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A utópica missão a que nos propusemos continua a mover-nos. Fazer a Aculturarte é duro, no entanto, nada nos demove de a levarmos a cabo. Um projecto independente e sedento de apoios que no entanto lhe faltam. As forças, essas, permanecem no nosso peito e é com coragem que vos apresento mais uma edição. O projecto poderia esventrar-se de encontro a algo maior, no entanto, a falta de apoio sustem-nos neste patamar redutor. Um país que merecia mais, que poderia ambicionar mais. Não é este um desabafo mal humorado de quem acordou para o lado errado, é sim um testemunho de quem luta para levar a cultura em português cada vez mais longe. As desculpas sinceras de quem não pôde cumprir a missão da execução desta revista nos últimos dois meses, e a garantia de que o compromisso continua a ser total. Para aqueles que mensalmente contam com a nossa companhia e dedicação, aqui vai uma palavra de apreço e gratidão.
Falemos então no que este mês nos vai trazer. Desde logo o destaque vai para os Kaiser Chiefs que se dispuseram a falar com o Davide Pinheiro, entrevista concedida ao Diário Digital que aqui reproduzimos.
Merecido destaque demos ao “O concerto de Gigli” de Tom Murphy, espectáculo levado a cena pela ASSéDIO – Associação de Ideias Obscuras, com encenação de Nuno Carinhas, patente no Teatro Carlos Alberto no Porto. No que a Artes Plásticas diz respeito, fica o nosso conselho para a exposição: “Cold War Modern” para ver em Londres.
Para ler, aconselhamos o último livro de Rui Zink, “O Destino Turístico”.
A fechar, o cinema em português de Tiago Guedes e Frederico Serra com o filme “Entre os Dedos”, que é a segunda longa-metragem da dupla, depois de “Coisa Ruim” e, tal como este, com argumento do jornalista e romancista Rodrigo Guedes de Carvalho.
Uma nota de destaque a que infelizmente não pudemos dar relevância, é a do êxito obtido pela Associação “Teatro à Sexta” na eliminatória regional do concurso Teatrália, iniciativa do INATEL, que graças a terem ganho se encontram de armas e bagagens com destino a Lisboa, nomeadamente à Aula Magna, representar o distrito de Viana do Castelo.
Parabéns.
Ricardo Lemos
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Opinião

Ricardo Lemos
Teatrália (ou a eterna apologia ao popularucho)
Que há instituições que carregam no seio o peso de uma gestão de muitos anos, já toda a gente sabe, mas que permaneçam com uma gestão antiquada, neste caso no que a teatro diz respeito, é um caso sério de falta de ideias novas.
A instituição que se auto-intitula promotora do teatro de amadores em Portugal, o Inatel, deixa a esse nível, muito a desejar.
Exemplo disso são as condições apresentadas no evento a que essa instituição chamou “TEATRÁLIA - Concurso Nacional de Teatro”, especificamente as finais nacionais que se realizaram na Aula Magna.
Para quem “promove” o teatro de amadores, fica claro que a “promoção” de uma final, numa sala como a Aula Magna, é algo de quem não sabe “promover” coisa alguma.
E não me canso de usar a expressão “promover”, pois quem não “promove” a qualidade ao nível das condições de luz, de palco, e de som, não “promove” as condições básicas para se fazer teatro.
Não tenho nada contra a Aula Magna, mas que este espaço é mais vocacionado para a apresentação de espectáculos musicais, não resta a menor dúvida. Dúvidas também não subsistem quanto à incapacidade total do seu uso como espaço de apresentação de espectáculos teatrais.
Antes de se “promover” expressões pomposas como “Finais Nacionais”, é preciso criar condições para se legitimar essas mesmas expressões, a começar com o uso de microfones de lapela, onde o seu uso, no regulamento do referido concurso, era designado como “OBRIGATÓRIO”. Quanto a isto apenas duas perguntas: será que o seu uso era obrigatório pela evidente falta de qualidade acústica da sala? Ou talvez pela falta de conhecimento do “promotor” do evento quanto à forma de se fazer teatro, onde imperam expressões como “projecção de voz”?
Outro “destaque” vai para os cabos que inundavam a parte traseira e lateral do palco, que para além de deixarem o actor mais “descontraído”, pois remetiam-no para o tempo da infância em que jogava à macaca tentando não pisar os riscos, o que aqui se traduzia em não pisar os cabos, também o entregavam ao sonho adolescente de ter a sua banda de música, já que o palco parecia mais de uma qualquer banda rock do que de uma “final nacional” de teatro.
Quanto a “pernas de palco”, esta organização parece não ver o seu interesse para um espectáculo teatral, pois se um actor quer entrar ou sair de palco basta desviar aquelas “cortinas” que circundavam toda a estrutura a que chamaram palco.
Bambolinas a cobrir os projectores? Pareciam não ser necessárias, pois a luz era geral e apenas existia fade in ou fade out até blackout.
Como apontamento final, deixo-vos a imagem do fundo de um palco que é invadido pela luz de bastidores, e onde cada passo dos técnicos ou actores é seguido com imensa curiosidade pelos espectadores.
Quanto aos jurados, abespinha-me que a biografia patente no manual do espectador não contenha referência alguma quanto à vida dos mesmos no teatro de amadores. Que passaram um dia por amadores, não tenho qualquer dúvida, mas que se ausente essa vivência quando se está precisamente num festival de amadores, é algo de uma tacanhez “pseudo-elitista” de quem quer engrandecer os jurados face aos actorzecos amadores.
Lamento imenso a nítida sensação que me assolou e que me levava a querer que o júri tinha uma especial predilecção relativamente a textos de autores portugueses, ainda que muitos destes possuíssem uma qualidade bastante questionável.
Assoma-me a tristeza ao relembrar-me do ambiente que pairava no ar daquela “final nacional”, e que me esclarecia que o júri via em cada um daqueles grupos de “ campónios que fazem teatro ao fim de semana”, uma incapacidade para fazer teatro com a classe que a capital merece.
Já para não falar no desprezo dado a grandes clássicos do teatro mundial, que inconfundivelmente foram analisados por um prisma néscio e redutor, algo inadmissível na actuação de um júri.
Podemos particularizar a actuação do júri e aí só agudizamos todo o discurso até o tornar claro e perceptível.
Quanto a Maria Emília Correia, terminou o festival a dizer que não sabia pintar paredes, guiar camiões ou fazer sapatos, e me parece que lhe faltou acrescentar a capacidade para ser júri. Quem pinta os lábios, quem se penteia, ou quem sai do auditório para fumar cigarros, me parece que não sabe uma responsabilidade básica do júri que é analisar o trabalho apresentado.
Além do mais, esta respeitável senhora insistia em questionar premissas básicas da construção teatral, e que só dizem respeito ao encenador. Premissas estas, assumidas pelo encenador que assim queria dar a conhecer a sua visão, mas que esta senhora por força de se querer evidenciar, ou talvez pelo desconhecimento total do que é ter diferentes visões sobre o mesmo objecto artístico, insistiu em denegrir.
Para uma maior percepção dos grandes clássicos do teatro mundial, deixo a seguinte sugestão a Maria Emília Correia: “Deixe de fazer Morangos com Açúcar”.
Quanto a Fernando Dacosta existe em mim um sentimento que me espolia, pois ter a nobre função de avaliar sem nunca sequer ter pisado um palco, e consecutivamente com falta de tarimba do que é ser actor e estar vulnerável aos olhares opressivos de um júri, é de uma revolta imensa.
Nitidamente deslumbrado pelas questões do teatro português, desfaleceu-se em elogios a uma comédia vicentina que faria Gil Vicente dar voltas no túmulo.
Levado por uma postura graciosamente nacionalista, insistia em congratular os grupos com textos de autores portugueses, ainda que estes fossem despojados de qualidade textual ou interpretativa.
Nas entranhas de tudo isto estava Ângela Pinto, que ainda assim me parecia a mais iluminada que ali estava.
Amofina-me que se tivesse perdido no meio daquela desmazelada dupla, parecia-me a mim o elo mais fraco da bamba corrente.
Com uma acção pouco definida, foi tolhida por torpes visões teatrais.
Como balanço de toda esta medíocre manobra de diversão, apelo ao Inatel a uma mais cautelosa visão quanto às problemáticas de se fazer um festival de teatro de amadores.
O teatro é uma arte maior, que não sai dignificada com as condições que foram apresentadas.
Deixo a sugestão para a escolha de um júri capaz de analisar os grupos por um prisma de amadores, e que não fraccione as questões em profissional/amadores como este o fez.
Os grupos precisam de alguém que conheça a realidade do teatro de amadores e que saiba distinguir, dentro do amadorismo, qual o melhor ou o pior, sem referências ou julgamentos de pedestal por parte de profissionais.
O deslumbre quanto a jurados que são profissionais do teatro acaba quando descobrimos que eles não sabem ser jurados, além de que nos faz questionar se são eles mesmo profissionais, ou se apenas ganham dinheiro com o teatro.
Sei que o Inatel tem capacidade para fazer mais e melhor, e é por isso que aqui deixo esta chamada, para que o Teatrália deixe de ser a eterna apologia ao popularucho.






