"of/niet" é uma raridade porque não é todos os dias que vemos os quatro actores fundadores dos STAN juntos e em palco. Dado o estado do mundo, estávamos a precisar de uma comédia, dizem. Sábado e domingo na Culturgest
Os belgas STAN não querem que nada se intrometa entre eles e os seus espectadores, por isso nunca trabalham com encenadores. Sem deus nem chefe - nem mesmo na sombra. As peças são sempre criações colectivas, como se não fossem uma companhia de teatro mas uma cooperativa. Por telefone, perguntamos a Jolente De Keersmaeker (n. 1967), um dos quatro fundadores dos STAN - cujo nome é o acrónimo de Stop Thinking About Names - se, no fundo, no fundo, não são uma companhia de actores-encenadores. "Acho que somos uma companhia de quatro actores-executantes" (o que ela diz, em inglês, é "actors-makers"). "Não encenadores, mas executantes. E isso está presente em nós desde o conservatório: uma vontade de fazer as nossas coisas, de nos dirigirmos a nós próprios. O que significa, também, que, a dada altura, temos de distanciar-nos do que estamos a fazer."
"of/niet" ("ou/não"), o espectáculo que trazem este sábado e domingo à Culturgest, em Lisboa, integrado no Festival de Almada, reúne em palco, pela primeira vez em muito tempo, o núcleo duro dos STAN - Jolente De Keersmaeker, Damiaan De Schrijver e Frank Vercruyssen, os três fundadores da companhia em 1989, e Sara de Roo, que se juntou a eles em 1992 (Waas Gramser, o quarto fundador original, deixou-os em 1994 e é hoje membro da Comp.Marius).
A última vez que tinham feito uma peça juntos fora em 1997, com "Private Lives", de Noël Coward, e Jolente De Keersmaeker está a notar, agora mesmo, a tendência: sempre que trabalham os quatro, as escolhas recaem em comédias conjugais ásperas. "Conhecemo-nos há 25 anos, e por vezes parece que estamos numa relação matrimonial", admite Jolente sobre o quarteto de actores. Em 2006, quando os STAN estrearam "of/niet", o jornal belga "De Morgen" definiu o seu funcionamento como "uma relação aberta, em que, de tempos a tempos, os parceiros partem numa viagem individual, em vez de deixarem a casa batendo com a porta".
Na prática, isso significa que ocasionalmente seguem caminhos separados, desenvolvendo os seus projectos, a solo ou chamando outros colaboradores, e até chegam a trabalhar em produções exteriores, de outras companhias - Jolente fez "Just Before", "I said I" e "Kassandra", com a irmã, a coreógrafa Anne Teresa de Keersmaeker, e Sara de Roo trabalhou com o grupo holandês Dood Paard.
"É uma coisa que vai e vem", explica Jolente. "Às vezes sentimos: 'Agora apetece-me fazer uma coisa a solo'. Ou: 'Quero fazer um projecto sem eles'. É muito orgânico, na verdade."
E acabam sempre por voltar aos STAN. "Assim que eu sentir que já não estou a aprender nada ou que nos estamos a repetir, páro", diz. "Mas, até agora, tenho encontrado sempre novos desafios."
E é assim tão diferente quando são só os quatro? O que é que isso tem de especial? "Claro que é diferente. É fantástico porque só temos de mexer um dedo para saber: 'Oh, ele quer dizer isto'. Estamos juntos há mais de 20 anos, conhecemo-nos tão, tão bem que isso tem vantagens e também desvantagens. Mas, ao fim e ao cabo, quando olhamos para o resultado, sabe tão bem trabalhar num ambiente com estas três outras pessoas em quem posso confiar, com quem me sinto segura para correr riscos, para ser frágil, para cometer falhas. Tem sido um longo, longo percurso. E por vezes foi muito difícil atingir o ponto em que estamos agora. Houve altos e baixos. Mas sentimo-nos tão bem a fazer esta peça, ela lembra-nos o gozo que é estarmos os quatro juntos em palco."
Humor e uma guerra lá fora
"of/niet" é uma montagem de duas peças, "Party Time", escrita em 1991, por Harold Pinter, e "Relatively Speaking", do também britânico Alan Ayckbourn (escrita em 1965, e representada em Londres em 1967, foi a peça que trouxe notoriedade ao dramaturgo, que ainda não tinha 30 anos). O texto de Pinter é uma alegoria ácida sobre um mundo de conforto e privilégio, isolado e indiferente à realidade do exterior - o ambiente é o de uma "cocktail party" num clube selecto, e a peça é composta pelas conversas que os membros vão tendo entre si - sobre a piscina do clube, ilhas paradisíacas e outras frivolidades - enquanto lá fora decorre uma guerra (a cidade está vazia, há soldados nas ruas, estradas bloqueadas). Pinter escreveu "Party Time" no ano em que eclodiu a primeira Guerra do Golfo. É uma sátira com uma violência e um sadismo latentes.
"Relatively Speaking", de Ayckbourn, é uma sofisticada comédia de enganos envolvendo dois casais - um jovem visita o que julga ser a casa dos pais da namorada, quando, na verdade, trata-se da residência do antigo amante dela. Um hilariante enredo de mentiras e equívocos.
A peça de Ayckbourn - dramaturgo que tem interessado o cinema de Alain Resnais, desde "Fumar"/ "Não Fumar" - constitui 85 por cento de "of/niet", resume Jolente, e a de Pinter os restantes 15 por cento. Esta última abre e fecha a versão dos STAN, e vai pontuando o espectáculo como interlúdios.
Para lá dos temas comuns que podemos apontar às peças de Pinter e Ayckbourn - dois microcosmos de falsas aparências sob o pano de fundo de uma "Britishness" emproada, dois mundos de faz-de-conta, cada um à sua maneira -, o que é que levou os STAN a juntá-las? "Sentimos que estava na altura de fazer uma comédia outra vez. Às vezes escolhemos peças que são, digamos, um pouco mais pesadas, mas isso tem muito a ver com o espírito e o momento em que se está. Sei lá, se há uma guerra em curso no mundo, qual é a nossa resposta a ela? Se calhar, temos de fazer qualquer coisa ligeira... A dada altura, foi uma coisa do género: 'Vamos fazer uma comédia, vamos rir'."
O que explica a escolha da peça de Ayckbourn, "o exemplo perfeito da comédia de enganos, sobre dois casais que estão no lugar errado à hora errada", resume Jolente, em que "a única coisa que podemos fazer é rir com os erros tão típicos de todos os seres humanos - enganar, cometer erros, mentir e não admitir a verdade, ter medo". Mas não explica Pinter. Os STAN são conhecidos por as suas escolhas de textos e de espectáculos terem, implícita ou explicitamente, uma carga política. "Se me perguntar se [a escolha de Ayckbourn] tem algum significado político, diria que não. Claro que é um manifesto ["statement", em inglês] dizer: não se esqueçam das pessoas nestes tempos de cinismo. Mas faltava mais qualquer coisa. Tínhamos de trazer [a peça] de volta para o mundo. E o Pinter faz-nos assentar os pés na terra outra vez. 'Party Time' também é uma comédia mas tem uma nuance perversa, tem uma camada política subterrânea, é mais cínica e irónica. Isso é uma das coisas que gostamos muito no Pinter: as peças têm sempre uma dupla camada. Ao misturar 'Party Time' na peça de Ayckbourn estamos como que a inserir pequenas agulhas. Para nós, isso era um bom equilíbrio. Se fosse só o Ayckbourn, teria sido demasiado fácil. O Pinter também tem imenso humor, mas ele lembra-nos que há um mundo lá fora - que há uma guerra em curso. O que nos pareceu uma bela metáfora do que estamos a fazer quando representamos a peça - somos actores e estamos a representar e a divertirmo-nos, mas aqui ao lado o mundo continua."
A actriz conclui: "Sem ser moralista, ele faz-nos pensar que estamos a viver num mundo extremamente privilegiado, rico e luxuoso. As pessoas que vão ao teatro não são as pessoas que não conseguem ganhar a vida... Claro que houve a crise financeira mas isso não é nada comparado com o que as pessoas em África, na América do Sul ou na Índia têm de fazer para ganhar a vida."
Não é a primeira vez que os STAN afiam as facas na mira da nossa burguesia de costumes (não é por acaso que um dos autores mais representados pela companhia é o austríaco Thomas Bernhard). Perguntamos a Jolente se a velha expressão "épater le bourgeois" (chocar a classe média) ainda faz sentido, para eles. "A primeira coisa que tem de perguntar é: quem é burguês? Eu também sou burguesa, e estou a criticar os burgueses. Também estamos a falar de nós. Na sexta-feira vou apanhar um avião para actuar num teatro em Lisboa - o que é muito confortável, obviamente."
A comédia serve-se fria, e isso também se vê no dispositivo cénico. O palco é descarnado em "of/niet", o "décor" quase inexistente, os figurinos sóbrios e básicos. "Representamos com quatro cadeiras e quatro sacos de plástico, e tudo o que precisamos está dentro do saco de plástico. Não há cenário", nota. Porquê? "De outro modo, isso iria distrair da força e da espirituosidade do texto. Seria demasiada explicação, a nosso ver. Queremos dar ao público a oportunidade de construírem a sua própria história. Não é preciso construir um cenário realista, com cortinas, isto e aquilo. Quanto mais despido for, mais se consegue ir à essência da coisa."
"Of/niet" é representado em neerlandês, com legendas em português.