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Notícias

2009-07-14 10:34

O humor tira as calças

Brüno

O humor tira as calças

10.07.2009 - Joana Amaral Cardoso
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Hoje é preciso escândalo para chamar a atenção. Sacha Baron Cohen consegue-o com "Brüno", filme sobre o jornalista de moda, austríaco, homossexual. Mostra tudo. E deixa o espectador nu. Que limites, hoje, para o humor?

Nudez frontal masculina (e dançante). Dildos, muitos. Sexo com pigmeus. Mães e pais que admitem expor os filhos bebés a ácido ou emagrecê-los rapidamente desde que entrem numa sessão fotográfica. Um pastor evangélico com o dom de curar a homossexualidade. Adopção de uma criança negra - chamada O.J. para fazer justiça à herança afro-americana - por um jornalista de moda que quer ser célebre à força, usa maquilhagem, pinta o cabelo, é gay.

O que o choca mais nesta lista? Nada? Tudo? Perante Sacha Baron Cohen e "Brüno" o espectador não pode ficar passivo: desconforto, riso, confronto. Tudo, da nudez masculina aos pais sedentos por uma gota de fama por interposto bebé, está em "Brüno". E está lá para si.
"São temas incontornáveis porque são os mais importantes, que trazem divisão, polémica", diz o humorista Nuno Duarte, aliás Jel, ao Ípsilon. Sexo, raça, género. Um "buffet" que faz dos temas ditos sensíveis aquilo a que Jel, o Homem da Luta que provoca os homens com o seu machista gay, chama de "hiper-realismo".

Os métodos são os que tornaram Sacha Baron Cohen ou, melhor dizendo, Borat, numa celebridade. "Brüno" é mais uma viagem de um jovem em busca da fama na terra das oportunidades. E, pelo caminho, e com a fiabilidade que o género "mockumentary" permite, coloca um espelho em frente à cultura ocidental. Surpreende gente mais ou menos conhecida com as suas perguntas, com a sua sexualidade, com a sua estupidez. E desarma-os e desarma-nos. Forçando-nos a pensar nos limites do humor, do bom gosto. Pelo caminho, o "walk of fame" de Brüno torna-se "walk of shame".

"Brüno" é, verdade, "Borat" com melhor guarda-roupa. E Brüno é Borat, que é Ali G, que é Sacha Baron Cohen.... No trabalho do humorista britânico, uma máscara mediática esconde sempre outra. Descodifique-se, para se avançar: ele encara as personagens, exageros dos exagerados, "diseurs" do indizível, como ferramentas. Sobre Borat, disse, em rara entrevista à "Rolling Stone" (2006): "Pelo facto de ele ser anti-semita, ele permite às pessoas baixarem as defesas e exporem o seu próprio preconceito, seja o anti-semitismo ou a aceitação do anti-semitismo".

O palhaço da turma

Sacha Baron Cohen adora estereótipos e sabe quais são os pontos sensíveis em que espeta o dedo. Isso faz dele um comentador, corrobora Robert Thompson, director do Centro Bleier para a Cultura Popular e Televisão. "Ele é alguém cujas opiniões ouvimos". E, mais depressa do que conseguirá dizer "Borat: Aprender Cultura da América Para Fazer Benefício Glorioso à Nação do Cazaquistão", já está a girar a mira para outro alvo. Agora é a moda mas, mais do que tudo, a homofobia. Não é a homossexualidade.

Cohen "incorpora as características que quer parodiar e desencadeia" assim as reacções mais cruas, compara Filipe Homem Fonseca, um dos autores de "Contra-Informação", metade dos Cebola Mol, argumentista total. "É o agente provocador perfeito. É o humor de observação levado ao extremo. E isso é brilhante".

Depois de Borat Sagdiyev reflectir os preconceitos em relação aos estrangeiros (a "Vanity Fair" escrevia, num perfil de 2006, que Cohen vestiu Borat de fato cinzento, mal amanhado, porque "sabe que a maior parte dos americanos esperam que um estrangeiro cheire mal") e aos judeus, Brüno vem embalado como uma efígie do que o cidadão médio acha que é um homossexual-tipo.

Sempre vestido de forma extra-chocante e hiper-sexual (porque também se esperará, arrisquemos, que um homossexual seja provocador e exibicionista), viaja pelos EUA com o objectivo de se tornar célebre. E isso cruza-se com a sua capacidade de capturar o "zeitgeist" e de o regurgitar - a comédia de Cohen é tão visceral quanto isso. Usa, tal como Jel na sua comédia "Vai Tudo Abaixo" (SIC Radical) - Jel sente-se honrado com este paralelismo -, uma "estética de apanhados mas com personagens bem definidas. E nesses apanhados, há o injectar de um certo surrealismo, de uma certa provocação na realidade. Isto é muito moderno, é uma reacção aos tempos. É contemporâneo, é agora".

Agora? "É a sociedade do espectáculo, em que tudo é espectacularizado: a guerra, a política, o desporto. E a possibilidade de intervir nisso, surrealizando, é muito tentadora". Algures, ao longe, ao ver "Borat" e agora "Brüno", ouvimos o ruído da cultura ocidental a partir-se em bocadinhos. Pelo choque, pelo desconforto, mas também porque a mescla de situações reais e a ficção débil (serve apenas o propósito de coser um gag ao seguinte) se adequa ao mundo da web, da tele-realidade, das celebridades de pacote, dos "household names" instantâneos. E é suja, chocante, "in your face".

Robert Thompson, o académico mais citado dos EUA pelo interesse que desperta hoje essa ampla secção da cultura a que se chama pop, vê Sacha como o "palhaço da turma", cuja última partida foi tão forte que todos esperam a seguinte com expectativa. E, ainda por cima, "estamos numa grande sala de aulas em que há celebridades em tantas e múltiplas dimensões que é preciso baixar as calças e dizer asneiras na sala para chamar a atenção. E que pode ser humor politicamente esclarecedor, mas que também pode ser nojento só para ser nojento".

Humor sem limites

Três anos depois de "Borat", o novo registo de Cohen está carregado de mais e mais intencionalidade. A nudez masculina, o homem-com-homem, Jesus vs. Gays, estão para Sacha Baron Cohen como W. Bush e Charlton Heston estavam para Michael Moore. O valor-choque de Cohen, ora crucificado, ora elogiado como pioneiro - à saída de "Borat", George Meyer, argumentista de "Os Simpsons", dizia: "Sinto-me como alguém a quem deram a ouvir o 'Sgt. Pepper's Lonely Heart Club Band' pela primeira vez" -, é certeiro. Não só sabe escolher os temas, como é capaz de os atacar "directamente na jugular". "E  isso é que o torna relevante", diz Thompson ao telefone com o Ípsilon a partir da Universidade de Syracuse.

Rui Sinel de Cordes sabe bem do que se está a falar. Tal como Jel, já foi agredido na rua, já recebeu ameaças de morte por causa de "Preto no Branco", o seu programa de humor na SIC Radical. Fátima, estrangeiros, góticos, mulheres vítimas de violência doméstica, cancro, cadeiras de rodas, vale tudo. "Não existem limites no humor. O limite é se tem piada ou não." Filipe Homem Fonseca, Jel e os três autores de "Bruno Aleixo" (SIC Radical) concordam. Pedro Santo, João Moreira e João Pombeiro classificam o trabalho de Baron Cohen como "um Apanhado evoluído, 2000, 2.0, redux". E como não costumam navegar as áreas dos temas sensíveis, apenas acham que "a riqueza do humor não tem muito a ver com pôr ou não o dedo na ferida. Há bom e mau humor que põe o dedo na ferida e o mesmo se aplica ao que não põe o dedo na ferida. Pôr o dedo é uma opção".

Já Rui Sinel de Cordes é fervoroso adepto do humor das partes onde o sol não brilha. "Faço humor negro porque gosto. E se gosto existem mais pessoas que gostam". Ao pensar em Sacha Baron Cohen, lembra-se da comédia de Bill Hicks e George Carlin - que desafiaram limites humorísticos e culturais há duas, três décadas. "Nos EUA fazia falta um humorista que voltasse a desafiar o sistema. Sacha Baron Cohen é capaz de ser o humorista que conseguiu, nos últimos 20 anos, seguir o trabalho deles".

São tempos bons para a comédia, assegura-nos Thompson. "Especialmente agora, neste ambiente em que há tantos programas, filmes e séries televisivas que apostam nesse género de temas não-acredito-que-eles-fizeram-isto. Na Comedy Central, o 'South Park' fá-lo todas as semanas e mesmo nos generalistas, temos o 'Family Guy' e afins. No breve período desde que 'Borat' se estreou, estranhamente, a noção de comédia escandalosa e excessiva tornou-se praticamente ortodoxa". Como as comédias de Judd Apatow ("Virgem aos 40 anos", "Um Azar do Caraças") têm comprovado, professor Thompson? "Sim, são um exemplo de quão 'mainstream' isto se está a tornar."

Sacha Baron Cohen é, então, como um miúdo com fósforos num mundo regado a querosene, e onde há já fogueiras a bruxulear lá ao longe. A polémica, os tais temas fracturantes, são o seu ponto de partida. Depois, resta marcar a diferença. Nas semanas que antecederam a estreia de "Brüno", ele assombrava as redacções dos jornais e a Internet. Exímio manipulador, estava em todo o lado em digressão promocional. Aparições em figurinos surreais em todas as cidades. Entrevistas dentro da personagem ("Quero ser o austríaco mais famoso desde Hitler"; "O filme que acabei de fazer é o mais importante documentário sobre um gay branco desde 'A Paixão de Cristo'"). Filipe Homem Fonseca elogia-lhe a consistência. "Sacha Baron Cohen é o Dias Loureiro da comédia. Mantém a história até ao fim". Como Andy Kaufman (1949-1984, performer americano - Jim Carrey interpretou-o em "Homem na Lua"), em relação ao qual nunca sabíamos onde acabava a personagem e começava o homem, é tudo parte do espectáculo.

Espírito kamikaze

E, como não podia deixar de ser, com ele vem a polémica. A Gay and Lesbian Alliance Against Defamation (GLAAD) viu duas versões inacabadas do filme, a convite da Universal. E Rashad Robinson, director dos programas de média da GLAAD, foi à imprensa dizer que "as intenções de quem fez o filme estão no lugar certo - a sátira deste género pode desmascarar a homofobia - mas ao mesmo tempo ele pode aumentar o desconforto das pessoas em relação à nossa comunidade".

Eis a palavra-chave: desconforto. Tal como a Human Rights Campaign, a GLAAD acha que "Brüno" devia vir com um aviso prévio. Qualquer coisa como: "Este filme tem como objectivo expor a homofobia". Mas Aaron Hicklin, editor da revista "Out", vê mais além. "O filme faz algo enormemente importante, que é mostrar que as atitudes das pessoas podem mudar, num segundo, quando elas se apercebem que és gay. Os 'habituées' dos multiplexes normalmente não se sentariam para ver uma palestra de duas horas sobre homofobia, mas é exactamente isso que vai acontecer", disse ao "New York Times". E vai pôr Sacha na capa de Agosto, tal como a "GQ" fez este mês nos EUA.

Uma das mais-valias do fenómeno Cohen é a tal lógica das bonecas russas: há vários níveis de entendimento de uma piada, de uma caricatura, e se há espectadores que vão vê-lo "ao engano, acabam também por ser alvo da paródia. Isso é a sofisticação maior", comenta Filipe Homem Fonseca. Não esquecendo os danos colaterais - neste caso os entrevistados, os apanhados. "Às vezes tem de haver baixas entre civis", ri-se Filipe Homem Fonseca. "Isso faz parte do dispositivo. Quando fazes uma piada, mesmo quando contas uma simples anedota, há sempre uma rasteira."

O risco não é só para os incautos apanhados (que podem ser muito pouco inocentes - "Uma coisa é eu fazer uma imitação do José Sócrates, outra é apanhar o José Sócrates à minha frente com o meu megafone. Tem muito mais força, força política", sublinha Jel). Também sobra risco para os protagonistas que têm boas hipóteses de apanhar. Melhor ainda, garante Jel no seu espírito kamikaze. "Dispara a nossa adrenalina, é sem rede. Criativamente, é muito inspirador." Cohen, na tal entrevista à "Rolling Stone", apenas resume que o carinho intensivo dos seus pais lhe dá hoje "a força para sair para junto de uma multidão de pessoas que te odeiam". No fundo, o mundo é a sua ostra e os EUA a sua pérola de experiência sociológica. Ou serão um irrecuperável grão de areia? Ele testa os limites porque "o timing é tão volátil que é rico para a comédia e [ele] vai atrás de coisas que nos deixam desconfortáveis, que nos testam", postula Thompson no seu púlpito de peritagem pop.

"Brüno" chega numa altura em que parece existir mais espaço para todos os tipos de comédia. Agora, diz-nos Thompson, nos EUA a última fronteira dos tabus é a palavra "preto", mas continua a haver "regras diferentes para salas diferentes". Se for a de Jay Leno, como era a de Herman José no infame episódio censório da Rainha Santa, é melhor não abusar. O "mainstream" é demasiado condicionado pelas regras e convenções genéricas. Nos nichos, no cabo, já é outra coisa.

A chegada de mais um objecto Cohen à comédia é como a chegada de mais um filme de Michael Moore aos EUA - e cabe agora a "Brüno" provar se a partida seguinte do palhaço da turma vale a pena. Mas uma coisa ele conseguiu: é um dos ingredientes de um caldo cultural mais tolerante e ajudou a confeccioná-lo porque a cada aparição mais ultrajante/hilariante (risque o que não interessa) se clarificam os novos limites. E depois há o resto.

"Uma das razões pelas quais vemos mais desta comédia hoje é porque o ambiente cultural é muito mais tolerante. Temos canais de cabo onde estas coisas podem passar, uma indústria cinematográfica com um sistema de classificações que as permitem. Há um lugar para elas que não existia nos anos 1950", diz Robert Thompson. "Outra coisa é um ambiente cultural tão fragmentado, com milhares de músicas disponíveis no iTunes, um número infinito de coisas na Internet e 300 canais de cabo, muitos dos quais a produzir programação original. É preciso fazer uma coisa muito escandalosa para chamar a atenção".
Diríamos que "Brüno" o conseguiu.

2009-07-14 10:34

A comédia serve-se fria com os STAN

Festival de Almada

A comédia serve-se fria com os STAN

08.07.2009 - Kathleen Gomes
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"of/niet" é uma raridade porque não é todos os dias que vemos os quatro actores fundadores dos STAN juntos e em palco. Dado o estado do mundo, estávamos a precisar de uma comédia, dizem. Sábado e domingo na Culturgest

Os belgas STAN não querem que nada se intrometa entre eles e os seus espectadores, por isso nunca trabalham com encenadores. Sem deus nem chefe - nem mesmo na sombra. As peças são sempre criações colectivas, como se não fossem uma companhia de teatro mas uma cooperativa. Por telefone, perguntamos a Jolente De Keersmaeker (n. 1967), um dos quatro fundadores dos STAN - cujo nome é o acrónimo de Stop Thinking About Names - se, no fundo, no fundo, não são uma companhia de actores-encenadores. "Acho que somos uma companhia de quatro actores-executantes" (o que ela diz, em inglês, é "actors-makers"). "Não encenadores, mas executantes. E isso está presente em nós desde o conservatório: uma vontade de fazer as nossas coisas, de nos dirigirmos a nós próprios. O que significa, também, que, a dada altura, temos de distanciar-nos do que estamos a fazer."

"of/niet" ("ou/não"), o espectáculo que trazem este sábado e domingo à Culturgest, em Lisboa, integrado no Festival de Almada, reúne em palco, pela primeira vez em muito tempo, o núcleo duro dos STAN - Jolente De Keersmaeker, Damiaan De Schrijver e Frank Vercruyssen, os três fundadores da companhia em 1989, e Sara de Roo, que se juntou a eles em 1992 (Waas Gramser, o quarto fundador original, deixou-os em 1994 e é hoje membro da Comp.Marius).

A última vez que tinham feito uma peça juntos fora em 1997, com "Private Lives", de Noël Coward, e Jolente De Keersmaeker está a notar, agora mesmo, a tendência: sempre que trabalham os quatro, as escolhas recaem em comédias conjugais ásperas. "Conhecemo-nos há 25 anos, e por vezes parece que estamos numa relação matrimonial", admite Jolente sobre o quarteto de actores. Em 2006, quando os STAN estrearam "of/niet", o jornal belga "De Morgen" definiu o seu funcionamento como "uma relação aberta, em que, de tempos a tempos, os parceiros partem numa viagem individual, em vez de deixarem a casa batendo com a porta".

Na prática, isso significa que ocasionalmente seguem caminhos separados, desenvolvendo os seus projectos, a solo ou chamando outros colaboradores, e até chegam a trabalhar em produções exteriores, de outras companhias - Jolente fez "Just Before", "I said I" e "Kassandra", com a irmã, a coreógrafa Anne Teresa de Keersmaeker, e Sara de Roo trabalhou com o grupo holandês Dood Paard.

"É uma coisa que vai e vem", explica Jolente. "Às vezes sentimos: 'Agora apetece-me fazer uma coisa a solo'. Ou: 'Quero fazer um projecto sem eles'. É muito orgânico, na verdade."

E acabam sempre por voltar aos STAN. "Assim que eu sentir que já não estou a aprender nada ou que nos estamos a repetir, páro", diz. "Mas, até agora, tenho encontrado sempre novos desafios."

E é assim tão diferente quando são só os quatro? O que é que isso tem de especial? "Claro que é diferente. É fantástico porque só temos de mexer um dedo para saber: 'Oh, ele quer dizer isto'. Estamos juntos há mais de 20 anos, conhecemo-nos tão, tão bem que isso tem vantagens e também desvantagens. Mas, ao fim e ao cabo, quando olhamos para o resultado, sabe tão bem trabalhar num ambiente com estas três outras pessoas em quem posso confiar, com quem me sinto segura para correr riscos, para ser frágil, para cometer falhas. Tem sido um longo, longo percurso. E por vezes foi muito difícil atingir o ponto em que estamos agora. Houve altos e baixos. Mas sentimo-nos tão bem a fazer esta peça, ela lembra-nos o gozo que é estarmos os quatro juntos em palco."

Humor e uma guerra lá fora

"of/niet" é uma montagem de duas peças, "Party Time", escrita em 1991, por Harold Pinter, e "Relatively Speaking", do também britânico Alan Ayckbourn (escrita em 1965, e representada em Londres em 1967, foi a peça que trouxe notoriedade ao dramaturgo, que ainda não tinha 30 anos). O texto de Pinter é uma alegoria ácida sobre um mundo de conforto e privilégio, isolado e indiferente à realidade do exterior - o ambiente é o de uma "cocktail party" num clube selecto, e a peça é composta pelas conversas que os membros vão tendo entre si - sobre a piscina do clube, ilhas paradisíacas e outras frivolidades - enquanto lá fora decorre uma guerra (a cidade está vazia, há soldados nas ruas, estradas bloqueadas). Pinter escreveu "Party Time" no ano em que eclodiu a primeira Guerra do Golfo. É uma sátira com uma violência e um sadismo latentes.

"Relatively Speaking", de Ayckbourn, é uma sofisticada comédia de enganos envolvendo dois casais - um jovem visita o que julga ser a casa dos pais da namorada, quando, na verdade, trata-se da residência do antigo amante dela. Um hilariante enredo de mentiras e equívocos.

A peça de Ayckbourn - dramaturgo que tem interessado o cinema de Alain Resnais, desde "Fumar"/ "Não Fumar" - constitui 85 por cento de "of/niet", resume Jolente, e a de Pinter os restantes 15 por cento. Esta última abre e fecha a versão dos STAN, e vai pontuando o espectáculo como interlúdios.

Para lá dos temas comuns que podemos apontar às peças de Pinter e Ayckbourn - dois microcosmos de falsas aparências sob o pano de fundo de uma "Britishness" emproada, dois mundos de faz-de-conta, cada um à sua maneira -, o que é que levou os STAN a juntá-las? "Sentimos que estava na altura de fazer uma comédia outra vez. Às vezes escolhemos peças que são, digamos, um pouco mais pesadas, mas isso tem muito a ver com o espírito e o momento em que se está. Sei lá, se há uma guerra em curso no mundo, qual é a nossa resposta a ela? Se calhar, temos de fazer qualquer coisa ligeira... A dada altura, foi uma coisa do género: 'Vamos fazer uma comédia, vamos rir'."

O que explica a escolha da peça de Ayckbourn, "o exemplo perfeito da comédia de enganos, sobre dois casais que estão no lugar errado à hora errada", resume Jolente, em que "a única coisa que podemos fazer é rir com os erros tão típicos de todos os seres humanos - enganar, cometer erros, mentir e não admitir a verdade, ter medo". Mas não explica Pinter. Os STAN são conhecidos por as suas escolhas de textos e de espectáculos terem, implícita ou explicitamente, uma carga política. "Se me perguntar se [a escolha de Ayckbourn] tem algum significado político, diria que não. Claro que é um manifesto ["statement", em inglês] dizer: não se esqueçam das pessoas nestes tempos de cinismo. Mas faltava mais qualquer coisa. Tínhamos de trazer [a peça] de volta para o mundo. E o Pinter faz-nos assentar os pés na terra outra vez. 'Party Time' também é uma comédia mas tem uma nuance perversa, tem uma camada política subterrânea, é mais cínica e irónica. Isso é uma das coisas que gostamos muito no Pinter: as peças têm sempre uma dupla camada. Ao misturar 'Party Time' na peça de Ayckbourn estamos como que a inserir pequenas agulhas. Para nós, isso era um bom equilíbrio. Se fosse só o Ayckbourn, teria sido demasiado fácil. O Pinter também tem imenso humor, mas ele lembra-nos que há um mundo lá fora - que há uma guerra em curso. O que nos pareceu uma bela metáfora do que estamos a fazer quando representamos a peça - somos actores e estamos a representar e a divertirmo-nos, mas aqui ao lado o mundo continua."

A actriz conclui: "Sem ser moralista, ele faz-nos pensar que estamos a viver num mundo extremamente privilegiado, rico e luxuoso. As pessoas que vão ao teatro não são as pessoas que não conseguem ganhar a vida... Claro que houve a crise financeira mas isso não é nada comparado com o que as pessoas em África, na América do Sul ou na Índia têm de fazer para ganhar a vida."

Não é a primeira vez que os STAN afiam as facas na mira da nossa burguesia de costumes (não é por acaso que um dos autores mais representados pela companhia é o austríaco Thomas Bernhard). Perguntamos a Jolente se a velha expressão "épater le bourgeois" (chocar a classe média) ainda faz sentido, para eles. "A primeira coisa que tem de perguntar é: quem é burguês? Eu também sou burguesa, e estou a criticar os burgueses. Também estamos a falar de nós. Na sexta-feira vou apanhar um avião para actuar num teatro em Lisboa - o que é muito confortável, obviamente."

A comédia serve-se fria, e isso também se vê no dispositivo cénico. O palco é descarnado em "of/niet", o "décor" quase inexistente, os figurinos sóbrios e básicos. "Representamos com quatro cadeiras e quatro sacos de plástico, e tudo o que precisamos está dentro do saco de plástico. Não há cenário", nota. Porquê? "De outro modo, isso iria distrair da força e da espirituosidade do texto. Seria demasiada explicação, a nosso ver. Queremos dar ao público a oportunidade de construírem a sua própria história. Não é preciso construir um cenário realista, com cortinas, isto e aquilo. Quanto mais despido for, mais se consegue ir à essência da coisa."

"Of/niet" é representado em neerlandês, com legendas em português.

2009-07-14 10:33

Manoel de Oliveira estreia filme inédito no Curtas em Vila do Conde

"Romance de Vila do Conde", filmado em 1965, só foi terminado em 2008
Nelson Garrido

Manoel de Oliveira estreia filme inédito no Curtas em Vila do Conde

10.07.2009 - Lusa
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"Romance de Vila do Conde", filmado em 1965, só foi terminado em 2008

Manoel de Oliveira estreia amanhã, no 17º Curtas em Vila do Conde, o seu filme "Romance de Vila do Conde". Filmado em 1965, foi apenas terminado em 2008 e é um dos pontos altos da fase final do festival.

Este é um dos dois filmes que Manoel de Oliveira fez, em 1965, com José Régio (o outro foi "O Vitral e a Santa Morta"), mas que ficaram por terminar. O filme permaneceu mudo até 2001, ano em que o realizador pediu a Luís Miguel Cintra que gravasse o poema publicado no livro "O Fado", tendo finalmente procedido à montagem final no ano passado.

A cerimónia de entrega dos prémios das competições do festival, onde serão conhecidos os vencedores desta 17ª edição do Curtas Vila do Conde, decorrerá a seguir à exibição do filme de Manoel de Oliveira. Esta sessão fica completa com a exibição do filme "Wallace and Gromit: A Matter of Loaf and Death", de Nick Park.

Os filmes premiados serão apresentados amanhã, em duas sessões, às 22h00 e às 23h30, repetindo domingo, com a exibição, em quatro sessões, de todos os filmes premiados nesta edição do festival.

Outro dos pontos altos do evento acontece sábado, pela meia-noite, com o filme concerto "13 Most Beautiful... Songs for Andy Warhol's Screen Tests", apresentado pela dupla norte-americana Dean & Britta. Esta será a primeira vez que o duo composto por Dean Wareham (que integrou a mítica banda indie norte-americana Galaxie 500) e Britta Phillips (ex-Luna) se apresenta em Portugal.

A fechar o programa de sábado está a festa, a partir da 01h00, no Bar da Praça, com Albino (Concorrência) e Lil'John, dos Buraka Som Sistema.

A última sessão do ciclo temático "Back To the Future" que decorre domingo, às 18h30, inclui mais algumas raridades, entre as quais "Libra", onde a primeira colónia espacial é construída para fornecer energia solar ao nosso planeta, ou o curioso "Year 1999 A.D.", um filme dos anos 60 do século passado que prevê como iria uma família de classe média viver... em 1999.

2009-07-14 10:29

Brandford Marsalis continua a tentar ser uma pessoa melhor

Concerto

Brandford Marsalis continua a tentar ser uma pessoa melhor

10.07.2009 - Cristina Fernandes
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O pai dizia-lhe que a música é aquilo que se faz. Ou seja, é como ser uma pessoa melhor: é muito difícil mas continuamos a tentar até ao fim. Ele é um incansável explorador. Um dos nomes ilustres do jazz, tem dificuldade em resistir a outros apelos. Tanto podemos encontrá-lo num álbum de Sting como a tocar Debussy e Stravinsky com uma orquestra sinfónica. Nos dias 16 e 17 o saxofonista apresenta o programa "Marsalis Brasilianos" com a Orquestra Metropolitana de Lisboa

Brandford Marsalis nunca se contentou com um caminho musical único. O seu lema é manter "os ouvidos alerta" e uma disponibilidade permanente para explorar novos estilos. Membro de uma ilustre família de músicos de jazz (é filho do pianista Ellis Marsalis e irmão do trompetista Wynton Marsalis), este saxofonista americano de espírito inquieto cresceu numa casa fervilhante de sons, ao mesmo tempo que absorvia as várias tradições musicais que se cruzavam nas ruas de Nova Orleães. Tocou com os Art Blakey's Jazz Messengers e no quinteto do seu irmão Wynton antes de fundar o seu quarteto (cuja última gravação, "Metamorphosen", foi objecto de recensão no último Ípsilon) mas sempre fez incursões noutros domínios. Colaborou com Sting em álbums como "Dream of the Blue Turtles" ou "The Soul Cages" e nos anos 90 criou o projecto Buckshot LeFonque, que combinava influências do jazz, Rhythm and Blues, hip-hop e pop rock. Com o início do novo milénio resolveu centrar-se também no repertório clássico, actuando como solista com várias orquestras americanas e europeias e gravando obras de Debussy, Stravinsky, Milhaud, Copland ou Vaughan Williams. Recentemente realizou uma importante digressão nos EUA com a Philarmonia Brasileira e o projecto "Marsalis Brasilianos", que será agora retomado em Portugal com a Orquestra Metropolitana de Lisboa, sob a direcção de Cesário Costa. Nos dias 16 e 17, respectivamente no Centro Cultural de Belém, em Lisboa, e no Teatro de Portimão, Marsalis toca obras de Villa-Lobos (Fantasia para Saxofone e Bachianas Brasileiras nºs 5 e 9) e Darius Milhaud ("La Creation du Monde" e "Scaramouche") no âmbito de um programa de forte influência brasileira.

A sua experiência no campo do jazz influencia a foma como interpreta o repertório clássico?

Experiências musicais diferentes implicam abordagens diferentes na interpretação. No repertório clássico não faz sentido tocar como um instrumentista de jazz. A música tem mesmo de soar clássica e esse tem sido para mim um dos grandes desafios.

Neste caso são também compositores especiais, já que foram influenciados pela música de tradição popular...

Como o Brasil fica no Novo Mundo não há tanto o estigma de ter de apresentar algo que seja puramente europeu. Villa-Lobos conheceu a música de Milhaud, Ravel e Debussy em Paris mas depois de regressar ao Brasil continuou a conviver com os músicos do samba, do tango, com a música popular brasileira. Foi a familiaridade com diversos estilos e uma compreensão profunda das suas linguagens - ele tanto dominava o choro como a harmonia clássica - que tornou a sua obra tão rica. Na Europa, muitos compositores dedicavam-se também a estudar outras músicas, o que se reflecte nas suas obras, mas essa atitude era menos comum entre os intérpretes da tradição clássica.

Tem trabalhado com músicos de jazz, da clássica, do pop rock, da world music... É difícil interagir com pessoas com experiências tão distintas?

Os músicos podem ser muito diferentes mas o objectivo é sempre o mesmo: tocar as pessoas emocionalmente através do som. É mais fácil na pop porque há uma componente visual muito forte: a dança, as luzes, muitas coisas que impressionam visualmente. Em muitas sociedades, como é o caso da norte-americana, as pessoas ainda vão aos concertos para ver e não não tanto para ouvir. É por isso que quando se fala do Michael Jackson os temas são as luvas, as jaquetas, o seu comportamento ou as coisas estranhas da vida dele, mas há muito pouca discussão sobre a voz. E ele tinha uma voz fantástica, sobretudo quando era mais novo, só que ninguém conversa sobre isso. Quanto se toca um estilo de música em que estamos sentados numa cadeira, como acontece na clássica, dependemos apenas do som para envolver a audiência.

Na música clássica o som ainda prevalece sobre a imagem...

Há pessoas que dizem que gostam de música, mas não é realmente da música que gostam mas sim do espectáculo. Há cantores que cantam muito mal e o público nem dá por isso. Mas num concerto clássico se alguém canta mal toda a gente nota. E também é mais fácil tocar música pop. Quando tinha 12 anos tocava quase todas canções do Elton John no piano e fazia-o bastante bem, mas não conseguiria tocar um concerto de Rachmaninov. Continuo a gostar de Elton John - a sua música faz-me sentir bem, gosto da sonoridade, da linha vocal, da parte do piano - mas ao mesmo tempo também acho espantoso um concerto clássico de grande virtuosismo, sendo que nesse caso tenho a consciência de que o instrumentista precisou de estudar muitas horas por dia.

Mas o jazz pode ser também muito exigente tecnicamente...

O repertório clássico é o mais exigente tecnicamente. No jazz os músicos podem tocar muitas notas (na minha opinião tocam demasiadas!), mas podem escolher quais as notas que querem tocar. Na clássica o compositor escreve e temos de ser fiéis à partitura. Não podemos dizer: vou mudar estas notas ou estes acordes para adaptar melhor a peça ao meu estilo. Quando comecei a abordar o repertório clássico mais a sério, há sete ou oito anos, precisei de ter aulas de saxofone. A minha técnica funcionava para o jazz e para a pop mas não servia para a música clássica.

Não tinha tido antes uma preparação musical formal nessa área?

Não tive uma formação clássica tradicional, mas o meu irmão Wynton teve. Eu simplesmente ouvia os discos que ele trazia para casa. O Wynton estudava o tempo todo, mas eu não praticava nada! Aos 15 anos dedicava-me a tocar numa banda de "covers". Nessa altura ainda não se usavam DJs, contratavam bandas que tocavam as canções da moda. Aprendi por intuição e por imitação, sempre coloquei os meus ouvidos alerta. Fico espantado com o grande número de músicos que não conseguem ouvir verdadeiramente a música que tocam. Este é um problema que se verifica na música sinfónica mas também no jazz. Acontece porque hoje os jovens começam logo a ler música e não têm a experiência de tocar de ouvido. Antes as pessoas não iam para a escola aos quatro ou cinco anos, aprendiam a tocar com o que ouviam nas ruas, decoravam canções infantis. Obrigo sempre os meus alunos a trabalhar uma série de canções de ouvido, que não estejam nos livros.

É pouco comum um músico percorrer tantos universos, geralmente tende-se para a especialização...

É uma escolha pessoal. Um dia alguém perguntou a Sibelius: "quando está com os seus colegas sobre o que é que falam?" E ele respondeu: "não falo com músicos, falo com banqueiros. Os banqueiros gostam de falar sobre música, os músicos só falam sobre dinheiro". Há pessoas que só são boas numa coisa, mas outras pensam: em que área é que posso fazer mais dinheiro? O meu pai sempre nos disse: "vocês são espertos, se querem ganhar dinheiro não toquem música". Por isso num Verão trabalhei numa quinta e no Verão seguinte num hospital, mas no final decidi que o que queria mesmo era ser um bom instrumentista. Nunca me preocupei em saber quanto dinheiro isso podia render. Temos tendência para a catalogação: sou um músico clássico, sou um músico de jazz, etc... Não concordo. Sei que nunca tocarei saxofone clássico tão bem como os fazem profissão da música clássica mas faço o melhor que posso e sei. O importante é que as coisas que fiz nesse campo me tornaram melhor como músico.

Ficar apenas vinculado a um género seria limitativo?

Sempre estive aberto a experimentar novos estilos e a ouvir muito. E nunca tive receio de ter lições nem de progredir. Digo sempre aos meus alunos que somos eternos estudantes. Noutras profissões recebemos um diploma e podemos dizer: sou médico, sou advogado, sou contabilista, etc. A música é diferente. O meu pai costumava dizer: a música não é aquilo que tu és, mas aquilo que fazes. E se é aquilo que fazes, então nunca serás tão bom como poderias ser. Ou seja, é como ser uma pessoa melhor. É muito difícil mas continuamos a tentar até ao fim da vida.

Também é compositor. Como encara essa vertente da sua actividade?

Não acredito na obsessão pela inovação. Quando ouvimos muita música clássica (Mozart, Beethoven, Mahler...), por um lado todos os compositores soam de maneira semelhante, mas por outro todos são muito diferentes. Mas o mais incrível é que todos estes mundos sonoros foram construídos com as mesmas 12 notas. A mesmas 12 notas que Michael Jackson ou Prince também usaram! A ideia de que temos sempre de inventar algo é absurda. Não se é original apenas porque se quer. O que temos a fazer é aprender o máximo possível, dedicarmo-nos a ser os melhores músicos possíveis. O resto é uma consequência.

2009-07-14 10:29

Não podemos adiar o coração

Muda Que Muda

Não podemos adiar o coração

10.07.2009 - João Bonifácio
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"Muda Que Muda" é o segundo disco de João Coração em seis meses. Vê-o transformado em Gainsbourg de Sesimbra, aristocrata arruinado dançando um último bolero. É um disco de Verão, mas cheio de angústia, como o seu enigmático criador.

Meio ano depois de "Nº1: Sessão de Cezimbra", eis "Muda Que Muda", o excelente segundo disco de João Coração. O mais idiossincrático baladeiro da nação transformou-se no rei das canções para beira de piscina de "resort" de férias e a mudança é de monta: onde antes havia canções de Inverno, melancólicas e cheias de angústia e charme, agora há canções de Verão, melancólicas e cheias de alegria angustiada. Na altura chamámos-lhe "vagabundo romântico em pantufas"; agora ele parece um sedutor existencialista em chinelas. O Gainsbourg de Sesimbra. O Hank Williams dos letrados. O futuro vencedor do Festival da Canção.
Mas mesmo entre os amigos de Coração há quem o defenda ferreamente e quem não o aprecie.

"Não chego a perceber se alguns amigos não gostam das minhas canções ou implicam comigo. Como são pouco claros não faço perguntas", diz, antes de acrescentar que tudo pode ter mudado, porque "agora até o Manel [Fúria, vocalista e líder d'Os Golpes] gosta deste disco".
A ambiguidade da recepção a Coração começou com uma canção que está em "Muda Que Muda", mas que tinha saltado cá para fora de forma oficiosa aquando do primeiro disco: "Sofia".

A 21 de Novembro de 2008, dia em que o Ípsilon fez capa com Coração, Tiago Guillul, Manuel Fúria (d'Os Golpes) e Samuel Úria - uma capa sobre a chegada de novos cantautores em português - João gravou um vídeo de uma canção que acabara de compor. Tinha acabado de lançar "Nº1: Sessão de Cezimbra" e talvez fosse sensato lançar um vídeo bem preparado de uma canção terminada e disponível.

Mas não. No vídeo Coração canta "Sofia" rodeado de raparigas com ar blasé, que ora lêem ora olham o infinito, indiferentes à performance do bardo, que canta de forma desafinada uma canção que nitidamente ainda precisa de trabalho. Ao contrário do que acontece com os vídeos oficiais, o som não está pré-gravado (ele nem tinha gravado a canção), é som directo.

O vídeo foi a desculpa que os detractores precisavam para o qualificar de fraude. Quando lhe perguntamos agora se aquele vídeo era uma piada, mantém-se semi-críptico: "Alguém pôs um comentário no vídeo da 'Sofia': 'Mas isto é a sério ou é a brincar?' E o Pedro Fernandes Duarte, que fez o vídeo, respondeu: 'Isso terás de deixar o coração responder'".
Isto é como o humor de João Coração funciona: nunca há um laçarote no final que nos diga "Hey, isto era uma piada" que nos permita ficar descansados e seguir com a nossa vida. Como todo o bom tipo que não joga de acordo com as regras convencionais, atira: "Aquilo era o vídeo para a última canção que tinha feito. Só isso".

É nítido que não lhe interessa proteger a sua imagem, ou deixar sair apenas o que está perfeito. Ele próprio diz que mesmo agora, com "Sofia" editada oficialmente em "Muda Que Muda", a canção "ainda não atingiu, em nenhuma das duas versões, o que poderia atingir". E no entanto não se importa que haja aquele vídeo. "Só o tempo falará sobre o valor da coisa e nunca haverá uma versão final de uma música".
Tem uma visão curiosa do negócio da música, que oscila entre o racional e o ingénuo: "Quando dou uma canção às pessoas é só a versão que gravei naquele dia. Não quer dizer que não tenha feito melhor sozinho em casa, ou que não vá fazer melhor vinte anos depois ao vivo. É um processo que nunca acaba. Não vou perguntar-me muitas vezes se já é a versão final ou não. Senão nunca acabava uma canção".

Não é só no vídeo de "Sofia" que o estranho humor de Coração deixa as pessoas sem saber o que pensar. A capa de "Muda Que Muda" também tem deixado muitos sem saber o que pensar: Coração surge de camisa aberta, olhar de carneiro mal morto, e aquilo está próximo das capas de Michael Carreira ou de Julio Iglesias.

"As pessoas ficam sem jeito com aquela capa. Não sabem o que hão-de fazer. São pessoas que não estão confortáveis consigo próprias e sentem-se ameaçadas com quem está. A liberdade pode parecer uma ameaça mas não é. É só um tipo a fazer uma coisa que lhe apeteceu fazer".
Isto é o lado filosófico de Coração, rapaz de quase trinta anos que faz muitas perguntas a si mesmo e é de uma honestidade desarmante. "Eu também nunca sei quando é que estou a gozar e quando é que não estou". Ele simplesmente experimenta.

Aristocrata falido

Encontrámo-nos em Sesimbra, onde a esposa de Coração tem um pequeno e simpático apartamento, para conversar acerca de "Muda Que Muda". A expansiva barba que ostentava da primeira vez que o víramos, há meses, desapareceu para dar lugar ao cinzento de pelos de três dias. Vem de calções, t-shirt e sandálias e mantém aquele ar de quem não sabe muito bem porque está ali mas quer ver até onde a coisa vai parar.
Estava ali em retiro: "Para saber o que vou fazer da minha vida". A dado momento da tarde, quando lhe perguntamos se vai continuar a fazer discos a cada semestre, atira: "Sei lá se vou continuar a fazer música". Depois continua: "Sinto que ainda tenho canções para dar. Mas não penso sobre isso. Deixo que a música decida. A obra tem de nascer de forma visceral".

Por mais contraditório que isso pareça num tipo doce e educado, essa visceralidade cabe-lhe bem. É o tipo de homem que está sossegado e discreto a noite toda antes de cometer um acto inesperado só para ver no que dá. É um solitário: "Não tenho grupos de amigos. Nunca tive".
Percebemos melhor as suas angústias acerca do seu futuro musical quando nos confessa que ficou ofendido por termos descrito as suas canções como produto do tédio burguês.
"Que é que sabes sobre a minha vida?", atira, com o tom doce mesclado por certa amargura. "Não sou burguês. Sou um aristocrata falido". É verdade: na família corre sangue azul, e embora não faça gala em falar disso, as obrigações inerentes interrompem-lhe o sono: herdou uma casa que está na família desde o século XVI e não tem dinheiro para a arranjar porque gasta-o todo em instrumentos e microfones.

Consegue ser desconcertante sem esforço. É capaz de atirar uma frase como: "Só compro o jornal quando me dizem que escreveram sobre mim" com uma candura que retira qualquer vestígio de narcisismo. Por vezes parece um homem que não sente à vontade "neste mundo com excesso de iconografia". Durante uns minutos versa acerca do actual excesso de dados, de falta de referências, de ausência de Deus. "Temos dados sem informação, que não se transformam em conhecimento. Temos falta de sabedoria".

Não é - de todo - encaixável numa "figura-tipo". Num segundo diz: "Tenho andado alheado das novidades. Dou por mim com prateleiras de discos parecidas às dos meus pais e dos meus tios" e podíamos tomar esta frase como provocação blasé. Mas depois de uma longa pausa (faz pausas longas) conclui de forma impiedosa: "Anda tudo muito preocupado com a estética e pouco com o que interessa, que é a vida".
E está a falar muito a sério.

Tudo instinto

"O que une estas canções é serem canções de adeus", confessa a dada altura, munido de guitarra na varanda do apartamento com vista para a praia de Sesimbra.
A tarde toda foi explicando que o novo disco é acerca de aceitar mudanças, seguir em frente, etc. Nunca concretiza a ideia com exemplos da vida pessoal, porque nitidamente preza a sua intimidade e um certo pudor.
Surge - depois de ganhar confiança - como um homem à procura de chão, de algo fiável, mas cuja natureza inquieta não o deixa estar sossegado no mesmo sítio. As palavras que mais repete são "liberdade" e "verdade". Proclama várias vezes o seu empenho em "viver em verdade", em não mentir acerca do que deseja. Diz querer constantemente perceber o que quer de cada situação e levar o que descobre a fundo, independentemente das consequências. "O tentar viver com a verdade obriga-te a um grande esforço se não queres tornar-te um misantropo".

A frase implica teimosia e obsessão e Tiago Guillul confirma. Guillul, músico, compositor e um dos fundadores da editora Flor Caveira, conta que aquando da gravação do vídeo de "Sofia" Coração decidiu que devia cantar rodeado de raparigas. "Ele foi pedir a todas as raparigas que estavam por ali para se juntarem a ele. É assim que ele funciona".
A cena repetiu-se recentemente: quando marcámos a entrevista dissemos-lhe que devia ter fotos de promoção rodeado de raparigas, num gozo ao vídeo de "Sofia". Uns dias mais tarde encontrámo-lo num showcase d'Os Golpes na FNAC do Chiado. Tinha umas maracas e quando o concerto acabou andava a convencer as raparigas a tirarem uma foto com ele. (E conseguiu.)

Os exemplos tornam nítido que o lado solitário de Coração anda de mão dada com um lado impulsivo. "Eu não sou tanto de andar em matilha. É difícil fazer uma viagem própria quando se está sempre em grupo."
Conta que todos os músicos que estão com ele estão-no graças à sua lata. Aborda-os sem os conhecer de lado algum e convence-os a gravar. Não lhes dá pistas: reúne-os, mostra as canções e eles que se desenrasquem. "Não dou sugestões porque quero que os músicos se entreguem e descubram algo de original no pouco tempo que temos. Aproveito a energia da espontaneidade. Eles fazem o que têm de fazer sem se poluírem com ideias".

Quando inquirimos Guillul, que é fã, acerca dos méritos musicais de Coração ele atira prontamente: "Aquilo é tudo instinto".
Sentados no sofá do apartamento da Ericeira acreditamos. Coração mostra os seus instrumentos, exibindo orgulhosamente um Omnichord, instrumento de brincadeira dos anos 70. Tem um botão por cada acorde simples, outro por cada respectivo acorde menor, e outro ainda por cada acorde de sétima. Do lado direito tem uma espécie de autocolante com uma escala que se toca deslizando o dedo. (Funciona aproximadamente como um acordeão).

A dada altura demonstra como o Omnichord funciona e tudo aquilo sai-lhe de um rojo: música celestial, divina, uma ponte entre Bach e música de elevador, um primo bastardo dos Air, o dedo médio da mão direita deslizando e saltitando a velocidade espantosa por aquela escala, os dedos da esquerda fazendo bruscas mudanças, criando melodias lindíssimas. Pedimos-lhe para repetir, mas não tem a mínima noção do que acabou de tocar.

Mas é essa impetuosidade que o impele, foi ela que o levou a fazer um segundo disco tão depressa. "Eu tinha-lhe dito que este ano não o podíamos editar, porque só tínhamos dinheiro para o disco do Samuel Úria e do B Fachada", conta Guillul. Mas Coração não desarmou "e gravou tudo às escondidas". Quando Guillul ouviu o produto final cedeu.
Perguntamos por fim a Coração o que ele próprio acha deste disco e ele mostra-se orgulhoso. Com graça diz que "a festividade na música portuguesa é uma coisa muito contida" e que por isso se orgulha de na canção-título haver "uma espontaneidade que é muito curiosa". Gostaria que "Passo a passo" servisse de banda-sonora para a reprodução de portugueses. "Seria bom, num país que está a envelhecer, que eu pudesse contribuir para o rejuvenescimento da população".
Quando lhe perguntamos se ele acha que finalmente vai deixar de haver dúvidas a seu respeito, ele atira com ferocidade: "Estou-me a cagar para o que as pessoas dizem de mim. Estou mesmo".

2009-07-14 10:29

E se Jimi Hendrix tivesse sido assassinado?

Rock Roadie

E se Jimi Hendrix tivesse sido assassinado?

10.07.2009 - Mário Lopes
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No livro de memórias "Rock Roadie", James "Tappy" Wright, antigo "road manager" de Hendrix, diz que Jimi foi assassinado

Michael Jackson morreu há duas semanas e já há quem garanta que o Rei da Pop encenou a sua morte e que andará pela Terra anónimo, afastado da pressão mediática e livre das monstruosas dívidas que acumulou. Nada de surpreendente. Afinal, para muitos, Elvis continua vivo desde que morreu em 1977. Já quanto a Jimi Hendrix, as dúvidas relativas às circunstâncias da sua morte, tendo existido, nunca atingiram dimensão de mito urbano. "Rock Roadie", livro de memórias de James "Tappy" Wright, antigo "road manager" de Hendrix, pode alterar tudo isso: Jimi foi assassinado, diz.

A premissa é simples, mas digna de guião de filme de Máfia. O britânico "The Times", o primeiro jornal a entrevistar Wright acerca de revelação, divulgada há cerca de um mês, apresenta-a pormenorizadamente. Dia 18 de Setembro de 1970, o guitarrista de "Purple Haze" não terá sufocado no seu próprio vómito, depois de uma noite regada a álcool e da ingestão de vários comprimidos. Wright alega que um grupo invadiu o quarto de hotel onde Jimi estava hospedado, forçando-o a ingerir o vinho e os comprimidos que o vitimaram. O "road manager" sabe-o porque isso mesmo lhe terá confessado em 1973 Mike Jeffery, presumível autor moral do crime, "manager" de Hendrix e personagem de percurso nebuloso: serviu os serviços secretos britânicos no canal do Suez, dava-se com a máfia americana e tinha conhecimentos na CIA e no FBI. Jeffery já não poderá confirmar a história - morreu num acidente de avião, um mês depois da alegada confissão.

O motivo para o assassinato, investiga o "Times", seriam as dívidas monstruosas que Jeffery vinha acumulando. Dividas que se veria impossibilitado de saldar se Hendrix, descontente com as decisões do "manager" (em 1967 meteu-o numa digressão desastrosa com os Monkees; em 1968, tentou impedi-lo de lançar o álbum duplo "Electric Ladyland"; em 1969 pretendia obrigá-lo a contratar músicos brancos para a sua banda), levasse em frente a decisão de o despedir. Um seguro de vida de Jimi Hendrix, no valor de dois milhões de dólares e revertendo em nome de Mike Jeffery, que este celebrara algum tempo antes, como era norma no meio, poderia ser a sua salvação. Como escreve o "Times", Jimi vivo não valeria nada ao seu quase ex-manager. Morto, é fazer as contas.
James Wright conta que, à altura, o medo que Jeffery lhe incutia o impediu de revelar a confissão. Acrescenta que se manteve calado após a sua morte por receio de ser directamente implicado no caso.

Entre os entrevistados no artigo do "Times", figuras próximas do guitarrista, as reacções dividem-se. Alguns reconhecem que pode existir um fundo de verdade nas alegações de Wright. Outros, mesmo recordando o fundo sinistro de Jeffery, negam peremptoriamente que possa ter ordenado o crime. Joe Boyd, o histórico produtor que, em 1973, realizou o primeiro documentário dedicado a Jimi Hendrix, é um deles. Isto até lhe serem revelados os relatórios médicos e as memórias do polícia e dos enfermeiros que acorreram ao quarto de hotel londrino naquele 17 de Setembro de 1970 - a história é contada em "The Final Days of Jimi Hendrix", de Tony Brown, publicado em 1997.

Segundo eles, a porta do quarto estaria escancarada, sugerindo uma saída apressada, e Hendrix completamente vestido, o que contraria a tese oficial, segundo a qual teria ingerido uma quantidade exagerada de comprimidos para conseguir dormir durante várias horas. Mais: o autor da autópsia descobriu-lhe uma grande quantidade de álcool nos pulmões, mas pouco tinha sido, à altura da morte, absorvida pela corrente sanguínea - o que vai ao encontro da tese de assassinato.

O agora sexagenário James Wright não dedica grande espaço a toda esta história no seu novo livro, centrado na sagrada trindade "sexo, drogas & rock'n'roll". Dela, mais sexo, menos droga, sabemos praticamente tudo. Já uma teoria da conspiração, para mais bem montada, com pormenores aparentemente credíveis, é sempre um festim para os cultores da mitologia pop. Já fazia falta uma assim para Hendrix. Ei-la.

2009-07-14 10:28

João Nicolau venceu o prémio de melhor curta portuguesa em Vila do Conde

Palmarés

João Nicolau venceu o prémio de melhor curta portuguesa em Vila do Conde

12.07.2009
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E filme franco-húngaro recebe o Grande Prémio desta 17ª edição.

A melhor curta-metragem portuguesa da 17.ª edição do Festival Curtas Vila do Conde foi "Canção de Amor e Saúde", de João Nicolau (o autor de "Rapace"), uma história rodada no Porto entre o Shopping Brasília e o Museu de Serralves. No valor de 7000 euros, o prémio foi atribuído pelo júri principal do festival, que hoje termina, composto por valter hugo mãe, Marco Martins, Carlos Reviriego, Maike Mia Hohne e Olivier Père.

"A História da Aviação", uma co-produção franco-húngara realizada por Balint Kenyeres, uma história de morte situada na Normandia no início do século XX, venceu, por seu lado, o Grande Prémio (2000 euros) da 17.ª edição. Os prémios da competição internacional foram distribuídos por "Madam Butterfly", de Tsai Ming Liang (Taiwan), na categoria Ficção; "Entrevista com la Terra", do mexicano Nicolás Pereda, no Documentário; e "Dust Kid", do sul-coreano Jung Yumi, na Animação. O prémio de melhor curta-metragem europeia foi para "Renovare", de Paul Negoescu (Alemanha/Roménia), e o do Público para a animação francesa "Logorama", de François Alaux, Hervé de Crécy e Ludovic Houplain.

Na edição deste ano, a primeira no restaurado Cine-Teatro Neiva, o Curtas Vila do Conde contou cerca de 15 mil espectadores, um aumento de 50 por cento face a 2008. 

2009-07-14 10:27

Vikram Seth: mais um bom partido

Edição

Vikram Seth: mais um bom partido

10.07.2009
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Está a escrever uma sequela para o seu romance mais celebrado, o monumental "Um Bom Partido"

O indiano Vikram Seth está a escrever uma sequela para o seu romance mais celebrado, o monumental "Um Bom Partido", que em Portugal foi publicado pela Editorial Presença. Já há "plot" - Lata, a heroína de "Um Bom Partido", é agora uma avô em busca da noiva ideal para o neto. A Penguin, que terá o livro cá fora em 2013 (se tudo correr bem: "Um Bom Partido" demorou dez anos a ser escrito), anunciou que Seth vai trazer a narrativa para o presente, "acompanhando assim algumas das enormes mudanças sociais e económicas que a Índia atravessou nos últimos 60 anos". Em entrevista à Reuters, Seth explicou que não lhe interessava voltar a fazer um romance histórico e que este salto quântico lhe permitirá reflectir sobre a Índia do pós-independência.

2009-06-30 09:39

U2 estreiam palco giratório em Barcelona

Concerto

U2 estreiam palco giratório em Barcelona

29.06.2009 - Vítor Belanciano
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Começa hoje, em Barcelona, a digressão mundial do grupo mais conhecido do rock. Os irlandeses vão estrear uma nova estrutura giratória como palco. Segundo eles é revolucionária.

Sempre que o grupo rock mais conhecido do planeta inicia uma nova digressão, o mundo interessa-se pelo assunto. É já hoje, no estádio Camp Nou em Barcelona, que os U2 iniciam uma digressão mundial intitulada "U2 360º Tour". O pretexto é a apresentação do último álbum "No Line On The Horizon", lançado em Março.

O grupo está instalado em Barcelona há três semanas, ensaiando e acompanhando a montagem do cenário e do equipamento técnico. O estádio, com lotação para 90 mil pessoas, esgotou em menos de uma hora. Aliás o grupo resolveu adicionar uma segunda data para o mesmo local, 5ª feira, encontrando-se ainda alguns bilhetes disponíveis. De resto, as 44 datas europeias e americanas da digressão, para este ano, encontram-se na mesma situação. Ou seja, esgotadas ou em vias de o serem. Portugal desta feita não foi contemplado, especulando-se que poderá vir a sê-lo quando forem conhecidas as datas da presente digressão para o próximo ano.

Uma das grandes novidades para esta digressão será a estrutura do palco, o epicentro de toda a cenografia. Há quem jure que é uma nave espacial, outros que é uma garra, e outros até que é uma forma inspirada na estética de Gaudí. Seja o que for, é uma estrutura de quatro patas que se eleva a 50m de altura, albergando um cenário circular em torno do qual pode agrupar-se público.

Segundo o director da digressão, Jake Berry, a inspiração para tão invulgar estrutura surgiu ao grupo há quatros anos. Não na Barcelona de Gaudi. Mas no Hawai do surf. A intenção do grupo é que cada um dos 90, 000 espectadores do Camp Nou sinta que Bono, The Edge, Adam Clayton e Larry Mullen Jr estão ali, mesmo ao pé, a actuar para eles. Essa ilusão de intimidade é ambição antiga para quem toca regularmente em estádios para multidões.

Mas os U2 dizem agora que, com essa estrutura giratória, tal é possível. Em declarações à imprensa espanhola têm utilizado mesmo a palavra "revolução" para descrever o palco. A intenção é criar um ambiente de alguma intimidade, com qualquer pessoa, em qualquer zona do estádio, a ter acesso ao mesmo tipo de visão do concerto, graças à acção giratória de 360º. Através dessa estrutura e também da actuação de cerca de 17 operadores de câmara que trarão de tentar mostrar tudo o que está a acontecer em palco. A concepção da digressão, ao nível do design audiovisual, é da responsabilidade de Willie Williams e do arquitecto Mark Fisher, que já colaborou com grupos como os Pink Floyd ou Rolling Stones.

O concerto durará cerca de 2 horas, durante as quais a banda irlandesa interpretará entre 20 e 22 canções, das quais meia dúzia pertencerá ao último álbum. Na internet há inúmeros vídeos que dão conta da estadia do grupo em Barcelona e, alguns deles até reportam, de forma não oficial, ensaios do grupo. Entre os temas que o grupo tem estado a exercitar encontram-se, sem surpresas, canções como "Beautiful day", "I still haven't found what i'm looking for", "The unforgettable fire", "Pride" ou "With or without you".

Outra coisa que já se sabe - até porque foi a própria banda a divulgá-lo - é que na interpretação da canção "Walk on" vão pedir aos fãs para colocarem uma máscara de Aung San Suu Kyi, numa demonstração que a Nobel da Paz - para quem compuseram a canção - não está esquecida. Quem quiser recortar a referida máscara pode fazê-lo em http://media.u2.com/ASSK/ASSK_mask.pdf.

2009-06-30 09:39

Woody Allen volta a Nova Iorque (e aos seus judeus-tipo) com a ajuda de Larry David

O protagonista de “Whatever Works”, novo fi lme de Allen, parece ser uma síntese do realizador e David: um cínico, um céptico, um auto-alienado
Whatever Works

Woody Allen volta a Nova Iorque (e aos seus judeus-tipo) com a ajuda de Larry David

26.06.2009
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"Whatever Works" é a história de um cientista, outrora candidato ao Nobel, que despreza tudo e todos, até que entra em cena uma jovem...

Larry David garante que é um homem tão azedo quanto aquilo que mostra na série "Calma, Larry". E também é frontal quanto às reservas que tinha em relação a participar no novo filme de Woody Allen, que marca o regresso a Nova Iorque do argumentista/realizador. "Achei o argumento brilhante", explica ao "Los Angeles Times" em vésperas da estreia de "Whatever Works" nos EUA. "Mas tinha as minhas dúvidas sobre se conseguia ou não fazê-lo. Porque não é o tipo de coisa que normalmente faço. Geralmente, faço de mim mesmo", constata.

Mas o protagonista de "Whatever Works" parece ser uma síntese de Allen e David: um cínico, um céptico, um auto-alienado. "Whatever Works" é a história de um cientista outrora candidato ao Nobel, Boris Yellnikoff, que vive alegremente só em Nova Iorque após um divórcio e que despreza quase tudo e todos, convencido que só a sua mente iluminada conhece o sentido da vida, da mecânica quântica e da importância de viver na sua bolha organizada, meticulosa e pouco sociável. Eis que entra em cena uma jovem, interpretada por Evan Rachel Wood, e tudo muda.

A colaboração David/Allen é uma nova investida americana na Nova Iorque pelo periscópio do judeu. Mas a cultura judaica americana mudou. Os judeus agora dão cartas, são "insiders" e fazem a sua própria comédia. As personagens-tipo de Allen eram "outsiders", frutos de uma cultura focadíssima no pós-Holocausto, no seu iídiche e numa vida "kosher". Agora há o Judd Apatow "boy" Seth Rogen, que está em quase todos os filmes de comédia recentes, Ben Stiller ganhou há um par de semanas o Prémio Gerações da MTV e Sarah Silverman é a rainha da comédia viral "online". O guião de "Whatever Works" tem 40 anos e hoje, com toda uma fornada de comediantes de origem e "praxis" judaica na primeira linha do entretenimento (Jon Stewart, Jerry Seinfeld, Larry David), o filme e as suas temáticas do judeu neurótico arrisca-se a parecer... de época. Woody Allen "está a ficar velho. Está a ficar nostálgico. Está preso numa dada época", comenta no "Guardian" Al Nigrin, professor de Cinema na Universidade Rutgers. "Em breve surgirá uma geração de judeus cujas mães cresceram a ver a MTV", comenta Robert Thompson, director do Centro Bleier para a Cultura Popular, no "Guardian". "Whatever Works" ainda não tem data de estreia em Portugal.

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Download Aculturarte Magazine #0   Depois de algum tempo de indecisão, em que os alicerces deste projecto pareciam estar prestes a quebrarem-se, a Aculturarte regressa em força nesta que é a primeira edição da nova fase de Aculturarte. “Este é o primeiro dia, do resto da tua vida” parece ser o...