"AURORA"

Tapando, nas fotos promocionais, as suas próprias caras com retratos de Jim Morrison, Jimi Hendrix, John Lennon, Sly Stone e Elvis Presley, os Madame Godard fazem do mundo e dos seus heróis um recreio pessoal: «Love Is Poker» encontra-os numa roda-viva entre o calor latino e as sugestões balcânicas, via sopros; «Hardly Alone» é um samba-jazz, com vénia cantada a mitos universais (Hitchcock, Marvin Gaye, Jacques Tati, Martin Luther King, Freud, Gilberto Gil); «Ladies & Gentleman» traz um carrossel incorporado, graças aos teclados praticamente power pop. Quem baptiza uma música de «Love Is Poker» – tema convocado para a compilação FNAC de Novos Talentos 2008 – só pode ter da vida uma perspectiva saudavelmente lúdica. Com «ofícios» como o teatro de rua, as danças africanas e o DJing de música funk nas actividades extra-curriculares, os Madame Godard equilibram este sorriso aberto para o mundo com os riscos que – juram a pés juntos – são essenciais para manter o coração da banda a bater. Na badalada actuação em Paredes de Coura, no Verão de 1999, os Madame Godard deram que falar ao apresentarem-se em palco com uma orquestra de 15 elementos. Em Aurora, só precisam dos «suspeitos do costume» – o theremin, o violino, o trompete… as palminhas! – para assinarem cinco canções joviais que, na medida certa, se levam a sério. Enquanto o primeiro longa-duração, produzido por Paulo Miranda (obreiro de discos de Old Jerusalem ou Paulo Furtado) não desabrocha, Aurora e a sua música graciosa, burlesca e tropical é mais do que suficiente para aquecer os nossos dias.
Têm nome de senhora mas postura de «mademoiselle», menineira na forma como brincam com as canções, as referências – que vão da música aos filmes, passando pelas mais expressivas artes de rua – e com o seu próprio percurso, menos jovem do que a sorridente «cara» deste EP possa indicar. Aurora pinta-se com as mesmas cores – ligeiras e esperançosas, logo irresistíveis – de um nascer do sol, e representa de facto uma nova jornada na vida de uma banda cujas primeiras «medalhas» – uma aplaudida passagem por Paredes de Coura, um segundo lugar no Termómetro Unplugged – começaram a ser coleccionadas ainda na década de 90. Naturais de Viana do Castelo, Juvenal Vieira, Pedro Amaro, Paulo Oliveira, Paulo Gonçalves e José Ribeiro provam, na mão cheia de canções que Aurora traz, que conseguem ser felizes em qualquer parte do mundo em que o sol brilhe – e até em Inglaterra, com cuja pop mais clássica dançam em «Queens of the Twilight», a música que abre o disco.







