, no entanto, convencido da potência crítica (e da longevidade) do poster assinado por Shepard Fairey e coloca-o dentro de um conceito proposto por Siegfried Kracauer, sociólogo e crítico cultural alemão do século XX: o ornamento da massa. "Ele prenunciava o torpor contemporâneo diante da inundação de imagens industrializadas e acreditava que esse fenómeno podia destruir os traços decisivos da própria consciência. Creio que este tipo de cartaz se inscreve nessa ideia de ornamento da massa, como uma espécie de padronização de coreografias e de traços". E propõe um exemplo: "Colocar a face do Obama em traços que podiam servir à representação de jogadores de futebol ou estrelas de cinema significa que estamos a assistir ao fim de fronteiras entre formas de cultura conduzidas por códigos banais e primários".

Então, não há razão para projectarmos esperanças na figura e no cartaz? "Não lhe retiro a força icónica, mas, na minha opinião, a sua força social é efémera. Suscita efervescência, mas de baixa potência. E receio que a personalidade do Obama esteja transformada, através dessa imagem, numa partícula de massa. É um risco, mas não temos alternativa". O cartaz ainda é uma arma? Sim, mas efémera como sempre foi, antes de passar à condição de documento visual e político.

2009-06-19 15:40

O Sudoeste em português

Buraka Som Sistema
Paulo Pimenta
Festival

O Sudoeste em português

19.06.2009
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Cartaz do festival inclui mais de 30 projectos nacionais

Não são uns estados gerais da música portuguesa, mas para lá caminham: os quatro palcos do Festival do Sudoeste, que decorre de 5 a 9 de Agosto na Zambujeira do Mar, vão acolher mais de 30 projectos nacionais, dos fenómenos de grande público (fileira Mariza e Buraka Som Sistema, ambos com lugar marcado no palco principal) às bandas emergentes (falamos dos Virgem Suta, por exemplo, mas também do "showcase" de uma editora de ponta, a Flor Caveira) e a um impressionante contingente de DJ que terá a seu cargo os palcos Positive Vibrations e Groovebox.

Além dos dois cabeças de cartaz, há mais três projectos que aparecem no cartaz em letras gordas: Gomo, Blind Zero e Legendary Tigerman vão ao Alentejo mostrar os álbuns novos ("Nosy", "Luna Park" e "Femina", respectivamente).

2009-06-08 00:18

Site The Auteurs permite aos cinéfilos verem clássicos alternativos e "pérolas" independentes

Internet

Site The Auteurs permite aos cinéfilos verem clássicos alternativos e "pérolas" independentes

07.06.2009
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O site é um novo projecto nascido em Silicon Valley que fornece video-on-demand aos cinéfilos mais exigentes

O site é um novo projecto nascido em Silicon Valley que fornece video-on-demand aos cinéfilos mais exigentes. sana Almeida Ribeiro

O site The Auteurs dá aos cinéfilos aquilo que não conseguem ver com qualidade em mais nenhum recanto da Internet, mais virada para o mainstream: filmes que rodam pelo circuito internacional, clássicos mais alternativos, "pérolas" estreadas apenas em festivais de cinema, documentários, filmes experimentais, cinema de autor... Tudo isto em vídeo de alta qualidade e com preços por streaming a rondar os 3,5 euros.

A quantidade de filmes disponíveis varia em função da região em que está cada utilizador, mas inclui, desde já, para Portugal, clássicos como "Caro Diário" (Nanni Moretti), "Mulholland Dr." (David Lynch) e "Dogville" (Lars Von Trier), e ainda os portugueses "Body Rice" (Hugo Vieira da Silva), "O Fatalista" (João Botelho) e "Transe", de Teresa Villaverde.

O site é um novo projecto nascido em Silicon Valley que fornece video-on-demand aos cinéfilos mais exigentes, conseguindo igualmente agradar aos puristas do som (com Dolby surround) e da imagem, ao enviar os ficheiros comprimidos para os PC's (desde que equipados com Flash), a uma velocidade quase instantânea e em alta qualidade.

"A nossa empresa é a combinação entre ‘geeks' de filmes e ‘totós' do audiovisual", descreveu Efe Cakarel, o fundador da empresa, citado pela "Wired". "Mesmo que um dos filmes que nós disponibilizamos esteja acessível noutro site, não será a mesma coisa, por causa da mais-valia que os nossos técnicos dão à compressão dos ficheiros".

O site oferece actualmente centenas de títulos, oriundos de cerca de 30 países, mas planeia expandir até aos milhares o número de filmes disponíveis até ao final do ano. Para aceder aos filmes, basta que o utilizador se registe no site e escolha qual o filme a ver. Depois de pagar, o filme fica disponível, estando limitado o número de vezes que um utilizador o pode ver. O ficheiro não poderá ser descarregado para o disco duro, como forma de evitar a pirataria.

Há duas semanas, o realizador norte-americano Martin Scorsese uniu os esforços da sua organização - a World Cinema Foundation, responsável por recuperar e restaurar filmes antigos - à tecnologia disponibilizada pelo The Auteurs, a fim de que possam, no futuro, pôr à disposição dos internautas cerca de 3000 filmes, todos eles com prémios e excelentes críticas na "bagagem". Outros parceiros desta cinemateca online são o americano The Criterion Collection, a europeia Celluloid Dreams e a argentina Costa Films.
2009-06-08 00:14

A nova família de Rodrigo Leão

Concerto

A nova família de Rodrigo Leão

07.06.2009 - Vítor Belanciano
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O novo disco de Rodrigo Leão, "Mãe", é provavelmente o conjunto de canções mais melancólicas que alguma vez compôs. Pelo ambiente afectivo, foi um espectáculo único o de sexta-feira no Casino do Estoril. Com Stuart Staples dos Tindersticks e o argentino Melingo como convidados

"António",  tema contido no álbum " Cinema", foi composto para embalar as primeiras palavras do filho António. "À espera de Sofia", revelado na antologia "Mundo", era sobre o terceiro rebento de Rodrigo Leão. A 22 de Junho, editará "Mãe", novo álbum de originais, dedicado à mãe, falecida em Janeiro, disco apresentado anteontem no Salão Preto e Prata do Casino Estoril.
Há três anos perguntávamos-lhe se as experiências marcantes da sua vida se reflectiam na criação. Ele respondia que, "apesar do processo de composição ser intuitivo, há duas partes que a constituem: uma subjectiva e abstracta, outra muito marcada pelas pessoas que conhecemos. E os filhos são uma coisa forte", dizia.
Uma mãe também. Talvez por isso os temas de " Mãe"  apresentados respirem um clima tão emotivo. São provavelmente o conjunto de canções mais melancólicas que alguma vez compôs. Marcadas pela ausência, mas também carregadas de alento, de sentido de renascença. É um tributo, mas universal.
Pelo ambiente afectivo, foi um espectáculo único. Mas não foi apenas por isso. Havia convidados especiais também - a Orquestra Sinfonieta de Lisboa e dois dos cantores que entram no novo disco (o inglês Stuart Staples dos Tindersticks e o argentino Melingo), tendo faltado apenas o inglês Neil Hannon dos Divine Comedy. Em palco esteve também a habitual formação que o acompanha, o Cinema Ensemble. No total, uma trintena de músicos, num óptimo concerto.
Foi um ritual subtil, como quase todos os concertos de Rodrigo Leão, criação de tonalidades emocionais através de várias linguagens (música contemporânea, clássica, minimalismo, ambientalismo, tango, fado, pop), de forma quase imperceptível. Do comovedor " Histórias", tema de abertura do novo disco, aos momentos festivos - o novo "Ya sè tebe" ou os conhecidos "La fête" ou "Pasion", este último com a acordeonista Celina Piedade na voz.
No novo disco, a voz de Ana Vieira destaca-se ainda mais. Às vezes ganha colorações de fado ("Vida tão estranha"  ou "Segredos"), fazendo recordar a solenidade de tempos idos dos Madredeus, outras vezes ("Sleepless heart") lembrando Beth Gibbons dos Portishead, que participava no último disco de Leão.


Em palco, todos de preto, menos a camisa garrida do baterista Luís San Payo. À esquerda, Rodrigo parece imerso nos teclados, mas quando um tema termina, todos os outros músicos olham na sua direcção. É ele que dá ordem de arranque para mais uma canção. No centro, o Ensemble, seis músicos dotados (acordeão, violoncelo, violino, viola de arco, baixo e bateria), criando uma enorme cumplicidade entre si. Atrás, a Orquestra Sinfonieta de Lisboa contribuindo para uma sonoridade ainda mais densa, barroca e orquestral.
Dos convidados, Stuart Staples é o primeiro a entrar em acção, voz grave, posição do corpo tensa, olhos fechados, sensibilidade em bruto em " This light holds so many colours",  letra da sua autoria, num dos momentos da noite. Entra depois Melingo, gingão, voz rouca, vivida, serpenteando pelo palco, "querido amigo", canta na direcção de Rodrigo, "yo solo sé que no sé nada", numa viagem cúmplice pelo tango entre quem sabe, afinal, bastante sobre o poder da música em comunicar o indizível.
Rodrigo Leão não está só. Na sexta-feira teve novos amigos e a família, a da plateia e a do palco, à sua volta.

2009-05-26 12:15

Hollywood morreu, viva Hollywood... e outras aventuras do cinema nos anos 70

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Abbas Kiarostami
Cinemateca Portuguesa

Hollywood morreu, viva Hollywood... e outras aventuras do cinema nos anos 70

21.05.2009 - Inês Nadais
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A Cinemateca Portuguesa começa a mostrar a partir de hoje, com o monumental "O Padrinho", de Coppola, o cinema que mudou Hollywood (e que o fez voltar à vida, depois da morte). Uma década inteira para redescobrir, de A a Z, em 60 filmes

O mundo mudou menos nos anos 70 do que nos anos 60: é uma questão de aritmética: houve menos revoluções, menos descolonizações, menos cenas da luta de classes. Mas o cinema continuou a mudar, assustadoramente, e de novo a partir de Hollywood.
"Eram os Anos 70", o ciclo que hoje se inicia na Cinemateca - começando exactamente onde o programa "Eram os Anos 60" terminou -, é o filme desses anos contraditórios que mudaram Hollywood a partir das cinzas do "studio system", de uma geração de cineastas com um programa, e de um novo modelo de negócio assente no "blockbuster". "É na década de 70, com 'O Tubarão', que a tradição de ir ao cinema uma vez por semana se perde e os filmes ganham essa dimensão de acontecimento excepcional. Depois da recomposição do cinema com a Nova Hollywood, que durou até 1975, o 'blockbuster' passou a ocupar todo o espaço disponível. É possível que 'O Tubarão' tenha sido o filme que mais mudou o cinema, mas seria demasiado pessimista abrir o ciclo com esse filme porque representa o princípio do fim", diz o programador do ciclo António Rodrigues.

Organizado em módulos que fazem um inventário o mais exaustivo possível - até geograficamente - do que foi o cinema da década de 70 (mas sem quebrar a quota de um filme por realizador), o programa não ignora a experiência absolutamente singular do cinema português: "O 'Amor de Perdição' do Oliveira é um luxo de pobres: fazer um filme daqueles, com quatro horas, naquela altura, é quase milagre. Mas esse filme mudou o cinema português nos 20 anos seguintes: se há país europeu cuja produção é completamente autoral até ao final dos anos 90, é Portugal", continua. Mas vamos por partes: ainda não chegámos ao O, de Oliveira.

América - A América já tinha perdido a face em 1969, quando percebeu que em Março do ano anterior 26 soldados tinham passado um belo dia a massacrar civis vietnamitas em My Lay, mas ainda tinha muito a perder (e perdeu tudo) quando entrou na década de 70. 58 mil mortos em acção (ver Vietname), duas crises petrolíferas e um Watergate depois, era um país encostado às cordas, e o cinema tinha passado a mastigar essa palavra "bigger than life", América, com remorsos, desde o "I believe in America, America has made my fortune" que abre "O Padrinho" (1972), de Francis Ford Coppola, ao "God bless America" que fecha "O Caçador" (1978), de Michael Cimino. Richard Nixon podia não saber o que estava a fazer, mas sabia o que estava a dizer: não foi o Vietname que derrotou a América, foi a América que se derrotou a si própria.

Blockbuster - Steven Spielberg era um miúdo de 27 anos quando começou a trabalhar num projecto que, mais do que fazer a releitura (ver clássicos) da tradição americana dos filmes-catástrofe (uma experiência regeneradora para uma nação que se estava a matar no Vietname), inaugurou o modelo de negócio que salvou Hollywood. "Tubarão" (1975) foi o primeiro "blockbuster" da história e alterou radicalmente a experiência do cinema. Lançado simultaneamente em 465 salas, fez mais de sete milhões de dólares só no primeiro fim-de-semana e com isso comprometeu definitivamente as 60 revoluções por minuto da Nova Hollywood, que acabou ali (e houve sangue), em Amity Island.

Clássicos - Embora se tenha feito em grande parte contra a lógica predadora do "studio system" e contra a moral que esse sistema continuou a reproduzir, mesmo depois de praticamente falido, a Nova Hollywood construiu-se também em cima das ruínas dos géneros que fizeram o esplendor do cinema americano. Os "movie brats" acharam que valia a pena reler os clássicos - e então vimos Peter Bogdanovich a reler a "screwball comedy" em "Que se Passa, Doutor?" (1972), Martin Scorsese a reler o "film noir" em "Taxi Driver" (1975) e o musical em "New York, New York" (1977), William Friedkin a reler o filme de "gangsters" em "Os Incorruptíveis contra a Droga" (1971), Alan Pakula e Roman Polanski a reler o filme de detectives em "Klute" (1971) e "Chinatown" 1974), respectivamente, e Sam Peckinpah a reler o "western" em "Duelo na Poeira" (1973).

Disco - John Travolta tornou-se uma estrela da noite para o dia depois deste filme, "Saturday Night Fever" (1978), que corporiza tudo o que o disco foi para a América - uma música feita para as pistas de dança, mas sobretudo uma subcultura que mobilizou toda a grande família americana (tem as suas origens históricas nas comunidades negras e hispânicas de Filadélfia, e aqui é o diabo no corpo de um italo-americano). Parece um filme de entretenimento, mas é uma fotografia de família da América - e do estado das coisas num ano em que os heróis de sempre já tinham sido substituídos, no quarto de Tony Manero como em todos os outros quartos daquela juventude em marcha, por posters de Al Pacino (ver "Padrinho, O") e Sylvester Stallone.

Europa - Não há um cinema europeu dos anos 70: há dezenas de cinemas europeus dos anos 70, sublinha António Rodrigues: "O tempo passou, os realizadores que fizeram a Nouvelle Vague atravessaram o Maio de 1968 e já não são mais um grupo. Cineastas como Chabrol e Truffaut aproximam-se do 'mainstream', outros como Godard radicalizam completamente o discurso. Ainda havia espaço para tudo, até para os filmes árduos e fechados que autores como Straub e Huillet estavam a fazer. E os grandes - Fellini, Visconti e Bergman - continuavam a filmar". No mapa europeu, três casos particulares: a Alemanha (ver JDF), Portugal (ver Oliveira) e a URSS.

Feminismo - Da Bolívia ao Reino Unido (Portugal incluído), as mulheres tomaram o poder durante a década de 70 e ocuparam cadeiras que até então nunca tinham sido delas. O endurecimento do movimento feminista é um dos traços mais marcantes da nova ordem, e filmes como "Alice Já Não Mora Aqui", de Martin Scorsese (1974), sobre uma mulher obrigada a recomeçar do zero, depois da morte do marido, e "Klute", de Alan Pakula (1971), completamente dominado pela presença, aliás oscarizada, de Jane Fonda, dão conta dessas mudanças em curso.

Guerra - É possível que a América não tivesse feito "A Guerra das Estrelas" (1977) se não tivesse feito antes a Guerra do Vietname. "Há um lado profundamente Disneylândia, profundamente infantil - imbecil até -, do cinema americano dos anos 70 e este ciclo não podia omiti-lo", explica o programador. De todos os "movie brats", George Lucas foi o que levou mais longe o escapismo da sociedade americana com uma saga que fez 127 milhões de dólares de bilheteira no primeiro ano e descobriu a galinha dos ovos de ouro do "merchandising" consolidando, definitivamente, o modelo do "blockbuster".

Hollywood, Nova - A primeira metade da década de 70 é o único período da história do cinema americano em que os estúdios perderam completamente o controlo. A falência do sistema de produção depois do verdadeiro filme-catástrofe que foi "Cleópatra" marcou o fim de uma era em Hollywood - e enquanto "O Tubarão" não iniciou outra, uma nova geração de cineastas (com outra idade, outra formação e sobretudo outra agenda) ocupou o vazio de poder. "Há um render da guarda - o cinema americano recomeça do zero. Embora figuras tutelares como Hitchcock e Minnelli continuem a filmar, já são cineastas de outro tempo", comenta António Rodrigues.

Irão - O Irão foi notícia durante toda a década de 70 - desde 1971, o ano em que o "New York Times" noticiou que o Xá tinha gasto mais de 100 milhões de dólares com as comemorações do 250º aniversário da monarquia iraniana, até 1979, o ano em que o Ayatollah Khomeini fez a revolução islâmica. Também foi notícia por causa da sua própria Nova Vaga, iniciada em 1969 por Dariush Mehrjui e continuada depois por Abbas Kiarostami. O programa da Cinemateca mostra um filme de cada - "O Ciclo" (1978), e "O Passageiro" (1974), respectivamente.

JDF - Na Alemanha, a travessia no deserto imposta pela catastrófica derrota nazi na II Guerra Mundial paralisou todas as indústrias criativas, incluindo o cinema, que explodiu na década de 70 com uma nova vaga tardia (o movimento "Junger Deutscher Film"). Grande parte dos cineastas que a lideraram, como Fassbinder ("Jogos Perigosos", 1972), Wenders ("Movimento em Falso", 1975), Syberberg ("Ludwig - Requiem para um Rei Virgem", 1978) e Schroeter ("O Reino de Nápoles", 1978), fazem parte da "shortlist" da Cinemateca.

Kung Fu - O ciclo "Eram os anos 70" inclui um módulo de cinema popular que percorre alguns dos mais significativos fenómenos de bilheteira - e, nalguns casos, de culto - daquele período, como "Febre de Sábado à Noite" (ver disco), "Fritz the Cat" (ver sexo), "Suspiria" (ver terror) e "The Rocky Horror Picture Show". "Enter the Dragon" (1973), o filme que resgata Bruce Lee do circuito dos filmes de artes marciais "made in Hong Kong" para fazer dele património americano e com isso continuar a renovar a galeria de heróis nacionais, faz parte desse módulo.

Location, on - Com a descida dos custos das filmagens "on location" e a introdução de equipamento mais leve, o cinema americano pôde finalmente sair dos estúdios e mudar-se para o país real. Foi uma mudança tecnológica e política: sair para a rua deu a toda uma nova geração de realizadores o poder de ver a América por trás do papel de cenário, e de ir atrás dela até ao fim do mundo. Coppola levou isso às últimas consequências com "Apocalypse Now" (1979), filmado em condições impossíveis na selva (ver Zoetrope), para poder dizer: "Isto não é um filme sobre o Vietname. Isto é o Vietname."

Movie Brats - Coppola, Bogdanovich, Scorsese, Spielberg, Lucas, Friedkin e de Palma foram os pivôs de uma geração de meninos-prodígio formada nas escolas de cinema e no contacto com influências vindas de todas as partes do mundo. O colapso do "studio system" deu-lhes as chaves da fábrica de brinquedos, e o cinema americano nunca mais foi o mesmo até 1975, o ano em que, com a invenção do "blockbuster", os estúdios vieram reclamar o que lhes pertencia.

Niro, Robert De - Não há grandes heróis no cinema americano dos anos 70 - há grandes anti-heróis, e um deles é o Travis Bickle que Robert de Niro construiu em "Taxi Driver" a partir da ressaca do Vietname, da crise moral que se seguiu e da degeneração dos grandes espaços urbanos. Para António Rodrigues, De Niro é "o actor mais emblemático dos anos 70": está praticamente com todos os realizadores decisivos (de Palma, Corman, Scorsese, Coppola, Bertolucci e Cimino) em praticamente todos os filmes decisivos, e ainda chega, como Brando, de quem é herdeiro, a filmar com Kazan no último filme do realizador, "The Last Tycoon".

Oliveira, Manoel de - O cinema português do pós-25 de Abril é uma experiência radical, contaminada pela euforia do PREC e rapidamente atropelada pela normalização democrática. "Não podíamos escamotear esse cinema muito datado mas que vale a pena rever", nota o programador a propósito, por exemplo, de "Deus, Pátria, Autoridade", de Rui Simões. O ciclo também passa por Alberto Seixas Santos, António Reis e Margarida Cordeiro, João César Monteiro e José Fonseca e Costa, mas a figura central é o Manoel de Oliveira de "O Passado e o Presente" (e, fora do ciclo, de "Amor de Perdição").

Padrinho, O - Não havia outra maneira de começar o ciclo a não ser por este filme que é toda uma declaração de princípios da "Nova Hollywood": Coppola recupera o cadáver do filme de "gangsters" e transforma-o numa história alternativa da América, paralela à narrativa oficial, que é ao mesmo tempo uma metáfora da sucessão que tinha acabado de acontecer em Hollywood (não por acaso, Al Pacino é o "Don" que sucede a Marlon Brando).

Quinzena dos realizadores - Fundada em 1969 - no "day-after" dos estragos que o Maio de 68 fez no Festival de Cannes - pelo mesmo grupo de realizadores que, um ano antes, sequestrara o festival em protesto contra o academismo da selecção oficial, a Quinzena foi fundamental para a divulgação de novos autores e de novas cinematografias (muitas vezes à revelia dos países de origem). Entre os filmes por ela anunciados ao mundo nesses anos estão três que cabem neste ciclo: "Cerimónia Solene" (1971), de Nagisa Oshima, "O Reino de Nápoles" (1978), de Werner Schroeter, e "Scenic Route" (1978), de Mark Rappaport.

Rocky Horror Picture Show, The - Exemplo acabado do filme de culto que com os anos perdeu a relevância para se transformar numa extravagância (as salas que ainda hoje o exibem regularmente, em várias cidades do mundo, são autênticos parques temáticos), este musical filmado nos estúdios Bray, como os grandes sucessos de terror da Hammer, dançou literalmente em cima do túmulo da tradição britânica do cinema série B - e, por uns instantes, reinventou-a.

Sexo - Com a revogação do Código Hays - que proibia a nudez, as drogas e a homossexualidade, entre outras "perversões" morais -, em 1968, o cinema americano foi onde nunca tinha ido na representação da sexualidade com "Fritz the Cat" (1972), de Ralph Bakshi, o primeiro filme independente de animação a fazer mais de 100 milhões de dólares, e o mítico "Garganta Funda" (1972). Mas foi fora da América que a figuração do sexo foi mais extrema, com filmes-escândalo como "O Último Tango em Paris" (1972), de Bernardo Bertolucci, "Salò ou os 120 Dias de Sodoma" (1975), de Pier Paolo Pasolini, ambos censurados em Itália, e "O Império dos Sentidos" (1976), de Nagisa Oshima.

Terror - O William Friedkin que está neste ciclo da Cinemateca não é o William Friedkin de "O Exorcista" (1973), o primeiro "blockbuster" da Warner Bros., mas também podia ser. O terror é um dos géneros em releitura na década de 70, de um lado e do outro do Atlântico, com o aparecimento de realizadores como os americanos George Romero, Wes Craven e John Carpenter e do "giallo" italiano com Lucio Fulci, Mario Bava e Dario Argento.

URSS - Em 1979, a União Soviética festejou o 60º aniversário da nacionalização da indústria cinematográfica com a criação, pelo Soviete Supremo, do Dia do Cinema Soviético. O cinema ainda era completamente controlado por um regime que o via como a continuação da política por outros meios, mas alguns filmes já anunciavam a implosão do Bloco de Leste - como "Tema" (1979), de Gleb Panfilov, profundamente censurado, que o Ocidente teve de esperar sete anos para ver na versão integral.

Vietname - O Vietname dividiu a sociedade americana ao meio logo a partir de meados da década de 60, mas demorou mais uma década a impor-se, quase como um género à parte, no cinema (consumando a invasão da América pelo Vietname que foi a contrapartida emocional da invasão física do Vietname pela América). Chegou tarde a Hollywood, no final dos anos 70, com três filmes que estão fora deste ciclo - "Apocalypse Now", "O Caçador" e ainda "Coming Home", de Hal Ashby - mas que ainda assim o assombram, tal como assombraram o cinema que se fez a seguir, nos anos 80.

Woody Allen - Sete filmes, três obras-primas incontestáveis ("Annie Hall", de 1977; "Interiors", de 1978; e "Manhattan", de 1979), e isto era Woody Allen a chegar, a ver e a vencer. As fronteiras do território que ele ocupou a partir de meados da década de 70 - e que, em boa verdade, nenhum outro realizador americano quis disputar - fixaram-se com essas obras que estabeleceram Woody Allen como o grande autor europeu do cinema americano.

X-Rating - Depois de décadas de estagnação (ver clássicos e sexo), o sistema de classificação do cinema americano alterou-se radicalmente, primeiro em 1968 e depois em 1972, baixando para os 17 anos a idade legal para assistir a um filme pornográfico ("x-rated") e passando a admitir mais frequentemente a representação da violência. Depois dessas alterações, a violência gráfica passou a fazer parte da personalidade do cinema americano, sobretudo com "Os Incorruptíveis contra a Droga" (1971), de Friedkin, "Serpico" (1973) e "Um Dia de Cão" (1975), de Sydney Lumet, "Cães de Palha" (1971), de Sam Peckinpah, e "Taxi Driver" (1975), de Scorsese.

You talkin' to me? - Robert De Niro ao espelho, com um revólver a girar no polegar e aquela frase repetitiva a tornar-se uma ameaça. Mesmo quem nunca viu "Taxi Driver" do princípio ao fim ouviu este "You talkin' to me?" que o American Film Institute pôs em décimo lugar na lista das 100 citações mais lapidares do cinema americano - e que é a mais impressionante banda sonora, apesar de Bernard Herrmann, deste "western" nova-iorquino.

Zoetrope - Fundados em 1969 por dois "movie brats" acabados de chegar a Hollywood, os estúdios American Zoetrope foram decisivos para a viabilização de alguns dos projectos mais pessoais dos dois realizadores: "Apocalypse Now" (1979) e "Do Fundo do Coração" (1982), de Francis Ford Coppola, e "THX 1138" (1971) e "American Graffiti" (1973), de George Lucas. A história da American Zoetrope é também a história de Coppola, e de como o cinema quase o matou fisicamente, com "Apocalypse Now", e financeiramente, com "Do Fundo do Coração". Continua a ser da família - Coppola passou a empresa para o nome dos filhos, Roman e Sofia. É um filme "to be continued", a grande aventura do cinema dos anos 70.

2009-05-26 12:14

"Eu sabia que queria fazer filmes. Agora sei que há outros que querem que eu faça filmes"

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João Salaviza

"Eu sabia que queria fazer filmes. Agora sei que há outros que querem que eu faça filmes"

24.05.2009 - Vasco Câmara
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João Salaviza chegou, viu e venceu. Mas está a "relativizar" a Palma de Ouro para a curta "Arena".

No topo do mundo, sim, "mas a relativizar", dizia-nos João Salaviza minutos depois de ter recebido a Palma de Ouro da curta-metragem, e de ter ouvido do cineasta John Boorman, presidente do júri das curtas, que "Arena" anuncia a "emergência de um talento cinematográfico". Deve ser difícil relativizar ouvindo isso. Mas foi o que fez desde que aterrou de pára-quedas, como descreveu, na Croisette. Relativizou o "glamour", pôs-se à procura de filmes, assistiu à "master class" dos irmãos Dardenne, de quem é fã. E, "sem falsas modéstias", considerava que "Arena" nem era coisa para a Palma de Ouro.

Chegou a Cannes, com 25 anos e duas curtas como obra (embora o anterior "Duas Pessoas" para ele não faça figura de curta inaugural), viu filmes e venceu. E ontem falou ao mundo, do Palais des Festivals. "Mas a relativizar", porque de cada vez que vê "Arena" diz que só vê o que não está no filme. Aliás, sábado, dia em que as curtas em competição tiveram as suas sessões para a imprensa, confessava que já estava no processo de despedida de "Arena". Já o tinha visto tantas vezes, já não sabia se gostava se não gostava... Cannes gostou, como antes o IndieLisboa que também lhe deu um prémio, destes 15 minutos sobre o quotidiano de um jovem em prisão domiciliária num bairro social de Lisboa. Entre o documento da realidade e o espectáculo da sensualidade dos corpos e do espaço, eis "Arena".

E eis João Salaviza: está ainda a acabar uma cadeira, no Conservatório de Lisboa, de Psicologia e Cinema. O curso estava incompleto, questões de equivalências, por causa de um protocolo que o fez, em 2006, continuar os estudos na escola de cinema de Buenos Aires, Argentina, uma "decisão de vida" que o pôs em contacto com o novo cinema argentino - gente como Pablo Trapero, Lucrecia Martel ou Lisandro Allonso - e como o entusiasmo dos argentinos pela sua cinematografia. Coisa que, já reparou, não acontece em Portugal ("Os filmes portugueses estão condenados a serem descobertas dos festivais internacionais. Provavelmente é o que me vai acontecer também", dizia-nos sábado).

"Eu sabia que queria fazer filmes. Agora sei que há outros que querem que eu faça filmes". Isso não se deve relativizar.

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